Igreja deve orientar o voto, diz mentor de Marina Silva

Igreja deve orientar o voto, diz mentor de Marina Silva

Atualizado: Terça-feira, 6 Julho de 2010 as 12:38

Dom Moacyr Grechi é considerado o mentor da candidata à Presidência Marina Silva (PV). A história é antiga. Doente e com três meses de vida que lhe davam os médicos, Marina procurou o bispo, que deixara Santa Catarina nos anos 1970 para viver no Acre. O pedido de ajuda se transformou em uma amizade que envolveu religião e política. E Dom Moacyr, nas palavras da própria Marina, hoje é responável "não só por muito do que aprendi na política, mas pela minha própria sobrevivência quando me ajudou a salvar a vida", conforme falou na convenção que a lançou à corrida presidencial, no dia 10 de junho.

Atualmente em Rondônia, Dom Moacyr defende que a Igreja desempenhe o papel fundamental de iluminar o cidadão na escolha do voto e acredita que política e religião têm o mesmo fim: o bem comum.

Ele evita falar de Marina, mas diz que as propostas de desenvolvimento sustentável são insuficientes: "Moram aqui 23 milhões de habitantes e precisamos pensar em um modo de sobrevivência para essas pessoas. (...) A Amazônia sempre foi vista como colônia. Como Portugal via o Brasil, o Centro-Sul do país enxerga a região do mesmo jeito".

Terra - Qual a relação entre religião e política? Por que, na opinião do senhor, as pessoas tendem a separar uma coisa da outra?

Dom Moacyr Grechi - A ligação entre fé e política é evidente, porque a política, no sentindo autêntico, busca o bem comum de todos. E a religião, mais especificamente o cristianismo, tem como finalidade o amor ao próximo, a comunhão fraterna. A política é uma expressão do amor. A ligação é evidente, necessária e sempre existiu. Não se deve, no entanto, confundir essa política da qual falo com a partidária. Para a partidária, a religião deve orientar e iluminar a escolha do cidadão na questão do voto, sobre quem está apto a administrar, sem desvio de dinheiro, etc. A Igreja não deve fazer política partidária, mas instruir e apontar para o bem-estar da grande maioria. O problema é quando a Igreja se corrompe, começa a fazer acordo com poderosos e tem medo de dizer o que acha errado. Acabamos não combatendo e não sendo profeta diante do poder constituído. A Igreja acaba negando a sua ambição de estar lado da Justiça. Mas se optar por ser autêntica, acabará incomodando e será obrigada a questionar as coisas. Não se pode concordar com aquilo que não é evidentemente ético.

Terra - Isso vale, na prática, para todas as igrejas?

Dom Moacyr - Aqui em Rondônia havia uma espécie de seleção. Enquanto católicos e luteranos se associavam em sindicatos e exigiam justiça, evangélicos pentecostais tinham uma visão mais de convivência pacífica, de separar as coisas e ser menos militantes. Não acham que a religião e a política têm ligação. Mas a gente não deve generalizar. Conheci gente da Assembleia de Deus que era do PT e fazia campanha de bicicleta. Mas, ainda assim, um número expressivo de igrejas pentecostais aceita o que o pastor diz. Isso não apenas em anos de eleições, trata-se de uma prática constante.

Terra - Marina fala do senhor com muito carinho, como se fosse o senhor quem a tivesse despertado para o caminho de militância. Com que olhos enxerga isso?

Dom Moacyr - Creio que isso é o que a Igreja deve fazer: educar os membros das comunidades. Nosso trabalho era o de formar e manter os membros das comunidades eclesiais de base, que se reúnem com as famílias para rezar e resolver problemas. O amor fraterno vai sentir necessidade de construir escolas, buscar melhorias. E a comunidade também ensina que é necessário haver justiça não somente para o grupo. E isso leva à participação em sindicatos, onde poderão ter âmbito mais amplo de lutas e conquistas. E ali encontram pessoas de outras igrejas, que não têm fé, mas aceitam a lutar pelas causas justas do sindicato. O mesmo ocorre dentro do partido. Mas aqui na região foram descobrindo, pouco a pouco, que os partidos iam excluindo-os. E aí resolveram fundar o PT, que naquela época era bom, mas hoje... Na minha opinião, o partido não deveria ter ânsia de ganhar a eleição, apenas de formar seus quadros, para depois não precisar fazer alianças. É como Frei Betto diz: "ganhou-se uma eleição; não se chegou ao poder". Coisas boas têm sido feitas, mas há alianças que a gente se sente mal só de pensar.

Terra - Quais os temas mais urgentes e sensíveis à região da Amazônia em um ano como este?

Dom Moacyr - O Norte é muito diversificado. Creio que 72% das pessoas já vivem em cidade. Nos últimos 50 anos, acredito que sugiram umas cem cidades, a maioria delas sem esgoto e água tratada. Muita gente vem morar na periferia da cidade em uma situação desumana, na qual proliferam drogas e prostituição. A prioridade é garantir às cidades água tratada, esgoto, sanitário e, depois disso, o fundamental para a vida: escola de certa qualidade, hospitais. Já as estradas melhoraram, porque são vistas e dão voto. É preciso pensar também como essa população vai viver. Tem de haver áreas mais favoráveis a determinados tipos de produção. Fizemos um projeto de adensamento florestal, que previa plantação de árvores como cupuaçu, pupunha ou castanhas, no lugar de árvores que produzem madeira. Começamos com um pouco mais de cem e conseguimos dinheiro da Holanda para a preparação do terreno. Isso gera trabalho para muitas famílias, que conseguem mercado para produtos com valor agregado internacionalmente.

Terra - Como o lobby agrícola influencia a paralisação de reformas e projetos importantes no Brasil?

Dom Moacyr - Na Câmara dos Deputados e no Senado, o número de proprietários de terra não apenas fazem lobby para defender interesses fazendeiros, como são proprietários de grandes extensões de terra. Defendem uma visão muito fechada, centrada no ganho imediato. Então, por exemplo, se soja dá dinheiro, derrubam as florestas sem critério. Se bois dão dinheiro, a reserva será reduzida ao mínimo. São interesses parciais e focados no lucro. Quando se trata de meio ambiente, preservação da floresta, vemos certo progresso, mas a devastação continua. Quando saio em visita ao interior, aos finais de semana, vejo caminhões e caminhões de madeira que, quase certamente, são ilegais. Não há vigilância.

Terra - Na opinião do senhor, o País está preparado para uma presidente como Marina, que tem como prioridade o desenvolvimento sustentável no século 21?

Dom Moacyr - A Amazônia é tão diversificada que o problema é profundo. Acredito que as propostas da Marina são excelentes, mas tem de saber conjugar. O que ela propõe é muito bom, mas não é tudo. É preciso preparo também. Moram aqui 23 milhões de habitantes e devemos pensar em um modo de sobrevivência para essas pessoas, como achar fonte de renda e fazer com que a economia prospere dentro das características próprias da região. A Amazônia sempre foi vista como colônia. Como Portugal via o Brasil, o Centro-Sul do país enxerga a região do mesmo jeito.

Terra - Como o senhor vê o fato de Marina ter deixado o catolicismo para se tornar evangélica?

Dom Moacyr - Ela nunca me falou nada, porque é um tema extremamente delicado. Se ela quiser conversar, tudo bem. Mas nunca puxou assunto e só conversou comigo sobre valores comuns. Não me senti à vontade para fazer perguntas sobre isso.

Postado por: Felipe Pinheiro

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