Jugo desigual: é possível conviver com ele?

Jugo desigual: é possível conviver com ele?

Atualizado: Quinta-feira, 3 Dezembro de 2009 as 12

Por João Neto - www.guiame.com.br

''Vixe, não vai dar certo, ele não é crente. Eu nunca vou namorar um homem assim!''. Essa foi a reação de Luana Duarte ao saber que Wanderson Cavalcante não partilhava da mesma fé que a sua. Ela havia se interessado pelo rapaz, que esporadicamente ia com os pais dele à Igreja Batista Alvorada, em Fortaleza (CE), mas percebeu que o estilo de vida que ele levava não estava de acordo com os princípios cristãos. Quantas mulheres já não se viram na mesma situação que Luana? Ou até mesmo quantos rapazes não se interessaram por moças que não seguem os mandamentos bíblicos? O jugo desigual e o medo de se desviar são sentimentos que permeiam os corações dos jovens cristãos que se deparam com situações assim.

Em entrevista exclusiva ao Guia-me o casal de namorados Wanderson Cavalcante e Luana Duarte falaram sobre a história de como eles se conheceram e conseguiram iniciar um relacionamento que os proporcinou grandes experiências e já dura quase um ano.

Apesar da primeira impressão que Luana teve em relação a Wanderson, ela nunca negou o interesse que sentia por ele. Ela passou a orar pela vida dele, o convidou para as programações dos jovens da igreja e colocou seus sentimentos diante de Deus. Apesar de colocar suas vontades bem claras em suas orações, a vontade do Senhor nunca deixou de ser prioridade em sua vida.

''Eu comecei a orar para ele se converter e passei a convidá-lo para programações da igreja. O Wanderson foi se aproximando mais da igreja e começou a sair conosco. Eu o fui conhecendo melhor e comecei a gostar dele. Agora minha oração era para ele se converter e para que, se fosse da vontade de Deus, ele se tornasse meu namorado'', relatou.

Conflitos

Uma batalha interior já se iniciava em Luana antes mesmo do namoro começar. Ela sentia que não estava certo entrar em um relacionamento com alguém que não partilhasse dos mesmos valores que ela. Iniciado o relacionamento, o conflito de influências poderia ser ainda mais forte ela sabia disso.

''Eu, curiosamente, Fui olhar o Orkut dele. Pra quê? [risos] Vi várias comunidades de festas e fotos com ele bebendo. (...) Eu dizia para Deus que eu só o queria se ele mudasse. Embora eu estivesse orando e gostando dele, eu vivia um conflito, porque quando eu nos imaginava namorando, imediatamente vinham na minha cabeça as festas e as bebidas'', disse.

Segundo Wanderson, o ano em que ele conheceu Luana também ficou marcado em sua vida por inúmeros conflitos. Apesar de ter crescido na igreja e até ter se convertido quando garoto, ele acabou se desviando ao chegar à juventude. Bebidas e festas faziam parte de sua rotina e comprometiam grande parte de seu salário. O seu futuro estava incerto e o único contato que tinha com a igreja, era devido a datas comemorativas e, mesmo assim, desmotivado.

''Minha vida estava um descontrole. Eu ia à igreja aproximadamente quatro vezes ao ano: dia dos pais, dia das mães, páscoa e natal. Ia apenas para deixar minha mãe feliz. Desde a infância fui criado no evangelho e até me converti aos doze anos, porém fui crescendo e me distanciei da igreja. No ano de 2008 eu estava vivendo um período da minha vida com muitos conflitos e incertezas sobre meu futuro, e estava totalmente entregue ao mundo. Bebia muito, todo meu dinheiro era gasto com bebidas e festas. Todo show de rock, de pagode e, principalmente, de forró eu estava presente'', afirmou.

Sentimentos correspondidos = orações respondidas?

Ao ser apresentado a Luana, Wanderson não demonstrou interesse imediato. Ele apreciou a beleza da moça, porém o que acabou chamando sua atenção foram outras qualidades que, segundo ele, se fizeram perceber com o tempo e conquistaram o coração do rapaz. A convivência com os jovens da igreja passaram a ser mais frequentes e as atitudes mundanas já o incomodavam. Porém o coração do jovem ainda não estava completamente reconcilado com Cristo.

''No início não havia interesse meu, apesar de eu a ter achado muito linda. Porém, Luana e suas amigas passaram a me convidar com mais freqüência para fazer algumas programações. Com a convivência, além da beleza, comecei a ver outras qualidades na Luana, que começaram a despertar meu interesse. Entretanto, eu tinha consciência que nossos mundos eram muito diferentes, por isso passei a viver um conflito inverso ao dela. No fundo eu a imaginava como minha namorada, mas sabia que para isso eu haveria que abdicar dos prazeres do mundo, ela iria querer me converter e eu não queria isso para mim'', contou.

Transformação

Um final de semana numa casa de praia com alguns amigos foi o bastante para Wanderson ter certeza de seus sentimentos em relação a Luana. Ela o convidou para passar alguns dias em uma casa de praia de uma família conhecida e as atitudes dela durante estes dias o fizeram refletir. Segundo Luana, Wanderson nunca dava certeza do que sentia em relação a ela. Algumas vezes a tratava muito bem, mas em outras ocasiões não dava tanta atenção assim. Então ela decidiu que adotaria uma ''estratégia''.

''Eu já estava cansada de esperar uma iniciativa do Wanderson, comecei a achar que ele não tinha interesse por mim. Então, eu resolvi não dar atenção para ele durante todo o final de semana. Essa era a minha estratégia. Se ele não gostasse de mim, ele também não iria me dar atenção e ia ficar por isso mesmo. Porém, se ele gostasse, ele iria ficar incomodado e iria tomar uma posição'', explicou Luana.

Wanderson confessou que a atitude ''inusitada'' de Luana o deixou preocupado, porém tal precupação o levou a concluir que o que ele realmente sentia pela moça era algo bom: estava apaixonado. Tal situação teve um resultado que superou as expectativas, não só de Wanderson, mas também de Luana (posteriormente). Wanderson sentiu vontade de se aproximar de Deus e pedir ajuda ao único que entendia o que realmente estava acontecendo.

''Eu tive a certeza (estou gostando dela!). Em outros momentos da minha vida, eu teria ido a um bar para esquecer, mas não sei porque resolvi orar, e pela primeira vez fui sincero com Deus, e disse: 'Meu Deus, minha vida está uma bagunça, principalmente minha vida amorosa, se for da tua vontade que eu namore com a Luana, me dê um sinal'. Quando eu cheguei em casa, entrei no MSN e encontrei uma amiga da igreja e ela começou a perguntar se eu  e a Luana não iríamos namorar. Comecei a me esquivar, dizendo apenas que éramos bons amigos. Ela enfatizou que a Luana era um presente de Deus para mim e que eu não deveria perder essa oportunidade. Imediatamente lembrei-me da minha oração e tive a minha primeira experiência com Deus'', relatou.

Wanderson abriu seu coração para Luana, explicando o que havia acontecido com ele naqueles dias e propôs o início de um relacionamento com ela. Segundo a moça, a transformação do rapaz era indiscutível. Apesar dele ainda não ter se convertido, ela decidiu acreditar que já havia esperado o tempo do Senhor e que Deus ainda tinha mais a fazer.

''Naquela noite eu pensei: 'Nossa, ele mudou da água para o vinho!'. Mostrou claramente que gostava de mim e eu também me declarei. Entendi que Deus queria que eu esperasse o tempo dEle, que não era no meu tempo. Depois de quase dois meses de namoro o Wanderson se converteu. Louvo a Deus porque Ele foi fiel a mim, sou testemunha da mudança verdadeira que aconteceu na vida do Wanderson. Teve um versículo que me marcou: "Deleita-te também no Senhor, e te concederá os desejos do teu coração." Sl 37:4. O importante é ser obediente a Deus'', celebrou.

Perigos

Segundo líderes cristãos que acompanham casais em diversas áreas do país, decisões como a de Luana exigem cuidado e responsabilidade por parte de quem a toma. Diretor da Eirene no Brasil (Associação Internacional de Assesoramento e Pastoral da Família), e terapeuta familiar, Dr. Carlos Catito alerta para a divergência de valores: um dos fatores que pode ser pedra de tropeço em muitos relacionamentos entre pessoas que não partilham da mesma fé.

''O principal malefício é o descompasso de valores dentro do relacionamento, o que levaria a constantes situações de stress. Por exemplo: o valor da verdade pode não ser muito significativo para um cônjuge não-cristão e este 'omitir' certas verdades ou mesmo deliberadamente falar pequenas mentiras, desagradando e criando conflitos com o que entende que deve-se ser transparente e honesto em tudo, conforme os princípios cristãos'', assegurou.

Mulher Sábia

Como na história de Luana e Wanderson, muitas mulheres acabaram tendo dificuldade em convencer seus namorados / maridos a se converterem ao cristianismo. Carlos afirma que isso pode estar ligado a uma característica cultural dos homens: o sentimento de ''auto-suficiência''.

''Acho sim que em geral os homens são mais independentes e portanto buscam menos um ser superior a quem seguir - se acham auto-suficientes, mas isso é forjado culturalmente, não a partir de uma diferença biológica'', alerta

Catito ainda afirma que a melhor maneira que uma mulher pode encontrar para convencer o seu marido / namorado de que ele precisa de Deus é zelar pelo testemunho cristão. Críticas pesadas aos erros do homem podem ser prejudiciais ao relacionamento, conforme conselho do psicólogo.

''Vivendo de acordo com os valores daquilo que crê e, como a própria Bíblia indica, fazendo-o em silêncio. O PIOR que uma esposa pode fazer é critica as atitudes do marido que ela considera contrárias aos ensinos bíblicos. Se ela VIVER o cristianismo de fato e de verdade, este per si vai se tornar atraente o suficiente para que o marido se interesse por ele'', alertou.

Concordando com as palavras de Carlos, a psicóloga cristã e terapeuta familiar Leonora Ciribelli lembrou que a mulher deve aceitar o fato de que quem faz a obra na vida do homem não é o esforço humano e lembrou o poder que o testemunho tem para convencer o ímpio a respeito do amor de Deus.

''Sua maneira de viver é seu maior desafio e testemunho. Infelizmente há muitas mulheres que não agem com sabedoria, porque querem ser o Espírito Santo na vida de seus cônjuges, tentando convence-los de seus pecados.  Na realidade, uma mulher que age assim acaba sendo o maior empecilho para a conversão de seu marido. O apóstolo Pedro fundamenta este principio em sua carta I Pedro 3:1. 'se algum deles ainda não obedecem à palavra, sejam ganhos, sem palavra alguma, por meio do procedimento de suas esposas'', alertou.

Impasse

O homem é o cabeça do lar, porém como a mulher cristã deve agir se seu marido não tiver a Bíblia como regra de fé e prática? A autoridade deste homem deve ser contestada? Segundo o Rev Lucas Guimarães, da Igreja Presbiteriana de São Vicente e integrante da equipe do Curso de Noivos desta comunidade, a mulher tem sim o direito de contestar a autoridade de seu marido, desde que ele use este poder sem estar de acordo com o real sentido da palavra, ou seja, quando quiser justificar sua liderança com atos violentos ou ofensivos.

''Autoridade não é sinônimo de autoritarismo e nem de brutalidade. Autoridade é ação responsável, comprometida e protetora. A mulher deve saber quais seus deveres e direitos, perante Deus e da lei. A igreja deve ajudá-la nessa busca. A submissão a violência, aos desmandos e a intolerância não é submissão e sim escravidão. Cristo nos libertou. Paulo, quanto trata sobre o não consentimento do descrente ou da descrente, recomenda aceitar a separação tendo em vista que eles 'não fica sujeito à servidão nem o irmão, nem a irmã; Deus vos tem chamado à paz' (1Co. 7.15)'', lembrou.

Lutar pelo relacionamento

São frequentes os casos em que um dos cônjuges se converte primeiro e se vê em situação de desigualdade de valores dentro de casa. Porém o Rev. Lucas Guimarães cita os conselhos do apóstolo Paulo para lembrar os casais sobre a importância de batalhar pelo sucesso de um relacionamento, ainda que este já pareça não ter mais futuro e ver tal situação como uma oportunidade de ganhar mais uma vida para o Reino de Deus.

''O voto matrimonial nos remete a todas as circunstâncias da vida. Nele prometemos fidelidade, não só de corpo, mas de sentimentos. Aprender a viver contente em toda e qualquer circunstância, como fez o apóstolo Paulo, talvez seja um fator evangelizador para o cônjuge descrente e de conversão para o crente. É uma alegria ir para a igreja com o cônjuge de lado (é claro que não é para todos!). É próprio sonhar com essa realidade. Oremos para que Deus nos proporcione um momento desse e para que não tenhamos a incrível facilidade de desfaze-lo: ambos irem para igreja, mas não lado a lado!'', propôs.

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