Homem encontra amigos de sua igreja soterrados

Homem encontra amigos de sua igreja soterrados

Atualizado: Quinta-feira, 8 Abril de 2010 as 12

No title Rio - Em meio à tragédia que se abateu sobre o Rio, um exército de voluntários entrou em ação, sem ferramentas e roupas adequadas para enfrentar a lama e os destroços, mas com a coragem de herois anônimos dispostos a arriscar suas vidas para salvar quem precisa. Guiados pelos gritos de socorro, os moradores das áreas atingidas pelas chuvas não mediram esforços para resgatar amigos, parentes ou desconhecidos. Alguns chegaram antes dos bombeiros, outros ficaram até o último corpo ser resgatado, trabalhando mais de 30 horas seguidas sem comer.

O servente de obras Marco de Lima, 37, nunca esquecerá o que viu no Morro dos Prazeres, em Santa Tereza, onde 18 corpos foram resgatados até ontem à noite. Ele conhecia cada pessoa pelo nome e frequentava a igreja evangélica com muitos deles. Marco saiu do culto após a meia-noite com seis amigos. De madrugada, ouviu um estrondo. "Levei um susto ao ver tanta lama no lugar das casas. Não pensei duas vezes: entrei na lama de chinelo às 6h (de terça-feira) e comecei a cavar. Parei hoje (ontem), depois de mais de 34 horas cavando sem parar".

Mesmo sem ter nenhum parente entre as vítimas nos Prazeres, o pedreiro João Luiz de Oliveira, 44, já perdeu dois dias de trabalho numa obra no Centro para ajudar os bombeiros. "Tenho quatro filhos pequenos e me coloquei no lugar dos muitos pais que perderam seus filhos aqui. Não vou parar de colaborar enquanto todos os corpos não forem resgatados", afirmou João. Desde terça-feira, ele já ajudou a retirar oito corpos dos destroços.

O reconhecimento foi o combustível que não deixou o desânimo bater, mesmo diante do cansaço. Em meio à tristeza de ter perdido o pai, a moradora do Morro do Estado, Monique Silva, 16 anos, agradeceu a seus herois, que removeram toneladas de escombros para salvá-la. Monique e os pais, Maria Helena e Enoque Silva Leonardo, estavam em casa, às 7h30 de terça-feira, quando foram atingidos. O pai da jovem a protegeu com o corpo e acabou soterrado. Se não fosse pelos vizinhos, Monique também não teria resistido. Ela estava debaixo de uma laje quando foi retirada. "Logo que vi aquele monte de entulho, só pensei em cavar e resgatar as pessoas", contou Sebastião de Souza, um dos que recebeu o abraço de Monique.

Lá, enquanto o aposentado José Maximiliano da Silva, 81, agradecia aos vizinhos por tê-lo tirado vivo debaixo de mais de 20 toneladas de terra, outras 10 pessoas procuravam pelo corpo de Sebastião Gomes da Silva, 21, que ainda estava soterrado. O rapaz era deficiente físico e não conseguiu ser salvo a tempo pela mãe, que foi resgatada com vida terça-feira. "Sem eles, estaríamos todos mortos, porque os bombeiros demoraram a chegar. Podem até ser pessoas comuns, mas hoje são nossos salvadores", agradeceu o aposentado, enquanto abraçava o vendedor André Luiz Silva, 32, um de seus salvadores.

Alguns pontos de deslizamento chegaram a reunir mais de 300 ajudantes, entre moradores, bombeiros e policiais que estavam de folga, mas se apresentaram. "O trabalho dos moradores foi fundamental para salvar muitas vidas. São muitos pontos críticos em toda cidade e sem eles, nosso trabalho seria impossível. Não temos homens para atender a tantos pedidos ao mesmo tempo", disse o aspirante bombeiro Alan Tavares.

Alguns herois acabaram amargando perdas em virtude de sua coragem. Entre as muitas pessoas que se encontravam no IML aguardando a liberação de corpos de parentes, estava o jardineiro Ronaldo dos Santos Silva de Souza, 27 anos, morador de Niterói. Ele perdeu a irmã e os sobrinhos ao sair para ajudar vizinhos. "Estávamos em casa na hora do temporal e soubemos que alguém estava necessitando de ajuda, pois uma barreira havia caído. No momento em que estávamos prestando a ajuda, as casas em que minha família estava desabaram. Não deu tempo para salvar ninguém", contou.

Foto: Sobrevivente José da Silva agradeceu o salvador André Luis, em Niterói / Marcelo Regua

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