Há algo melhor do que sucesso

Há algo melhor do que sucesso

Atualizado: Terça-feira, 2 Março de 2010 as 12

Escritor, conferencista e psicoterapeuta, fala sobre espiritualidade em entrevista.

Entrevista para a revista Leadership

Os raios de sol no Colorado refletem nas formações rochosas avermelhadas das montanhas ao redor da casa de Larry Crabb. Do lado de fora da sala de estar, cervos movem-se na grama. "Na costa Oeste, os cervos são muito atrativos. Estes não são do tipo mais atrativo. Provavelmente estão comendo minhas flores neste exato momento", comenta Crabb. Realmente, estão comendo as flores. Um cervo feio ronda a janela enquanto o popular conferencista, psicoterapeuta e professor, ouve uma citação de um dos seus 16 livros, uma esperançosa hipótese acerca da igreja, O lugar mais seguro da Terra:

A comunidade espiritual é formada por pessoas que têm a integridade de abrir o coração. É composta por aqueles que admitem suas falhas e faltas, pois as detestam mais do que detestam as falhas e faltas dos outros; assim, descobrem que por baixo da mais fétida corrupção que existe dentro deles flui uma fonte de água pura.

Leadership: Você já viu uma comunidade assim?

Larry Crabb: Quando Philip Yancey leu o livro, seu comentário foi: "Tenho a impressão que você escreveu sobre um lugar que nunca viu, mas que tem esperanças de encontrar um dia".

Esses dias vi uma igreja que ajudamos a começar em Indiana. É uma comunidade incrível de pessoas que vivem em quebrantamento com alegria. Minha esposa e eu fazemos parte de um grupo de formação espiritual que iniciamos dois anos atrás, com mais três casais. Estamos nos aproximando desta comunidade espiritual. E penso que daqui há vinte anos, diria a você que ainda estamos próximos. A comunidade espiritual é como um bom casamento. É bom, mas nunca o ideal. Estamos nos aproximando disto.

A comunidade espiritual conforme descrita por você, parece um local onde podemos ser honestos acerca de nossos pecados e abertos quanto às nossas fraquezas. Como isto inclui os pastores?

Penso que o elemento que falta na vida de muitos pastores é a comunidade. Pastores dedicam muito tempo à Palavra. Estão dispostos a passar tempo ajoelhados. Mas alguns não estão dispostos a abrir seus corações para um irmão ou irmã e dizer: "Você pode me ajudar a discernir?"

Discernir o quê?

A impotência, falta de habilidade, que não há nada de valor eterno que eu possa fazer longe do Espírito Santo. Por um lado, o quebrantamento é simplesmente a liberação de poder espiritual, o Espírito Santo fazendo seu trabalho e o poder que flui dele. Só acontece através do quebrantamento, que eu creio ser a virtude mais menosprezada na comunidade cristã dos nossos dias. Mas, além da liberação de poder, há um profundo entendimento de nossas fraquezas.

Portanto a força não é uma virtude a ser cultivada. É uma realidade a ser liberada. É algo que já existe. É liberada de forma crescente ao longo da jornada da vida, conforme o quebrantamento se manifesta.

Esta tem sido sua experiência?

Este é meu testemunho. Quebrantamento não fazia parte da minha vida nos últimos anos. E sinto que é algo que cresce em mim. Mas não acho que o quebrantamento seja algo mórbido, de maneira nenhuma. Existe algo vivo dentro de mim que simplesmente trouxe o quebrantamento à tona.

A primeira das 95 Teses de Martinho Lutero, trata de quebrantamento, que Jesus gostaria que toda a vida dos crentes tratasse de arrependimento. Em outras palavras, quebrantamento é uma realidade para a jornada da vida. Não é algo que você simplesmente atravessa ou deixa para trás. É uma revelação profunda e contínua de sua própria impotência sem a presença do Espírito Santo. É por isso que encontramos homens e mulheres de Deus que aos oitenta anos de idade nos dizem: "Acho que estou começando a compreender o Evangelho".

Quando descobrimos que estamos sendo quebrantados?

Há cerca de um mês, estava lendo Efésios. Eu tinha decidido gastar um dia livre para um pequeno retiro espiritual. Estava lendo o livro inteiro de Efésios pela quarta ou quinta vez quando então comecei a ter pensamentos que nunca havia tido. Comecei a pensar: "Isto servirá para meu próximo livro. Isto servirá para a palestra que darei em algumas semanas".

Comecei a escrever estas coisas, quando em um daqueles momentos místicos, percebi o Senhor me dizer: "Isto é algo entre você e eu. Não quero que use para os seus propósitos. Só quero que você aproveite o alimento que estou lhe oferecendo". Tive que deixar a caneta sobre a mesa. Senti-me como um alcoólatra se afastando de sua bebida. Eu havia descoberto minha própria idolatria. Os ricos pensamentos de Deus se tornaram algo que eu utilizava para cumprir meus compromissos. Estes eram meus ídolos.

Como aprender a reconhecer os próprios ídolos ocultos?

Em primeiro lugar, estar consciente desta categoria. Se você não sabe que a idolatria oculta existe, você nunca a identificará.

Em segundo lugar, tenha alguns amigos espirituais bem próximos, que lhe dirão: "Você me deixa maluco com isso. Posso falar com você a este respeito?" Um de meus grandes amigos geralmente me diz isto. Uma de minhas áreas fortes é a boa preparação para quando preciso falar, mas uma de minhas fraquezas, segundo meu amigo, é o excesso de preparação. "Vá assistir a um filme", me disse um amigo quando eu planejava gastar uma tarde inteira revendo meus apontamentos para uma apresentação. "Esta é a coisa mais espiritual que você pode fazer hoje".

Michael Card, o compositor, uma vez me disse que a maior coisa que ele havia aprendido com o aconselhamento era que seu dom não era sua identidade. Ele pode cantar e tocar violão, mas compor músicas não é sua identidade. "Se é minha identidade, então sou idólatra", ele disse.

Para muitos pastores, seus dons são sua identidade, suas áreas fortes são suas fraquezas, seus ídolos.

Em seu último sermão, um dos meus mentores no Masters Seminary, disse aos alunos: "O maior impedimento para a intimidade espiritual é o seu dom. Pois se você tem um dom, você será capaz de fazer com que sua vida na igreja funcione, mesmo sem conhecer a Deus de forma profunda".

Como se apropriar desta impotência, ao invés de nos desesperarmos?

É o orgulho que nos impede de aprofundarmos no quebrantamento, nos paralisa em desespero ao invés de nos aprofundarmos na questão para encontrar não o desespero e sim a esperança. Há um livro de C.S.Lewis, A anatomia de uma dor: um luto em observação, que fala da morte de sua esposa, em que um trecho me chama a atenção: "Você nunca sabe o quanto crê na força da corda até que você esteja pendurado nela prestes a cair de um abismo". Creio que o quebrantamento é uma das realidades mais alegres da vida cristã. Permite que você descubra que a corda o segura. A corda é Deus.

Fraqueza é algo oposto à nossa cultura atual. Até o ministério trata a respeito de progresso e sucesso.

Um pastor me disse: "Estive tão ocupado administrando minha igreja que nunca me permiti sentir o profundo vazio presente em minha alma. A seca espiritual fez com que eu trabalhasse oitenta horas por semana para que eu não sentisse o vazio que sinto agora. É impressionante".

Ele retornou a sua igreja e confessou suas fraquezas, quebrantou-se, fraquezas que todas as atividades eclesiásticas não supririam. Ele pregou o melhor sermão de sua vida, conforme me relatou um amigo. Quando eu admito, Em minha fraqueza não há nada que eu possa fazer que complete este vazio, há uma oportunidade para que o Espírito Santo nos mova para uma íntima relação com ele.

No interesse atual sobre as disciplinas espirituais, há um esforço para tornar a saúde espiritual sistemática e administrável?

Este é um perigo sutil: que as disciplinas espirituais se tornem outra técnica. A demanda para um sistema que possa ser administrado é provavelmente o centro do que significa não estar quebrantado. Quando alguém diz: "O que posso fazer para que isso aconteça?" Sei que é um clamor vindo do coração de uma pessoa, mas não é o clamor mais profundo. Existem muitas coisas que podem ser administradas, mas o nível mais profundo de crescimento espiritual, não creio que seja algo administrável.

Fui desafiado quanto a isto por Brennan Manning. Estivemos juntos pregando em uma conferência de pastores. Perguntei a ele para onde ele iria após o final do encontro.

"Vou para um retiro silencioso de sete dias", ele disse.

"Por quê?" – perguntei.

Nunca havia estado em um retiro silencioso de sete dias. Procurei perguntar de forma gentil, mas disse: "O que você ganha com isso? Você se torna uma pessoa diferente por fazer isto?"

Ele ficou confuso. "Nunca pensei no que eu ganho com isso", ele disse.

"Então, por quê…"

"Apenas pensei que Deus gosta de quando eu apareço", ele concluiu.

Foi uma mudança de paradigma para mim. O homem simplesmente focava na união com Deus. Quando você está mais velho e seus filhos querem vir à sua casa para passar tempo com você, você se sente bem. Talvez Deus sinta-se do mesmo modo.

Conheço pastores que tentam freneticamente colocar em prática o próximo modelo ou sistema que irá resolver todas as questões, para eles e suas igrejas. C.S.Lewis disse: "Dê prioridade às coisas prioritárias, que as secundárias também virão. Dê prioridade às coisas secundárias e você perderá tanto as prioritárias quanto às secundárias".

Temos tantas coisas com as quais lidar no ministério. Como nos concentramos nas prioritárias?

A primeira coisa é a união com Deus, desfrutar de Deus como meu tesouro supremo (Devo esta resposta a John Piper). Não importa o que acontece na minha vida, se a igreja se desintegre ou me dê um milhão de dólares além de um ano sabático, se minha filha adolescente engravida ou se meus filhos tornam-se missionários, tudo é usado por Deus para que eu me aprofunde no relacionamento com Ele. Se isto não é a prioridade, então o que é prioridade é um ídolo oculto.

Estava conversando com um pastor sobre seus dois filhos mais velhos que estavam agindo de forma a machucá-lo. Ele disse: "Me diga como posso responder biblicamente para ter meus filhos de volta". Este é um questionamento secundário, completamente legítimo e que merece uma resposta, mas é secundário.

O questionamento prioritário é "O que significa no meio desta dor profunda, que eu me achegue a Deus para a Sua alegria?"

Pastores não estão sozinhos em colocar coisas secundárias no lugar das prioritárias. Como fazemos com que isto seja prioridade me nossas comunidades espirituais?

No contexto da igreja, pastores estão em posição difícil devido às expectativas dos membros e do conselho, além das expectativas do que um ministério pastoral de sucesso deve ser. Geralmente trata-se de alvos com resultados visíveis, como por exemplo auxiliar alguém a vencer um vício, tornar os casamentos melhores ou construir uma igreja para que o rebanho dobre de tamanho.

Meu amigo Jim Kallam, pastor da Igreja em Charlotte (Carolina do Norte, EUA) conta que há anos sua igreja estava crescendo e os anciãos disseram a ele: "Vamos iniciar um projeto do novo prédio e colocá-lo em ação".

Jim sentiu que era um projeto no qual ele gostaria de colocar seu coração e alma. Pensou então: "Estamos crescendo, podemos fazer uma campanha para arrecadar fundos, podemos ser uma das melhores e maiores igrejas de Charlotte". Mas algo dentro dele foi quebrantado ao ser confrontado com a idolatria daquele pensamento. Ele relaxou e disse: "Não vamos correr. Antes, vamos ter certeza de que nossos corações estão corretos diante de Deus". Então Jim sentiu-se satisfeito ao pensar que se este projeto do prédio nunca saísse do papel, ele estaria tranqüilo a respeito disto. Após muito tempo e muita oração, eles construíram. Mas isto era algo secundário.

Como podemos nos quebrantar diante das pessoas da comunidade de forma que não percam a confiança em nós?

Não comecem no púlpito. Este não é o lugar para começar. Não é nada a respeito da "vulnerabilidade", este termo que herdamos da comunidade terapêutica. Assumimos que: se você se abre sobre sua dor, esta é a essência da cura. Não concordo com isto. "Autenticidade" é uma palavra bem melhor. A autenticidade diz: aqui é onde estou na minha jornada de conhecer melhor a Deus, o oposto da vulnerabilidade que diz: aqui é onde dói mais. Vulnerabilidade pode ser algo narcisista.

Como podemos ser honestos sobre nossas fraquezas?

Ninguém deveria morrer levando seus segredos – mas acontece com 99% das pessoas. Deve haver alguém em minha vida de quem não escondo nada. Em alguns casos, pode não ser o cônjuge. Pode ser um amigo espiritual, um mentor, um pastor, alguém que conhece o pior que há em mim. Este é o primeiro passo.

O segundo passo é um pequeno grupo. No meu caso, é o nosso grupo de formação espiritual que tem quatro casais. Não preciso ser uma estrela ou um líder. Sou apenas um peregrino que se juntou a outros tantos peregrinos em crise.

Com estas peças alinhadas, o pastor não se sentirá compelido a se esconder ou revelar, pois as questões já estão cuidadas antes mesmo de sua chegada ao púlpito. Então ele poderá viver em quebrantamento por amor à sua congregação e não apenas para sua própria cura.

Seu modelo de comunidade aprecia a interação carinhosa e aberta, onde pessoas têm a integridade de abrir o coração. Como isto pode ser ensinado?

Começa com o reconhecimento de uma teologia empobrecida. Eugene Peterson foi convidado para falar em uma conferência sobre formação espiritual. Telefonei para ele e perguntei sobre o que falaria. "Falarei sobre o quanto a Teologia da Trindade na Igreja Evangélica é rala", ele disse. Até que se fortaleça, não iremos progredir na área da formação espiritual. Deus está em uma comunidade eterna, uma relação radicalmente centrada no outro, onde o Pai sempre diz: "Meu Filho não é incrível?" O Filho sempre diz: "Olhe para o meu Pai!" e o Espírito Santo diz: "Olhe para Jesus!".

Até que comecemos a refletir sobre o mistério da Trindade, não perceberemos que estamos há quilômetros de distância em termos de comunidade. Pessoas precisam estar envoltas na comunidade Trinitariana.

E como você colocaria isto de forma prática?

Você está familiarizado com a palavra pericorese? É uma palavra dos monges do século quatro, que auxiliava na compreensão sobre a Trindade: peri significa "em volta, ao redor" e corese deriva-se de "coreografia". É como "dançar ao redor". Quando Peterson ensina sobre a Trindade, ele pede que visualizemos a Trindade dançando, alguém no meio e os demais ao redor. Você consegue ouvir o ritmo do Espírito Santo e entrar na dança? Penso que significa que Deus está se alegrando. Quando compreendemos este conceito de comunidade, perceberemos que há algo faltando aqui.

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