Grupo de voluntárias prepara enxovais há 20 anos

Grupo de voluntárias prepara enxovais há 20 anos

Atualizado: Terça-feira, 31 Agosto de 2010 as 8:38

Em uma pequena sala cedida pelo Círculo de Trabalhadores Cristãos de Uberlândia,  se acomodam com aperto três máquinas de costura, uma mesa e dois sofás, também doados. Mas o espaço é suficiente para que Lucy de Castro Alves se dedique a uma das atividades que mais lhe dão prazer: costurar roupinhas de bebê, que são doadas a gestantes carentes para que montem seu enxoval. Aos 76 anos, a ex-advogada se reúne todas as quartas-feiras, com outras nove senhoras, para fabricar as peças. “Não há felicidade maior do que ver a alegria de uma mãe”, afirmou.

Desde que os primeiros enxovais foram entregues, já se vão quase 20 anos. O trabalho começou em 1990, durante uma novena de Natal. “Estávamos em uma igreja quando três mulheres bem pobres pediram ajuda, estavam grávidas e não tinham condições para comprar roupas para os bebês. Juntei algumas pessoas e começamos a confeccionar as primeiras roupinhas”, disse Lucy.  Desde então, mais de 4 mil conjuntos foram confeccionados.  Por semana, pelo menos quatro pessoas são beneficiadas. O grupo também doa enxovais para a Pastoral da Criança.     

Nos últimos anos, o trabalho tem aumentado. Há semanas em que é necessário confeccionar até sete kits para atender à demanda. “Além do aumento na procura, tem crescido o número de grávidas de gêmeos, aí o trabalho é dobrado, né?!”, disse Lucy, em meio a gargalhadas. O que não falta é bom humor na pequena sala de costura. Para comprar o material usado na confecção das peças, o grupo de costureiras conta com a solidariedade dos amigos. “Para alguns, já se tornou rotina nos ajudar. Todo mês, aparecem aqui para doar um pouco de dinheiro ou tecidos e materiais de costura”, disse. Além das doações espontâneas, o grupo realiza eventos beneficentes, como bingos e bailes, com o apoio da igreja católica.

Outra integrante do grupo, Ignez Carneiro de Menezes, faz questão de ressaltar que cada enxoval é elaborado com muito compromisso e dedicação. “Fazemos um pouco das coisas em casa, complementamos aqui, sempre com o maior capricho. Tudo é feito como se fosse para os nossos filhos ou netos.” Há 15 anos atendendo gestantes carentes, ela ainda se comove diante do choro das mães agradecidas. “Atendemos mulheres muito pobres e sabemos o quanto elas precisam do nosso trabalho”, disse.

Mesmo estando atrás de uma máquina de costura há duas décadas, nenhuma das dez senhoras pensa em aposentadoria. Ninguém reclama do salário e do baixo volume de vendas. Isto porque nada que sai da salinha de costura é trocado por dinheiro. O pagamento vem em forma de gratidão ou uma expressão da mais pura felicidade. O livro de registro mostra que a pequena fábrica de enxovais não sucumbe nem diante das piores crises econômicas. “Cada nome a mais no caderno é a prova de que ainda somos úteis. A felicidade dos outros também nos alimenta”, afirmou Lucy.

Voluntários vivem melhor, aponta estudo

Pesquisas têm revelado que o altruísmo pode ser uma importante ferramenta na melhoria da qualidade de vida. O ex-diretor do Instituto para o Avanço da Saúde de Nova York, Allan Luks, escreveu o livro “The Healing Power of Doing Good” (O poder curativo de fazer o bem), no qual relata o resultado de uma enquete feita com milhares de pessoas, que revela que quem faz trabalhos voluntários é menos estressado e mais equilibrado emocionalmente.

Cleuza Rezende Rodrigues confirma as conclusões da pesquisa. Ela encontrou no trabalho voluntário uma forma de superar a morte do filho, vítima da aids. Há 19 anos, Cleuza ajuda a Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista, Fale, especializada no atendimento gratuito de pessoas com HIV. “Quando meu filho morreu, fiquei muito mal e não me confortei com psicólogos ou médicos. Foi ajudando pessoas que tiveram a mesma doença que ele, que consegui voltar a sorrir.”

A psicanalista Ana Patrícia Rosa explica que ajudar o próximo pode trazer muitos benefícios, mas a ação nunca pode partir de um sentimento de culpa. “Quando uma pessoa ajuda por culpa, está mais vulnerável a internalizar o problema do outro”, disse.

Serviço As gestantes que precisarem de enxoval podem procurar o grupo, às quartas-feiras, no Círculo de Trabalhadores Cristãos de Uberlândia, na rua Bernardo Guimarães, 344, das 13h30 às 17h.

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