FIFA proibi qualquer manifestação religiosa em seus torneios

FIFA proibi qualquer manifestação religiosa em seus torneios

Atualizado: Terça-feira, 21 Setembro de 2010 as 4:04

De tão improvável, a cena provocou uma reação imediata da Fifa como poucas vezes se viu. Ajoelhada no centro do gramado do Ellis Park, em Joanesburgo, a seleção brasileira rezava em agradecimento pelo título da Copa das Confederações do ano passado, assegurado com a virada por 3 a 2 sobre os Estados Unidos. Temendo servir de patrocinadora sistemática de missas a céu aberto, a entidade proibiu qualquer manifestação religiosa em seus torneios. Ato incapaz de apagar o exemplo mais claro da influência de um personagem discreto, porém importante, das três últimas campanhas brasileiras em Copas do Mundo.

  O pastor curitibano Anselmo José Richardt Alves, 51 anos, serviu de conselheiro espiritual da Seleção nos mundiais de 2002, 2006 e 2010. Na Ásia e na Alemanha sua atuação restringiu-se aos jogadores evangélicos como ele. A exigência de um elenco mais comprometido e menos baladeiro na Copa da África do Sul possibilitou um aumento na audiência das suas reuniões, sempre um dia após os jogos, para leituras da bíblia e reflexões sobre a vida. Os encontros não se restringiam apenas a Lúcio, Kaká, Luisão, Luís Fabiano, Gilberto Silva, Felipe Melo e Daniel Alves, seguidores da mesma fé do capelão, em um indicativo do seu aumento de prestígio.

“Ia quem tinha vontade. Às vezes ficavam três, quatro jogadores. Outras, dez. A gente não ia para falar de religião, se a minha é melhor ou a outra. Falávamos de exemplos da bíblia que podemos seguir na vida e no trabalho”, contou o meia Elano, católico praticante.

Pastor Anselmo sempre viajou bancado pela Associação Missionária de Capelania e Discipulado a Esportistas (Amcades), entidade mantida pelo zagueiro Lúcio e outros jogadores de futebol. Foi por intermédio do capitão de Dunga que Anselmo ganhou espaço na Seleção. Os dois se conheceram em 1997, durante um congresso dos Atletas de Cristo, e estreitaram os laços em 2001, quando o capelão viajou até a Alemanha para ajudar o jogador a resolver uma crise familiar.

Os hábitos religiosos da Seleção ganharam peso a partir de dois episódios: a acusação do meia Kaká ao jornalista Juca Kfouri de perseguição religiosa e a troca do observador Jairo dos Santos por Marcelo Cabo, amigo e companheiro de igreja do auxiliar técnico Jorginho. A hipótese de um racha de fé foi colocada na lista de possíveis causas do fracasso brasileiro no Mundial. Situação que fez aumentarem os pedidos de entrevista ao pastor Anselmo. E o tornaram mais avesso que de costume aos contatos com a imprensa. No Mi¬nistério dos Atletas da Primeira Igreja Batista de Curitiba (PIB), os assistentes se recusam a passar os telefones diretos do capelão e desencorajam qualquer tipo de tentativa de contato com ele. Solicitações de veículos de comunicação de todo o País se acumulam, sem resposta, na caixa de e-mails do Ministério.

Ocupando um quarteirão inteiro no bairro Batel, região nobre da capital paranaense em que o metro quadrado chega a valer R$ 4,5 mil, a PIB foi a porta de entrada para Anselmo na religião. Autodefinido como um “atleta profissional de médio porte, que jamais chegaria a um clube internacional ou à Seleção”, ele defendia o Operário, de Ponta Grossa (PR), em 1988, quando diz ter tido uma iluminação. “Recebi dentro do gramado o chamado do Senhor para me converter em mensageiro dele. Converti-me no vestiário, dentro do estádio, antes de um jogo”, contou, em uma de suas raras entrevistas, a um site evangélico, no fim do ano passado.

Na mesma conversa, Anselmo conta ter sido aconselhado a largar o futebol, que estaria por trás do seu envolvimento com drogas e álcool, que, segundo ele, levaram -no a destruir a vida de pessoas e preju¬dicar a sua. “A pessoa que me recebeu disse que, agora que eu havia conhecido o Senhor, deveria parar de chutar o ‘ovo do Diabo’. Respondi que conheci o Senhor através do ‘ovo do Diabo’ e ia continuar chutando o ‘ovo do Diabo’”, afirmou ele, que ainda mantém a forma física de quem acabou de pendurar as chuteiras.

Anselmo, então, prosseguiu com sua carreira, casou, teve um filho e começou a ganhar espaço na igreja. Em 1999, passou a ser o responsável pelo Ministério dos Atletas. No ginásio erguido na imponente estrutura da PIB, atende crianças carentes para a prática de diversas modalidades. Nas noites de segundas-feiras, comanda um culto.

Embora não goste de falar sobre sua relação com os jogadores, faz questão de associar sua imagem à deles. No ano passado, posou com Lúcio e outros atletas durante a inauguração do ginásio da PIB. No site da igreja, um vídeo exibe fotos dele ao lado de Ronaldo. Para ele, maneiras de divulgar ainda mais o seu trabalho. O que explica o orgulho pela celebração do título da Copa das Confederações, por ouvir Lúcio encerrar com “Deus abençoe vocês” a leitura da mensagem antirracismo da Fifa antes de Brasil x Holanda e ver nas chuteiras de Kaká escrito “Jesus em primeiro lugar”.

“Fica uma certa frustração pelas críticas destes irmãozinhos de fé, mas prevalece o prazer de ver que o mundo tem referenciais, exemplos de vida para a juventude, homens simples e humildes como Lúcio e Kaká”, disse, no fim do ano passado. Zagueiro titular na seleção da Copa de Mano Menezes, Lúcio deve ter chance em pelo menos parte da campanha até 2014. Resta saber qual espaço o guia es¬piritual dos três últimos mundiais terá na nova administração da Seleção. E se o novo treinador será colocado na categoria dos “exemplos para a juventude” ou dos “irmãozinhos de fé”.  

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