Judas Iscariotes: De marionete de satanás ao apóstolo favorito

Judas Iscariotes: De marionete de satanás ao apóstolo favorito

Atualizado: Segunda-feira, 12 Abril de 2010 as 12

Dois milênios de controvérsias. Nas últimas semanas, Jesus Cristo voltou a ser polemizado nos principais jornais do mundo com a suposta fisionomia de seu rosto decodificada a partir de fragmentos encontrados no Santo Sudário - peça de linho que muitos cristãos acreditam ter sido usada para cobrir o corpo de Cristo após a crucificação. Fidedigna ou não, a imagem criada em 3D acrescenta mais um capítulo no debate a cerca daquele que é discussão em comum do matiz de religiões cristãs.

Como em toda boa história, a atenção dada ao personagem principal recai sobre os coadjuvantes em maior ou menor escala. No caso do ungido de Deus - concepção encontrada na literatura canônica -, um dos 12 discípulos teve o seu papel reavaliado naquela que é considerada a maior polêmica relacionada à Bíblia Sagrada; o Evangelho de Judas Iscariotes.  

Apontado pelos quatro evangelhos oficiais como traidor, aquele que delatou Jesus por 30 moedas após ser possuído por satanás, Judas é redimido no registro apócrifo  em peça fundamental para a salvação da humanidade. "Judas teria que cumprir a missão sublime de libertá-lo, de modo que a centelha divina presente em Jesus pudesse brilhar e, assim, ele pudesse voltar ao Pleroma (realidade superior)", explica o frei Jacir de Freitas, que há 12 anos estuda os documentos de origem gnóstica e é autor do livro recém-lançado "Apócrifos aberrantes, complementares e cristianismos alternativos - Poder e heresias!".

Descrito no Evangelho de Judas como o apóstolo predileto de Jesus, a quem era confiado saber "os mistérios do Reino", Iscariotes foi vastamente explorado pela mídia por um enfoque até então desconhecido do grande público. No entanto, a reabilitação não é, para a Marilia Fiorillo, o mais importante do texto. "Eles [autores do Evangelho de Judas] não estão alinhados com o partido de Roma, mas também pensam ser excepcionalmente incorruptíveis", diz Fiorillo em "O Deus Exilado", publicado pela Civilização Brasileira em 2008.

Coordenadora de um projeto de pesquisa da USP (Universidade de São Paulo) sobre a representação das religiões na imprensa brasileira, Fiorillo re-significa os termos ortodoxo e herético ao analisar os manuscritos gnósticos. "Para os historiadores, o essencial é que o documento mostra a intensidade e ferocidade de um debate interno quando ainda não se tinha decidido quem ficaria com o titulo de ortodoxo ou herege; pois os vários grupos, sobretudo nos séculos II e III, rivalizavam em importância e alcance", disse ao GUIAME.com.br a autora que detalha no livro a forte presença gnóstica em regiões como Antióquia e Egito nos primeiros séculos depois de Cristo.

De acordo com a pesquisadora, a descoberta do Evangelho de Judas altera completamente o entendimento sobre os primórdios do cristianismo. A transmissão da literatura canônica ganhou força com a vitória dos bispos sobre povos considerados pagãos, que aconteceu no 1º Concílio de Niceia (em 325) após a conversão do imperador romano Constantino ao cristianismo considerado oficial.

Segundo ela, não só o Codex Tchacos (que contém o Evangelho de Judas), mas a Biblioteca de Nag Hammadi [compilação com 12 códices gnósticos], descoberta em 1945, mostram a enorme diversidade e a popularidade de grupos e doutrinas distintos no cristianismo nascente, situação que perdurou até a vitória da facção de Roma. "Havia cerca de 50 evangelhos e outras peças de literatura cristã - inclusive não gnósticas - circulando livremente até o século IV; assim, a versão católica da igreja mostra-se, definitivamente, uma ficção (necessária)", expõe Fiorillo.

Obra de Giotto, "O Beijo de Judas", retrata o sinal de Iscariotes para que Jesus fosse identificado pelos capitães

Origem discutida

Semelhante a postura do bispo Irineu de Lyon, líder que se equiparava em importância ao Papa na época e que ficou conhecido por denunciar os hereges, o reverendo Augustus Nicodemus, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP), classifica o registro como uma "obra espúria", escrita pela seita dos cainitas.

"Os cainitas tinham este nome pelas tentativas em seus escritos de redimir os vilões bíblicos, a começar por Caim. Judas é só mais um dos que passaram por este processo de revisionismo teológico e histórico, com o propósito de inocentá-lo e apresentá-lo como herói. Portanto, este 'evangelho' não nos traz informações confiáveis sobre o Jesus histórico e os fatos da sua paixão. No máximo, nos ajuda a entender um pouco mais sobre os seus autores", defende Nicodemus.

Reproduzida pela grande mídia a versão de Irineu, de que os cainitas seriam os autores do evangelho, o documento tem sido avaliado por uma gama de historiadores como uma produção de outra seita gnóstica, a dos sethianos (descendentes de Sete, filho de Adão e Eva que substituiu Abel após este ser assassinado pelo irmão Caim, segundo a Bíblia).

"São poucos os que atribuem o Evangelho de Judas aos cainitas. A interpretação que prevalece, hegemônica entre as autoridades no assunto, como Marvin Mayer, e que é corroborada pelo próprio texto, é que se trata de um documento do grupo dos sethianos, que acusa os católicos de falsos profetas e adoradores de falsos deuses ", afirma Fiorillo.

Assinalado por Marvin Mayer (um dos tradutores para o inglês do Evangelho de Judas) como um registro dos sethianos, a origem do apócrifo como sendo dos descendentes de Sete poderia ter sido conhecida de Irineu e seus colaboradores na caça aos hereges.

"Pode haver, de acordo com os herisólogos, ligações entre os cainitas e os sethianos, os quais empregaram o nome Alógenes nos seus escritos. (...) A associação com Alógenes, um personagem dos textos sethianos, faz supor que esse evangelho seja o mesmo que foi visto no século II por Irineu", supõe Mayer em "Mistérios Gnósticos - As Novas Descobertas".

"Os sethianos se consideravam os verdadeiros cristãos, ou seguidores de Jesus, e escolheram como patrono - pois é disso que se trata quando se fala da atribuição de autorias [apóstolos] aos evangelhos - uma figura que definitivamente não os confundissem com os ortodoxos", destaca Fiorillo.

Na opinião de Nicodemus, a discrepância entre os textos dos sethianos e o Evangelho de Judas explicaria a incoerência em atribuir aos descendentes de Sete a autoria do apócrifo que divide ideias. "Sete quase não aparece no Evangelho de Judas (é mencionado somente uma vez) e tem um papel secundário nele", observa o chanceler.

"O relato da criação que encontramos no evangelho de Judas difere do relato da criação que encontramos em outros textos atribuídos à seita dos sethianos. Portanto, a atribuição de Irineu e outros pais da Igreja, de que foram os cainitas que escreveram o Evangelho de Judas, é bastante verossímil", defende Nicodemus.

Com uma origem incerta, defendida por uns como sendo dos cainitas e por outros como dos sethianos, o sacerdote Ricardo Bianca, vice-presidente da Igreja Gnóstica do Brasil, não se detém à discussão, já que uma certeza é unânime entre os pesquisadores expoentes no assunto: O Evangelho de Judas é gnóstico, independente da seita responsável.

"A exegese mesma dos textos chamados canônicos é também muito difícil, e talvez jamais tenhamos certeza sobre como, quando ou por quem foram escritos de fato. (...) Aos gnósticos, no entanto, interessa mais a mensagem do texto do que toda a discussão sobre quem o teria escrito. Sua mensagem profunda é que deve agora ser compreendida", reflete Bianca.

Mestre gnóstico, fantasia apócrifa

Denunciador, polêmico e para muitos esclarecedor, o Evangelho de Judas, por não fazer parte do hall oficial, também gera discordâncias quanto ao que Bianca classifica como um fato: a sua autenticidade.

"O documento encontrado pode ser verdadeiro, mas não o seu pensamento". (...) Ele não pode mudar o curso da história cristã", afirma o frei Jacir, que ainda assim depõe a respeito da importância da vasta literatura apócrifa que retrata o personagem malhado todos os anos nos domingos de Páscoa, sob o argumento de "rediscutir o papel de Judas na história do cristianismo".

Em sua pesquisa de registros apócrifos, o frei relata um fato curioso no qual Jesus teria se encontrado com o "traidor" antes de ressuscitar, num local que seria a "mansão dos mortos", um espécie de pré-inferno onde muitos tiveram a oportunidade de serem salvos da condenação eterna.  

"Encontrando-se com Judas, Jesus lhe disse: 'que vantagem tiveste, entregando-me? Sofri todas as dores para salvar uma criatura. Mas ai de ti, Judas! Caia sobre ti duplo anátema e dupla maldição'", observa Jacir, que também exemplifica o enredo multifacetado de Iscariotes com outros fragmentos, os quais "procuram colocar a culpa pela atitude de Judas em sua mulher, afirmando que ela era má e sua mentora".

Muito diferente do que é apresentado nos evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), inclusive pela já comentada preferência notável de Jesus que brinda Judas como aquele que deveria libertá-lo da prisão do corpo, o Evangelho de Judas suscita críticas à Igreja, a qual teria valorizado uns escritos em detrimento de outros, num período em que a fronteira entre ortodoxo e herege ainda estava para se constituir.

"O evangelho é a coluna da Igreja, a Igreja está espalhada por todo o mundo, o mundo tem quatro regiões, e convém, portanto, que haja também quatro evangelhos. O evangelho é o sopro do vento divino da vida para os homens, e pois, como há quatro ventos cardeais, daí a necessidade de quatro evangelhos" (Irineu de Lyon em Adversus Haereses).

Bispo Irineu de Lyon, um dos principais combatentes do gnosticismo no século II 

A descrição de Irineu para a escolha dos quatro evangelhos é avaliada por frei Jacir como meramente simbólica. A seleção teria se sustentado pelo teor, por uma perspectiva teológica de Jesus.

"Os evangelhos canônicos partem da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Classifico os apócrifos em aberrantes (exagerados), complementares e alternativos", relata o frei que entende os registros renegados como representantes da "linguagem mitológica do cristianismo e os canônicos, a racional e histórica", mas não menos importantes para se entender o berço da era cristã.

Conhecida por anos exclusivamente por meio de Irineu, autor do livro "Contra as Heresias", a literatura que coloca Judas num novo patamar é apontada pela pesquisadora Marília Fiorillo como alvo manipulação. "O texto do Evangelho Judas divulgado pelo contemporâneo Irineu de Lyon no século II é distorcido, como cabia, aliás, as funções de um caçador de hereges (não-católicos)", afirma Fiorillo.

Repleto das peculiaridades gnósticas, como arcontes, éons e a chamada fagulha divina presente em todo ser humano, o Evangelho de Judas é sintetizado por Nicodemus como "fantasioso", em comparação aos oficiais. "Ele perde em credibilidade, antiguidade, aceitação, simplicidade, historicidade para Mateus, Marcos, Lucas e João", defende o chanceler.

Preterido pela Igreja cristã ortodoxa, o Judas apócrifo é eleito pelos gnósticos do século XXI como um mestre, um exemplo de sacrifício por uma causa. Ao contrário dos cristãos majoritários, o gnosticismo compreende Iscariotes em duas esferas.

"Há um Judas simbólico, traidor, e que se encontra na psicologia profunda de cada um de nós; e há um Judas histórico, que viveu em carne e osso todo o drama conhecido popularmente, e que cumpriu uma dolorosa missão - uma missão que somente poderia ser cumprida por alguém que realmente estivesse preparado e desperto", aponta o sacerdote Ricardo Bianca.

Complementar ao registro bíblico, o Judas histórico traz, segundo Bianca, uma mensagem mais densa, incompreendida pela maioria das pessoas. "Os textos assim chamados de canônicos prestam-se a uma determinada finalidade doutrinária, mas possuem também camadas mais profundas de significados, que não são tão evidenciadas quanto aquelas expressas pelos símbolos e pela linguagem dos chamados evangelhos apócrifos", observa o sacerdote.

O documento na mídia

Assim que foi divulgado em 2006 pela National Geographic Society, o Evangelho de Judas logo se um meio para que críticas surgissem às maiores instituições cristãs do mundo - católica e protestante. Estaria a mídia aproveitando documentos apócrifos para desmoralizar o cristianismo ortodoxo?

Para Fiorillo, não há um propósito dos veículos jornalísticos de atacar as denominações cristãs. "Não há a menor intenção de desmoralizar nada, a não ser que a verdade documental seja um crime de lesa-dogma; já no século XVIII o historiador Gibbon sabia e contava a versão das lutas internas do cristianismo que hoje, com a divulgação do CodexTchacos e Nag-Hammadi, possuímos integral e detalhadamente".

Por ser uma instituição milenar, a Igreja Católica, na observação de Jacir, reage sempre com um posicionamento conservador. "Opiniões divergentes sempre causam polêmicas", assinala o frei que alerta para o despreparo da mídia. "Muitas vezes, ela não tem o conhecimento teológico suficiente para tratar determinados temas, partindo para posições que revelam disputa pelo poder do saber e de informar. Além disso, reina uma certa intuição de que a Igreja escondeu informações", diz.

Detentora do mesmo livro sagrado, a Igreja Protestante também é alvo de polêmicas envolvendo as escrituras. O reverendo Augustus Nicodemus considera que haja um intuito, por parte de formadores de opinião, em desmoralizar a Igreja católica e evangélica, "numa tendência da sociedade ocidental de secularizar-se e tornar-se mais e mais materialista e indiferente para com a religião em geral".

"A prova disto é que dão destaque a supostas descobertas bombásticas como o Evangelho de Judas (que já era conhecido da Igreja desde o século II) e o exploram como uma evidência concreta da falácia dos Evangelhos canônicos e do ensinamento da Igreja Cristã acerca da morte e ressurreição de Jesus Cristo", continua Nicodemus.

Por Felipe Pinheiro

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