Igrejas cristãs orientam votos de fiéis

Igrejas cristãs orientam votos de fiéis

Atualizado: Sexta-feira, 10 Setembro de 2010 as 2:52

O Brasil é um Estado laico. O governo não prega religião, mas ela tem influência nos aspectos social, cultural e político do país. As informações foram assumidas por dom Milton Santos, 64, arcebispo da Arquidiocese católica de Cuiabá, e pelo pastor evangélico-luterano Teobaldo Witter, 60, em entrevista concedida ao Diário de Cuiabá.

Eles orientam os fiéis de suas congregações a escolherem bem em quem vão votar. Recomendam pesquisar o passado do candidato e a não votar nos fichas-sujas. A Igreja Católica incentiva fiéis leigos a entrarem na vida política, mas não permite que padres se candidatem. Já pastores podem ser candidatos, para trabalhar não apenas para o seu grupo de pessoas, mas para toda a sociedade.

Dom Milton informou que a Arquidiocese de Cuiabá iniciou movimento cívico-religioso com professores paroquiais, que são os multiplicadores leigos para as 512 comunidades de 27 paróquias, envolvendo 18.500 pessoas nos grupos de reflexões.

Pastor Teobaldo disse que a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) está no país desde 1824, quando migrantes edificaram comunidades e escolheram seu presbitério, seus ministros religiosos, a presidência de sua igreja e seus conselheiros. A Igreja pede para, antes de votar, ouvir, pesquisar, indagar, questionar, propor, selecionar.

“É hora de olhar nos olhos dos candidatos e não se deixar enganar por belas palavras e slogans políticos vazios, vendo neles a real intenção dos seus programas de governo, dos seus projetos legislativos e a vontade política de defender a vida humana desde a sua concepção até o seu final natural, de promover a família brasileira fundada sobre o casamento entre o homem e a mulher, de preservar o meio ambiente no respeito aos vários biomas existentes em nosso país”, defendeu dom Milton.

Na campanha ficha-limpa o povo brasileiro deu um bom exemplo de ajuda para a transformação da sociedade. “Toca agora a cada eleitor escolher pessoas honestas, competentes, desprovidas de interesses pessoais, de grupos ou de setores privilegiados da sociedade, mas que promovam o bem comum e tenham compromisso social com os mais necessitados. Eles têm o direito de saber para votar conscientemente e a responsabilidade de não eleger quem desmereceu sua confiança”, enfatizou o prelado católico.

Para o pastor Teobaldo, a lei da ficha-limpa é muito importante. “O fato de denúncias de desonestidade de alguns mandatários serem levadas ao público é sinal de que as coisas estão melhorando. Já não é mais tão simples esconder a corrupção. A participação da indignação popular cresce na busca por transparência e justiça. A lei da ficha-limpa é uma consequência do clamor de parte considerável da população brasileira. Ela deve ser, agora, aplicada adequadamente pelos órgãos responsáveis”, ratificou.

O voto não tem preço, tem consequência: é uma decisão da consciência e exercício da cidadania que se reflete na vida das pessoas, frisou dom Milton.A igreja apoia as práticas políticas da luta por trabalho, moradia, água tratada, alimentação, saúde pública, segurança, lazer, terra, escola, coleta e tratamento de lixo, enfim, as coisas necessárias para a vida humana com dignidade, emendou o pastor Teobaldo.

O pluralismo na política é necessário para a saúde da democracia. Sem isso, não há regime democrático. No púlpito, a linguagem é bastante simbólica e se refere ao sagrado. Diante do sagrado, as pessoas silenciam. Elas ficam sem argumentos. Na política, não pode haver silêncio. Deve haver argumentação. Houve época na história em que Igreja e Estado eram uma coisa só. Foi tempo muito ruim, com escravidão, terrorismo e guerra santa, lembrou o pastor luterano.  

A Arquidiocese de Cuiabá está sistematizando um setor de elaboração de projetos na dimensão social na área administrativa com esta finalidade. É dever dos governos municipal, estadual e federal destinarem verbas para o social, para a educação, mas é preciso que tudo se comprove com Projetos e Prestações de Conta, assumiu dom Milton.

O pastor Teobaldo entende que quem deve fazer este trabalho é o Estado. Para isso ele foi criado e para isso o cidadão vota e paga impostos. A Igreja deve cuidar da vida de fé, enquanto o Estado cuida da vida temporal, material, humana. Mas, como o Estado tem fracassado, não dá conta, a sociedade se organiza, através do terceiro setor, das igrejas, do movimento social.

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