Hernanes: um artilheiro evangélico em Roma

Hernanes: um artilheiro evangélico em Roma

Atualizado: Terça-feira, 7 Junho de 2011 as 1:12

O brasileiro Hernanes precisou de apenas nove meses para se tornar um ídolo da Lazio. Volante de formação no São Paulo, o jogador virou meia no futebol italiano e vem correspondendo ao investimento de cerca de R$ 30 milhões feito pelo clube romano para contratá-lo.

Conhecido no São Paulo por ser um jogador de mais marcação, Hernanes vive uma fase de artilheiro, pois foi o maior goleador da Lazio na temporada 2010/2011, com 12 gols. Nascido em Pernambuco, o atleta de 26 anos explica que segue com a ajuda do professor de educação física J. Alves, que o próprio jogador considera um cientista do futebol.

Agora, porém, o meia só pensa em aproveitar as férias no Brasil. De passagem pela capital paulista, o jogador recebeu a reportagem da GE.Net para falar não só da Lazio, mas também do Tricolor e do sonho de retornar à seleção brasileira, depois da expulsão em amistoso contra a França.

Em entrevista permeada por performances musicais do jogador e também de seu filho Ezequiel (de quatro anos), Hernanes ainda falou sobre a ajuda que continua recebendo de seu amigo cientista e também da experiência de ser um evangélico morando na capital italiana, ao lado do Vaticano.

Você foi o artilheiro da Lazio na temporada e igualou o recorde do Pavel Nedved como meio-campista do clube a marcar mais gols em uma edição do Campeonato Italiano. Qual o motivo de tantos gols? Estou jogando como meia, mais adiantado, e isso acaba dando mais chances de fazer gols e encontrar espaço para dar passes aos companheiros.

Você e o argentino Mauro Zárate foram os maiores investimentos da Lazio nos últimos anos. Isso gera uma responsabilidade maior? É uma responsabilidade por você saber que foi um investimento alto (cerca de R$ 30 milhões), pois você tem que retribuir em campo levando o time adiante. Eu quero também ter altos resultados. Não fica explícita (uma cobrança maior), porque todos são cobrados, mas nós temos de fazer algo acontecer. É natural, porque no futebol o atacante e o meia são os que vão fazer a diferença para o time jogar para frente. Por isso que são os maiores investimentos.

Ter sido o artilheiro da Lazio na temporada foi uma forma de retribuir? O resultado coletivo foi muito bom nesta temporada e o individual também. O grupo também está mais confiante para fazer um ano ainda melhor, esses são os primeiro frutos. Individualmente, fiquei muito feliz por ter feito 12 gols. Já é o começo dos frutos que a Lazio está colhendo.

Você praticamente não precisou de um tempo de adaptação no primeiro ano na Europa. Qual o segredo de ter feito sucesso no primeiro ano? Assim que cheguei, eu queria aprender o mais rápido possível a falar a língua deles e também a cultura. Com certeza, este foi um ponto positivo para que eles me recebessem muito bem. Duas coisas que me preocupavam eram o clima e a comida, até porque eu estou acostumado ao calor de Recife, mas a temperatura é agradável lá. Quanto à comida, arroz, feijão e farinha não podem faltar. Meu procurador levou alguns quilos de feijão para mim. Fora isso, a comida italiana é muito boa. Não sei como é para os outros jogadores, mas não posso reclamar de nada.

O momento da transferência contribuiu para sua adaptação? São muitas coisas que contribuíram. Eu atribuo a Deus, que propiciou um ambiente de pessoas que me ajudaram. Esperei o momento certo e estar preparado para deixar o país. Lá, as pessoas me acolheram superbem, são todos esses fatores. Comecei a me dar bem lá e estava à vontade para fazer meu futebol tranquilamente.

Você nem pensa em voltar ao Brasil neste momento? Está muito cedo, quero fazer uma carreira lá fora, conquistar alguns títulos. Estou muito feliz lá, não penso em sair agora. Quero jogar este próximo ano melhor ainda que o anterior, para crescer na Itália. Não penso em voltar agora.

Pela seleção brasileira, você ficou fora da convocação para os amistosos contra Holanda e Romênia e, com isso, não terá chance na Copa América. Acha que vai voltar a ser chamado? Eu quero jogar na seleção e vou conseguir, pois meu objetivo é defender meu país, o que é uma honra muito grande. Espero me firmar, pois não consegui ainda uma sequência. Tive uma oportunidade e acabou acontecendo um acidente, mas vou continuar trabalhando bem. Estou tranquilo e sei que, no futuro, vou ter outra oportunidade e não deixarei passar.

Na época em que estava no São Paulo, você surpreendeu ao dizer que tinha a ajuda de um cientista para jogar bem. Mesmo na Itália, continua com orientações do J. Alves? Continuamos fazendo nosso trabalho, com conversa por telefone. Ele assiste aos jogos para verificar e comentar depois.

Você só revelou a identidade dele em seu último dia de São Paulo. Ele é um professor de educação física... Qual o tipo de ajuda dele ao seu futebol? Ele vê mais dentro de campo mesmo. O futebol é muito empírico, você aprende na rua, jogando... Você vai por tentativa e erro. Mas ele estudou técnicas para um trabalho científico e programado. Em cada posição do campo, você tem que usar uma técnica, e não ir apenas pela intuição. O futebol é muito intuitivo, mas você precisa de uma programação para seguir. Depois do jogo, por exemplo, ele me fala que tomei um drible porque não usei determinada técnica. O futebol deixa de ser tão intuitivo para ficar mais metódico, organizado.

No São Paulo, você também sempre deixou clara sua religiosidade. Como é a vida de um evangélico em Roma, que fica em uma área católica, até pela presença do Papa? Eu não gosto tanto de usar o nome "religião", porque, se observarmos, os problemas do mundo passam por essa palavra, há pessoas que são mortas por isso. Mas, no contexto em que estamos falando, as pessoas acham que a vida religiosa é ir à igreja nos domingos, mas não é isso. Você tem que praticar os ensinamentos da Bíblia todos os dias, esta é minha busca diária. E hoje o mundo está muito globalizado, acompanho os cultos da igreja que faço parte agora (Verbo da Vida) pela internet. É assim que estou participando.

Você sentiu alguma resistência por estar ao lado do Vaticano? Não sinto, até porque na Europa, sendo que na Itália é um pouco menos, as pessoas perderam um pouco a fé. Alguns são revoltados com a igreja, outros são católicos praticantes e outros ateus. Não senti nenhum preconceito.

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