Lembra do skate Bandeirante?

Fé de alta performance? - por José Bruno

Atualizado: Segunda-feira, 4 Fevereiro de 2013 as 10:57

 

zé brunoNunca estou em casa aos domingos de manhã, mas hoje, devido ao meu repouso pós-operatório (meu ombro tá novinho agora), aqui estou eu assistindo o mundial de Skate Vertical. Eu me lembro de quando o esporte surgiu, os primeiros skates chegavam ao Brasil... faz tempo... eu era adolescente e a Reportagem do Fantástico falava em surf com rodas!
 
Meu primo Zé ganhou um Skate e eu fiquei vidrado. A onda eram os Skates Torlay, quem tinha um era o cara. No Brasil a Bandeirante, fábrica de triciclos e tico-ticos, fazia um skate tupiniquim que era o nosso sonho de consumo, eu e o Jorge chegamos a ter um usado, que alegria, um skate Bandeirante...era nacional, mas e daí?
Eram os primeiros passos de uma diversão de garotos que se transformaria num esporte de alta performance com um circuito mundial badaladíssimo.
 
Eu nunca fui skatista, não foi o meu esporte, mas nessa manhã fiquei paralisado diante da TV, eu estava diante de uma cena rara. Se os repórteres não dissessem nada, ninguém imaginaria que aqueles meninos, colegas de skate são na verdade atletas alta performance. O cenário não é um cenário de competição de alta performance.
 
Esportes que exigem alta performance dos atletas são esportes incríveis, plasticamente lindos de se ver e chatíssimos de se viver. Atletas de alta performance precisam de psicólogos pois há muita cobrança. Treinos estressantes, técnicos estressantes, reportagens estressantes de uma imprensa estressante que cobra mais que a torcida. Uma torcida estressante, apaixonada e doente, que por amor ao esporte se torna violenta!
 
Patrocinadores querem resultados, a imprensa se mete até na vida pessoal dos atletas. Muito dinheiro envolvido, cada atleta precisa se preocupar com seu rendimento, seu contrato, sua imagem, sua rentabilidade. Empresários pensam em suas carreiras e ganham milhões com esses atletas. Talvez um atleta assim, sem perceber, destrua o próprio sistema nervoso e a autoestima em busca de felicidade, um contra senso. Torcedores se matam, e o país passa a odiar aqueles que perderam um pênalti, ou não conquistaram uma medalha, e por fim estragaram a vida da nação!
 
Pior ainda se o adversário for argentino, meu Deus, isso aumenta nossa vergonha e tira de nós o direito de fazermos piadas demonstrando ser uma raça superior aos outros seres humanos que vivem num limite territorial distinto.
Somos Hitler tentando provar a superioridade da raça ariana diante da incontestável superioridade de Jesse Owens, um negro que apenas corria por esporte, mas carregava sobre si a responsabilidade de demonstrar que os arianos seriam subjugados pelo Black Power. Humanos se autodestruindo emocionalmente pra recuperarem as perdas da vida subjugando outros seres humanos através do esporte. Que beleza!
 
Era pra ser só um esporte!
 
Os garotos do Skate me pareceram tão distantes disso... A área dos atletas era um pequeno espaço onde todos conviviam juntos, aliás eles se conhecem! Parecem até que torcem uns pelos outros. Eles se cumprimentam a cada volta, vibram uns com os outros, e lamentam quando vêm um adversário errando uma manobra, parece que amam as manobras, amam ver os twists, os “360º.”, os saltos radicais uns dos outros. O atleta que falha e cai, lamenta, dá risada e é aplaudido por uma multidão de garotos também skatistas que vibram a cada manobra, tudo ao som de um bom, e velho Rock. O comentarista Sandro Dias, também skatista, se delicia com cada um de seus amigos que competem. Pais e mães dos competidores incentivam e acompanham seus filhos, ninguém é mais, ninguém é menos, ninguém é superior e ninguém é careta.
Do estúdio, Ivan Moré pergunta a Tiago Leifert que está ao vivo na rampa, se há animosidade ou rincha entre os skatistas e Tiago diz que absolutamente não, então a câmera mostra a brincadeira entre eles e sua amizade.
 
Nomes de rapazes talvez desconhecidos do universo da maioria de nós telespectadores, como Rony Gomes, Mitchie Brusco, americano de 15 anos, Pedro Barros, Bob Burnquist, Andy Mcdonald, Jimmy Wilkins ou Marcelo Bastos me inspiraram e acho que me confirmaram uma lição – É preciso saber viver.
 
Enquanto isso alguns canais vizinhos no mesmo instante, e ao longo da semana, transmitem o evangelho de alta performance. Pessoas são ensinadas a se desgastarem pra serem felizes. É a fé de alta performance, fé de maior rendimento. Frases como: “Creia mais, se sacrifique mais, doe mais. Tome posse do que quer, não aceite a derrota, oferte 10% dos 100 que você quer ganhar, profetize vitória a todo tempo, faça vigília, suba no monte, desça no vale, faça Deus ficar te devendo!!! Você só será feliz quando Deus fizer o que você quer!”
 
Uma fé de alta performance faz Deus melhorar sua performance. Entendeu?
 
“Esfregue mais a lâmpada e o gênio da lâmpada te permitirá 3 pedidos, talvez 12 se ele estiver de bom humor, ou 11 se ele te cobrar o pecado de Judas...”novesfora”... você ainda estará no lucro.”
 
skate
 
Meu Deus, que saudade do skate Bandeirante...
 
A Igreja da TV se tornou um bom motivo pra selecionar canais de qualquer outra coisa nos “preferidos” do controle remoto.
Esses garotos me disseram que a vida é bela. Que tudo que Deus fez é bom. Somos humanos, somos irmãos, somos criaturas de Deus.
O que estamos fazendo com o mundo que Ele nos deu? O que estamos fazendo com a diversão? O que estamos fazendo com o esporte?
Ciclismo, um sinônimo de saúde, agora faz atletas se encherem de anabolizantes e drogas, perdendo a saúde pra ganhar mais dinheiro? Que loucura!!!
 
E mais - O que estamos fazendo da fé? Virou uma corrida? O prazer de celebrar a Deus se transformou num caos? A alegria de viver com Deus deu lugar a odiar a Deus por não nos dar a vida que queremos ter longe dele?? Quem é mais ungido? Quem tem mais poder? Quem faz mais milagres? Qual Igreja dá mais rentabilidade de bênçãos em troca da sua fé?
Alta performance...que loucura!!
 
Não sei se o cenário do circuito mundial de Skate é o paraíso, talvez não seja, tive apenas uma impressão hoje, mas agradeço a Deus pelo que vi. Adultos ou não, atletas ou não, o que importa é que vi crianças se divertindo.
 
Todos os skatistas têm patrocínio, roupas, viagens e altos salários, mas me deram a impressão de que sempre serão felizes por apenas ter uma rampa pra curtir mais uma volta, aliás, me deram a impressão de que já eram felizes antes do profissionalismo, curtindo o skate nas praças onde de forma precária e interesseira o poder público ainda mantém rampas mal conservadas.
 
Bem aventurado o que precisa de pouco pra ser feliz. Mais bem aventurado ainda o que percebe que Jesus é tudo, e infinitamente mais do que o nosso pouco ou o nosso muito.
Triste ver que aquele ambiente juvenil deveria ser achado no seio da Igreja, mas sei que em muitas Igrejas ele ainda é achado, porém as que aderiram ao caminho da mídia parecem andar em outro sentido.
 
Ainda bem que Deus não precisa das instituições “Igreja” pra dar alegria de viver a um garoto.
De alguma forma, o que estas instituições não conseguem promover dentro de quatro paredes, eles encontraram sobre quatro rodas.
 
Num mundo capitalista, competitivo e de alta performance, esses garotos encontraram vida, quero falar pra eles do evangelho da salvação. Quero falar pra eles do Pai que criou tudo, do Filho que nos salva e do Espírito que habita em nós. Quero que eles continuem a me ensinar a ser simples.
Quero ser parte de uma Igreja que vive a vida de Deus em comunhão, e que quer ensinar e levar essa vida aos homens.
 
Acho que esses garotos são o tipo de gente que precisamos ser, são os missionários urbanos que precisamos ser pra demonstrar a vida de Deus ao mundo, e são a campainha que deve nos acordar todos os dias.
 
Vou comprar um skate Bandeirante, tipo peça de museu mesmo, e colocar na parede do meu estúdio pra nunca me esquecer do que vi hoje.
 
Bem que a Bandeirante poderia voltar a fabricar esses modelos, eu confesso que desejaria ser um representante comercial só pra distribuir skates na Rua Conde de Sarzedas... bom, acho melhor não...eu morreria de fome...
 
 
por José Bruno
 

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