Josias: o rei que ousou transformar sua realidade

Josias: o rei que ousou transformar sua realidade

Atualizado: Quarta-feira, 24 Agosto de 2011 as 9:15

O rei Josias acreditava que grandes transformações são possíveis quando estamos no centro da vontade de Deus. Por que não fazemos como ele? Talvez porque não somos reis ou rainhas, não temos tanto poder. Mas talvez seja simplesmente porque não temos uma boa dose de fé e convicção.

Precisamos acreditar que trabalhar para que a sociedade se aproxime de Deus e dos seus princípios é a única saída para conter a nossa maldade e os efeitos desastrosos dela sobre nossas crianças.

Tradições perversas precisam ser quebradas

Josias assumiu o trono de Judá no ano 640 a.C. com apenas 8 anos de idade. Seu avô, o rei Manassés, tinha sido um terrível governante, como avaliou o escritor de 2 Reis: “Manassés também derramou tanto sangue inocente que encheu Jerusalém de um lado a outro; além disso levou Judá a cometer pecado, a fim de que fizessem o que o Senhor reprova” (2 Rs 21.16, NVI). Josias, ao contrário de seu avô, começou a buscar ao Deus verdadeiro com apenas 16 anos. Aos 20 começou uma grande reforma em Judá com o alvo expresso de fazer o seu povo voltar aos caminhos do Senhor. Ao refletir sobre o drama vivido por tantas crianças no Brasil, fui obrigada a reconhecer um sentimento de impotência em mim. Não adianta, pensei, não vamos jamais conseguir mudar esta realidade. E foi aí que me lembrei de Josias. Se um rei tão jovem foi capaz de devolver Deus a um povo corrupto e idólatra, porque nós, filhos deste mesmo Deus, não nos julgamos capazes de levantar a bandeira da justiça e benignidade para todos, especialmente para as crianças e adolescentes em nossas comunidades? Você acha mesmo que podemos lavar nossas mãos dessa responsabilidade? Que Ele não cobrará de nós ações concretas de defesa, apoio, cuidado e promoção daqueles que Ele considera como importantes no seu Reino?

Afastar-se de Deus: uma tendência antiga

Na verdade, o que o rei Josias tinha diante de si era algo tão terrível quanto o que temos presenciado em nossos dias. O afastamento de Deus era evidente de muitas formas. Praticavam o culto à deusa Astarote com orgias e a prática da prostituição cultual. Chegaram a acomodar prostitutos cultuais nas dependências do templo! Tratavam com completo descaso a Lei de Moisés e por isto os ricos oprimiam e saqueavam os pobres fazendo-os seus servos. Pior ainda, passaram a sacrificar seus próprios filhos e filhas. Havia, do lado de fora de Jerusalém uma pira num local chamado Tofete, no vale de Ben-Hinom onde as crianças eram sacrificadas. Dois reis, Acaz e Manasssés, sacrificaram seus próprios filhos. Os profetas denunciaram esta prática como a gota d’água que fez entornar o copo da ira de Deus contra seu povo.

O sacrifício de crianças era prática relativamente comum nos rituais dos povos vizinhos a Israel. Nas escavações de Gezer e, em vários outros locais por toda a Palestina, foram encontrados potes de barro nos quais eram sacrificados bebês sempre em associação com a pedra fundamental da casa. Dedicava-se uma casa por meio do sacrifício de um bebê! Josias compartilhava do ódio de Deus contra esta prática. Ele destruiu todos os altares erguidos por Salomão aos falsos deuses Baal, Camos, Moloque e à deusa Astarote. Há registros na Bíblia de sacrifícios de filhos ou filhas para os três primeiros. Depois, ele destruiu a pira do vale de Ben-Hinom para “que ninguém mais pudesse usá-lo para queimar seu filho ou filha em sacrifício a Moloque” (2 Rs 23.10, NVI).

Afastar-se de Deus: a raiz de todos os males

No entanto, Josias sabia que o sacrifício infantil não era causa e sim consequência. E qual era a causa para tamanha degradação moral? A idolatria. Para que houvesse transformação social era necessário atacá-la com estratégias bem claras. Josias se mostrou incansável nesta luta. No final de sua vida o narrador de 2 Crônicas declara: “E enquanto ele viveu, o povo não deixou de seguir o Senhor, o Deus dos seus antepassados” (2 Cr 34.39, NVI). Toda idolatria faz das crianças suas principais vítimas. A idolatria é, afinal, desviar a honra e devoção devidas a Deus para qualquer outra criatura, com o objetivo final de colocar o ser humano no centro. É colocar o nosso desejo acima da vontade de Deus. E quando damos vazão aos nossos desejos, a nossa maldade não tem limites. Os mais fracos se tornam oprimidos pelos mais fortes e todos sabemos que as crianças são mais vulneráveis. O pecado da idolatria na antiguidade fazia com que o povo desse as costas a Deus, para buscar a proteção e o favor de deuses falsos e sabidamente maus, mas que podiam ser manipulados. A consequência: sacrifício infantil.

Afastar-se de Deus: tendência moderna

O pecado da idolatria hoje — você acha mesmo que estamos livres dela? — nos leva ao afastamento de Deus para buscar nossos próprios interesses. Cultuamos a nós mesmos! E como consequência nossas crianças são maltratadas e envolvidas nos pecados dos adultos; são negligenciadas e abandonadas em todas as classes sociais; são exploradas como objetos por uma sociedade cada vez mais consumista e determinada a satisfazer seus desejos de prazer, lucro e poder; são mortas. Precisamos combater a idolatria moderna, começando com a nossa própria. O que orienta as nossas ações? É mesmo a vontade de Deus? Mas não podemos parar aí. Se formos, de fato, convictos de que a justiça de Deus significa boas novas para os que nada têm e nada são, então nossa atuação na sociedade será de luta pelos que têm seus direitos sistematicamente desrespeitados e combate aos maus tratos e violência em todas as esferas. Usaremos todas as armas ao nosso dispor: alianças com o poder público, cobrança de políticas públicas adequadas, campanhas de convencimento da população, apoio a leis justas, repúdio a leis que são contrárias a Deus, etc.

Voltando para Deus

Assim como Josias sabia o que Deus queria de seu povo, sabemos o que Deus quer para nossas crianças hoje. Como Josias, sabemos que a nossa sociedade está à beira da falência e que precisa de uma grande reforma. Como Josias, sabemos que o problema, além de ser uma questão que envolve o Estado, a sociedade, a igreja e a cultura em geral, é um problema cuja origem é essencialmente espiritual. Voltemos para Deus!

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Por Elsie Gilbert.  missionária, jornalista e editora da revista Mãos Dadas. É também autora de “A vontade do Pai: teologia da dependência e pertencimento”, um dos capítulos do livro Um Criança os Guiará – por uma teologia da criança    

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