Leia trecho de romance que relaciona Caim e Abel com Super-Homem

Leia trecho de romance que relaciona Caim e Abel com Super-Homem

Atualizado: Sexta-feira, 26 Fevereiro de 2010 as 12

Esta sendo lançado no Brasil "O Livro das Mentiras", obra de Brad Meltzer que une dois grandes mistérios envolvendo mortes: um bíblico, outro contemporâneo.

O primeiro é o da morte de Abel, homicídio mencionado na Bíblia, mas cuja arma nunca foi explicitada. O segundo é a morte de Mitchell Siegel a tiros em 1932, pai de Jerry Siegel, criador do Super-Homem, crime que nunca foi solucionado e cuja arma também nunca foi encontrada. O autor de "O Livro das Mentiras" teoriza que a morte do pai por uma arma de fogo teve grande papel para que Jerry Siegel criasse um homem invulnerável às balas.

Uma das possibilidades para a arma do fraticídio de Abel é que se trata de um livro com o segredo da imortalidade. Objeto misterioso que une esses dois assassinatos. Meltzer tece essa relação misturando sociedades secretas, nazistas, enigmas simbólicos ao estilo de Dan Brown e conspirações.

O interesse de Brad Meltzer com o criador do homem de aço cresceu conforme ele pesquisou a origem do personagem, e ele chegou a criar uma campanha para salvar a casa na qual o personagem foi concebido. A campanha arrecadou mais de US$ 100 mil através do site http://www.ordinarypeoplechangetheworld.com/.

Veja abaixo um trecho do primeiro capítulo da obra.

"O Livro das Mentiras"

"Quarenta... trinta e nove... trinta e oito..." Ellis começou a contar, espreitando debaixo do punho de sua camisa engomada e consultando seu novo relógio Ulysses Nardin.

"Espere...! A injeção...! O que você colocou em mim?" Zhao gritou, agarrando um lado de seu pescoço.

"... trinta e sete... trinta e seis... trinta e cinco...", disse Ellis, com a voz tão serena como sempre. "Minha família encontrou-a primeiro na Bélgica. Conium maculatum. Cicuta."

"Você está...? Você colocou cicuta!? Você pôs um veneno - você está louco!? Agora não vai conseguir nada!" Zhao berrava tão alto quanto podia enquanto se movia violentamente e se arrastava em direção à porta.

De certa maneira, Zhao tinha razão. Atirar nele era algo arriscado. Mas Ellis sabia... não é arriscado quando sabemos que vamos ganhar. Depois de desenroscar a garrafinha vazia de cicuta, ele a substituíra por uma garrafinha cheia com um líquido amarelo nebuloso.

"E-este é o antídoto?", perguntou Zhao. "É, não é!?"

Ellis deu um passo atrás, para ficar fora do alcance de sua vítima. "Você sabe quem é Mitchell Siegel, Zhao?"

"S-sobre o que você está falando?"

"Trinta e um... trinta... vinte e nove... Em 1932, um homem chamado Mitchell Siegel recebeu um tiro no peito e morreu. Enquanto lamentava a morte de seu pai, ocorreu a seu jovem filho Jerry a ideia de um homem à prova de balas que ele chamou de Super-Homem."

No meio do rastejo, as pernas de Zhao pararam de se mover. "M-minhas pernas! O que você fez com as minhas pernas!?"

Ellis fez um gesto de cabeça e permaneceu silencioso. Até hoje, os cientistas não sabem por que o envenenamento por cicuta começa pelas pernas e se alastra para cima.

"Que ideia estúpida, não é, Zhao? Um homem à prova de balas? Mas a única razão de o Super-Homem ter sido criado foi porque um menino sentia falta de seu pai", esclareceu Ellis. "E qual é a melhor parte? O assassinato ainda não foi resolvido. De fato, as pessoas ainda estão muito excitadas com o Super-Homem, elas nunca se detêm para simplesmente perguntar por que Mitchell Siegel foi morto - ou mesmo para considerar que talvez, apenas talvez, ele possa ter feito algo que o transformou no mau sujeito dessa história... Vinte... dezenove...dezoito..."

"Eu não sinto minhas pernas!", soluçou Zhao, enquanto lágrimas deslizavam pelo seu rosto.

"Você acha que sou o sujeito mau aqui, mas não sou", disse Ellis, pondo de lado o vidrinho vazio, fechando sua maleta de médico de couro, e alisando os lençóis na beirada da cama. "Eu sou o herói, Zhao. Você é o sujeito mau. É você que está escondendo o Livro das Mentiras de nós. Assim como Mitchell Siegel."

"P-por favor, eu não sei sobre o que, diabos, você está falando!"

Ellis se agachou perto de Zhao, que estava estirado sobre a barriga, quase incapaz de respirar. "Eu quero o meu Livro. Diga-me qual é o seu destino final."

"Eu... eu... eu... já lhe contei", gaguejou Zhao. "N-nos... Ele está indo para o Panamá."

"E depois para onde?"

"É isto - Panamá...", ele repetiu, com o nariz pressionado contra o carpete, os olhos apertados de dor. "Só... o antídoto..."

"Você está sentindo o veneno apertando seu peito?", perguntou Ellis, olhando para baixo e percebendo que seus sapatos precisavam ser lustrados de novo. "Suas coxas estão mortas, Zhao. Depois o veneno vai subir para os testículos. Foi a cicuta que matou Sócrates. Ele narrou toda a sua morte - como o veneno deslizou da sua cintura para o seu peito, subindo até os seus olhos ficarem fixos e dilatados."

"Está bem... estabemestabem... Miami! Depois do Panamá... eles estão... está indo para Miami! Na Flórida", insistiu Zhao. "O papel... o recibo do despacho... está... eu juro... está em meu bolso! Agora faça o veneno parar!"

Ellis procurou no bolso de Zhao e retirou uma folha cor-de-rosa clara que continha todos os detalhes da chegada do despacho.

... sete... seis... cinco...

A cadela começou a rosnar. Ela podia sentir o cheiro da morte se aproximando. Mas Ellis ignorou o cheiro, lendo calmamente o recibo do despacho: o novo número de localização do contêiner, o nome do destinatário (devia ser falso) - tudo que a Liderança necessitava.

... quatro... três... dois...

Ainda deitado sobre o estômago e agora com a boca bem aberta, Zhao soltou um último suspiro oco que soou como os últimos bocados de água que são sugados por um dreno. O bisavô de Ellis descreveu o mesmo som em seu diário - logo depois de ter mencionado que não existia antídoto para envenenamento por cicuta.

... um.

Zhao foi agradável - até mesmo gentil, quando se encontraram pela primeira vez no funeral do médico -, mas a missão era maior do que ele. E, baseado no que aconteceu com Mitchell Siegel em 1900, a missão tinha muitos problemas com testemunhas.

A língua de Zhao estava flácida, e sua cabeça caíra adiante, com a testa contra o carpete.

Ellis não percebeu. Já estava ao telefone, digitando o número do juiz Wojtowicz.

"Eu lhe disse para não me telefonar aqui, Eddie", respondeu o velho com uma voz suave, falha.

"Ellis. Sou chamado de Ellis agora", ele respondeu, sem nunca perder sua compostura. Estendeu a mão esquerda, admirando a tatuagem. "São cinco da manhã aqui, Ellis. O que você quer?"

Ellis sorriu - sorriu verdadeiramente -, voltando toda sua atenção para o telefone. "O que eu quero é que você simplesmente se lembre de onde estava quando o encontrei, Juiz. O seu grupo - sua Liderança -, o seu sonho estava velho e morto. Não foi assim que você descreveu os seus últimos anos? Era apenas um outro velho homem descartado, coberto de teia de aranha, sentado em seu apartamento grampeado em Michigan e se perguntando por que os seus dias de glória não foram mais gloriosos? Você nem mesmo é uma nota de rodapé na história, Juiz. Nem mesmo um asterisco. Mas, se quiser, eu posso coloca-lo de novo ali. Talvez um dia você se torne um parêntesis."

"Minha família tem estado na Liderança desde..."

"Não se embarace, Juiz. Os nomes de família não o fazem mais entrar em Harvard; o que o faz pensar que eles o farão entrar aqui?"

Houve uma longa pausa na linha. "Apreciei você nos ajudar com isto, Ellis", o Juiz finalmente disse. Clareando a garganta, ele acrescentou: "Você está perto de encontrar o Livro, não está?".

"E prestes a chegar ainda mais perto", disse Ellis, olhando para o recibo cor-de-rosa do despacho e estudando os novos detalhes de localização do contêiner: quando ele deixou o porto, quando chegou a Miami, até mesmo o motorista do caminhão que era responsável pela retirada da carga.

Harper, Lloyd.

"Vamos, Benoni", ele murmurou para a cadela. Ele sabia que era um nome esquisito, era o nome do cão de guarda de Abel - o cão que no fim fora dado a Caim - e era a única testemunha do primeiro assassinato cometido no mundo.

"Você está convidada para algo especial, garota", disse enquanto passava por cima do corpo de Zhao e dirigia a cadela para fora, para a ruela. "Nesta época do ano, o tempo está deslumbrante na Flórida."

Quando a cadela corria adiante, Ellis nunca a perdia de vista. Ele conhecia sua história. Somente com Benoni ele encontraria o Livro das Mentiras e resolveria o verdadeiro mistério do maior vilão do mundo.

Postado por: Felipe Pinheiro

veja também