Gaza: Confronto faz repensar a criação de um Estado Palestino

Gaza: Confronto faz repensar a criação de um Estado Palestino

Atualizado: Sexta-feira, 23 Janeiro de 2009 as 12

Conflito de origem bíblica ainda deve retardar na resolução de um acordo de paz

Da Redação

"Eu não acredito que paz tenha a ver com um Estado ou dois. É claro que essa é uma questão importante, mas qual é a diferença entre dois Estados racistas e um Estado racista? Ou um Estado racista dominando o outro? A questão é se os dois povos conseguem viver lado a lado como iguais".  A afirmação de um israelense concedida ao jornalista Joe Sacco, publicada no livro Palestina - Na Faixa de Gaza, em 2003, reflete um tema recorrente na política internacional e que, desde dezembro do ano passado, voltou a ser pautado por grandes noticiários e a mobilizar protestos ao redor do mundo: o conflito entre Palestina e Israel.

Após um acordo de retirada das tropas israelenses da Faixa de Gaza, que aconteceu no último dia 21 de janeiro, a represália que teve como objetivo minar as forças do grupo político Hamas correspondeu a um saldo com mais de 1.300 mortos, 5.500 feridos, um prejuízo de US$ 2 bilhões ao território ocupado e a destruição de instalações da própria ONU.

Ainda que as negociações diplomáticas tenham refreado a ofensiva, a intransigência entre israelenses e palestinos suscitou novamente a importância da criação de um Estado Palestino reconhecido pela sua autonomia. "As possibilidades de atrito com um Estado internacionalmente aceito, com as suas fronteiras claramente estabelecidas, dificultaria muito mais uma possibilidade de reação e de volta a um conflito mais aberto", avalia a cientista política Maria Aparecida Aquino.  

Protestos Com a imagem arranhada no cenário internacional, a atuação de Israel no último mês chegou a ser comparada com o massacre do Holocausto. De acordo com Aquino, "um pouco do capital moral que Israel adquiriu com essa questão do Holocausto, se perdeu com a manifestação da chamada opinião pública internacional. Multidões saíram às ruas espontaneamente em diferentes partes do mundo para criticar".

Ainda assim, o teólogo e historiador Lucas Guimarães alerta para o perigo de repúdio ao povo judeu. "O que devemos repudiar é a guerra em todas as suas formas e meios, seja por quem for praticada. A ofensiva israelense poderia ser totalmente legal e necessária (pois somente quem mora em Israel sabe o que é viver diariamente marcado pela possibilidade de um atentado), mas as vidas inocentes mortas sempre serão um atentado à humanidade".

Acordo de paz

Uma vez que a constituição do Estado de Israel, em 1948, assim como a chamada Guerra dos Seis Dias, em 1967, causou a fuga de árabes e a conseqüente anexação dos territórios pelos israelenses, um tratado de paz só seria viabilizado, na opinião de Aquino, por meio da devolução dessas terras. "Não há outra possibilidade, a não ser que Israel devolva os territórios conquistados ilegalmente durante a Guerra dos Seis Dias e se firme a existência de um Estado soberano Palestino".

Com a posse do presidente Barack Obama, possivelmente o apoio irrestrito dos EUA a Israel cederá. Para Guimarães, a liderança de Obama deverá deixar claro para os palestinos a distinção que se faz no Ocidente em relação ao terror e aos direitos palestinos. "Acredito que uma liderança carismática é capaz de mostrar que o terrorismo é uma forma ilegítima de propaganda, como também a busca dos direitos através da força terrorista".

Conforme Israel alegou a ofensiva como medida de defesa contra os ataques de foguetes pelo Hamas, o número de vítimas que não foram exclusivamente formada por integrantes do grupo palestino provocou uma intervenção da organização internacional que pressionou, além de uma trégua, pela formação de corredores-humanitários. "A morte de civis causa danos a uma estrutura de poder mais do que a morte de soldados", analisa Guimarães.

Uma guerra bíblica Embora a questão ganhe novos acordos que visem uma "paz duradoura", como afirmou o presidente Barack Obama, a origem do enfrentamento está de um lado no Alcorão e do outro no Tanakh (a Bíblia Hebraica).

De acordo com o livro de Gênesis, capítulo 16, Deus concede Ismael a Agar, após Sara pedir ao seu marido Abraão que se deitasse com a concubina. Representado como o filho da carne, em oposição a Isaque, que seria a promessa de Deus para a descendência do patriarca Abraão, Ismael teria originado, segundo a crença israelense, os povos árabes.

Em contrapartida, os muçulmanos entendem, baseados numa passagem do Alcorão, que o filho da promessa seria Ismael. Segundo o teólogo Carlos Vailatti , "esta &simples& divergência, sem mencionar tantas outras, explica parcialmente o porquê de tanta rivalidade. De um lado temos o Alcorão, do outro, o Tanakh. De um lado temos Ismael, do outro, Isaque".

A profundidade da discussão caracteriza o conflito atual como uma briga por posses de terra. Tanto para árabes quanto para os israelenses, a descendência de Abraão herdaria as terras por onde o patriarca passou. "Para um árabe, Abraão, em suas peregrinações, passou pela Palestina, pela Arábia Saudita e por Meca. Logo, a região onde se situa o atual conflito no Oriente Médio lhes pertence. Por outro lado, os israelenses também entendem que têm o direito de propriedade sobre essa terra, pois ela lhes foi dada por Yahweh (Deus)", afirma Vailatti.

Para Guimarães, "de Isaque nasceu um povo e de Ismael outro. Mas o movimento muçulmano é resultado de uma interpretação religiosa e não de uma herança cultural. O sentimento de revolta palestino não encontra sua origem no drama de Ismael".

Anticristo Na ausência de um mediador capaz de fazer o diálogo entre o povo judeu e o muçulmano que acarrete na formulação de um acordo de paz, o cenário fica propício a profecias bíblicas que dizem respeito ao fim dos tempos, constatado no livro de Apocalipse. "Todos torcem para que Barack Obama assuma a presidência dos Estados Unidos e use a sua influência para pacificar as questões mundiais (fome, guerras, etc.) e se ele não fizer isto ficarão decepcionados. O mundo ocidental está preparado para investir numa liderança de influência mundial, desde que ela promova a paz. Logo, o que facilitaria o domínio anticristo não é a guerra, mas a paz", afirma Guimarães.

Não obstante muito se especule em relação a temas que dizem respeito ao fim do mundo, Vailatti alerta:  "A Bíblia não é clara quanto a esses assuntos que envolvem a pessoa do anticristo. Creio que o melhor que podemos fazer nestes momentos tão turbulentos e críticos é orar pela paz de Jerusalém (Sl 122.6) e pela paz do Oriente Médio como um todo".

Leia as entrevistas completas:

Rev. Lucas Guimarães: "O que facilitaria o domínio do anticristo não é a guerra, mas a paz" Teólogo destaca as diferenças religiosas entre judeus e muçulmanos Maria Aparecida Aquino: "Do lado dos EUA haverá o reconhecimento da necessidade de um Estado Palestino com autonomia"

 

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