Levantamento aponta avanço dos evangélicos na formação de liderenças políticas

Levantamento aponta avanço dos evangélicos na formação de liderenças políticas

Atualizado: Quarta-feira, 1 Setembro de 2010 as 3:39

A socióloga Vivian Chaia, pós-graduada em políticas públicas, falou a Século Diário sobe a mudança no comportamento do eleitorado nas duas últimas décadas. Com uma ampla vivência junto aos movimentos sociais por conta de sua atuação como socióloga no Ibase, ela trabalhou, inclusive, com o sociólogo Betinho, da Campanha contra a Fome, e na assessoria da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase) aos movimentos populares e sindicais.

A socióloga coordenou recentemente uma pesquisa sobre lideranças políticas na região metropolitana. A mesma pesquisa foi realizada na década de 80, e o novo levantamento surpreendeu mostrando uma mudança no perfil das lideranças e no papel desempenhado pelas entidades sociais.

No levantamento, a Igreja católica perde espaço para os evangélicos na formação de lideranças políticas. Eles passam a atuar nas classes mais baixas da população, com formação profissional e assistência social. Lideranças intelectuais, sindicais e de bairro dão lugar ao empresariado e às religiões na influência do voto.

Confira a entrevista de Viviane aos repórteres Renata Oliveira e Frederico Carneiro:

Século Diário: – A senhora coordenou uma pesquisa que mostra uma mudança no eleitorado. Que tipo de mudanças são essas?

Viviane Chaia: – Nós fizemos uma pesquisa de lideranças na região metropolitana, na década de oitenta. E há cerca de um mês repetimos essa mesma pesquisa, que identifica todos os tipos de lideranças. Na década de oitenta, as lideranças de peso eram a liderança comunitária, a liderança sindical, e o que a gente chama de liderança educacional. E o que nós constatamos agora é que A liderança educacional não existe mais...

- Essas lideranças educacionais seriam exercidas por quem, os professores propriamente ditos?

- Na década de 80, você tinha uma influência da escola na comunidade, do professor, do orientador, do diretor. Você tinha uma influência do líder comunitário com várias lutas, como pavimentação de ruas, postos de saúde, escolas, uma série de coisas que estavam por se fazer na década de 80; você tinha o peso do movimento sindical, porque era de oposição, eram movimentos mobilizadores. Você tinha uma certa presença da liderança religiosa, mais a católica. Porque a Igreja católica tinha influência na formação destas lideranças. Uma outra liderança que surgiu nesta pesquisa é da área de esportes. Cultura e esportes. Principalmente em Vila Velha, Neimara Carvalho; Anderson Varejão, do basquete. Agora, liderança ambiental não existe. Não tem reconhecimento nenhum. Na região metropolitana, nenhuma. Essa bandeira ambiental não existe mais, porque se tem essa ideia de que preservação ambiental tira emprego. É uma cultura desenvolvimentista, e o meio ambiente não faz parte do desenvolvimento. A Dilma vendeu bem essa ideia. Ela não tirou Marina do Ministério? Outra coisa: das lideranças sindicais, só aparece o cargo. É a CUT e não o presidente da entidade; é a OAB e não o presidente da Ordem.

- Com a teologia da libertação...

- Exatamente. Puebla e Medellín. Quando fomos agora fazer a pesquisa, fomos com a mesma tipologia e tomamos um susto. A liderança educacional não existe mais, a liderança técnica ou intelectual também sumiu. Essas lideranças são as que produzem o saber, são as vindas da universidade. Essas lideranças, na década de 80, apareciam. Pessoas como Roberto Simoes Garcia, Arlindo Vilaschi. Isso acabou! Quem ocupa o lugar dessas lideranças? Os chamados midiáticos. Quem aparece na TV, na internet, ganhou este espaço. Então, a educacional sumiu, a técnica acabou, a comunitária perdeu peso, porque não tem mais bandeira de luta. A sindical também não tem luta, não tem mais reivindicação a fazer, os centros urbanos, as metrópoles, bem ou mal, tirando as favelas, a miséria, que não é muito a realidade do Espírito Santo, você não tem mais um papel para a liderança comunitária.

- O sindicato também mudou seu perfil?

- O sindicato mudou, não é mais oposição. Hoje o sindicato, que é a liderança do trabalhador, fez um pacto com o patrão, então não existe mais o embate capital versus trabalho. E isso influencia nas eleições. Quem hoje influencia? Quais os setores que hoje influenciam o eleitorado? O empresarial, que tem uma posição de destaque, ocupando o espaço desses que saíram; e a religiosa. E aí tanto a católica quanto a evangélica.

- Mas não com aquele papel da década de 80...

- Não. Redefiniu o papel. A Igreja católica da década de 80 tinha o papel mobilizador, politizador, porque ela organizava o processo, e hoje ela não exerce mais esse papel, com a urbanização e a redemocratização, após a ditadura. A Igreja redefine seu papel e vai para as franjas da sociedade. Ela vair atua nas classes D e E, mais até na E. Ela vai para o lumpen, o que na teoria marxista a gente chama de lumpen, que é a franja da sociedade, é a classe mais pobre. É lá que você vai encontrar famílias desajustadas, pais e mães alcoolizados, muito desemprego, muita baixa qualificação profissional, droga, prostituição, desagregação familiar. E é exatamente nessa franja que a Igreja vai atuar, é ali que ela se realimenta e reencontra o papel dela de atuar nessas classes. E aí ela faz um papel evangelizador e politizador, mas politizador no sentido de dar dignidade. Nesta classe E nem a bolsa família do Lula chega, ela chega na classe D. É uma ponta da sociedade muito desagregada, muito marginalizada. Então a Igreja tem um papel de reestruturação familiar, porque a base da Igreja católica é a célula familiar. Ela traz essas pessoas para dentro da Igreja, para o caminho da fé, mas também reestrutura essa família, com formação de mão de obra. Ela não dá a cesta básica, ela não dá o peixe, dá a vara e ensina a pescar.

- E os evangélicos?

- Os evangélicos pentecostais é que têm um trabalho politizador. Eles fazem política, os demais não atuam no campo político. Só os pentecostais: Assembleia de Deus...

- Mas você está falando aí de política institucional, formar candidato?

- Sim. De formar liderança, de atuar na organização política da sociedade. E eles avançam sobre os fiéis da Igreja católica, porque têm um trabalho do dia a dia, estão mais presentes na vida dos fiéis. A Igreja católica geralmente se reúne uma vez por semana, o evangélico tem uma presença cotidiana. Hoje, não, a Igreja católica tem mudado, está mais presente. Com a presença dos carismáticos, então, na terça-feira tem um grupo de oração, na quinta-feira um grupo de adolescentes... ela começa a ter várias atividades durante a semana, até para competir com a igreja evangélica, que continua avançando. Além disso, o pastor da igreja pentecostal tem uma relação com o rebanho dele, de controle. A igreja católica, não. Ela faz um trabalho conscientizador. Então ela trabalha sobre quem são os candidatos, qual o perfil de cada um. Recentemente pudemos observar a postura do arcebispo de Vitoria, Dom Luiz Mancilha Vilella. É isso aí! A Igreja católica atua dessa forma. Já os evangélicos pentecostais, não. Eles têm os seus candidatos e é no cabresto o voto. No controle que eles têm desses fieis e é por isso que os evangélicos estão avançando. Você vê que eles têm um monte de candidatos.

- É mais eficiente a prática evangélica de fazer política?

- Isso de longe! Dessa pesquisa que eu fiz na Grande Vitória, 75% dos evangélicos votam em Magno Malta. Já os católicos votam em Ricardo Ferraço, 58% votam em Ricardo.

- Alguns candidatos evangélicos, por exemplo, o Magno Malta, dizem que não gostam de misturar as coisas. Mas o eleitor acaba se identificando, não?

- Claro! Por causa da doutrina. O que os evangélicos defendem, crêem e pregam é diferente dos valores dos leigos, ou como eles chamam, dos ímpios, que são as pessoas que não têm religião, ou dos católicos e de outras religiões. Eles dão muita importância àqueles valores e, por isso, eles votam nos evangélicos.

- Isso não põe em debate a questão da separação do Estado da instituição religiosa? Porque vemos muitos políticos realizarem cultos em prédios públicos e fazerem projetos em favor das igrejas...

- Isso está errado! O Estado é laico. Isso fere a lei. O próprio PT empresta o prédio público para esta prática. A prefeitura do PT empresta, alegando que a Igreja tem um papel importante na sociedade. E tem, de fato tem. Ela está fazendo um trabalho social que o Estado não faz, ou está se negando a fazer, e de forma eficiente. Mas o Estado tem que ser laico. Está na lei, e lei tem que ser cumprida. Não se discute se a Igreja tem um papel importante ou não, mas eles usam mesmo. E não poderiam.

- E com base em tudo que você recolheu nesta pesquisa, qual o futuro desse eleitor?

- Eu acho que a classe C, e o jovem da classe C, ele vai mudar o perfil do eleitorado daqui a quatro anos. A classe C hoje é 50% do eleitorado, metade. Quem decide a eleição é ele. Só que voto dele não tem viés econômico, não tem viés ideológico, é um voto de continuidade. E não adianta ficar batendo no candidato, quem ele foi, o eleitor não quer saber disso. Ele quer saber daqueles dois quem vai manter o Prouni, o acesso ao crédito, acesso à moradia... isso é o que ele quer saber. Eu acho que o jovem da classe C vai mudar o perfil. Porque 48% dos jovens do Brasil – em algumas regiões até mais – decidem o consumo dentro de casa. Eles influenciam. Essa classe C é de pouca para média escolaridade, mas os filhos dela estão fazendo faculdade, e é o filho que vai dizer: “pai, mãe, vocês tem que votar em fulano”.

- Ele vai virar liderança.

- Ele vai virar referência para a família dele. Esse jovem da classe C é que tem que ser conquistado. Ele hoje não quer saber de política. Jovem de nenhuma classe social quer saber de política, a política não conseguiu alcançar o jovem. As pontas não querem saber, nem os jovens, nem os idosos.  Então, o caminho é esse jovem de classe media, porque ele quer ser classe B. É ele que vai mudar o perfil da política.

- Vai melhorar?

- Vai melhorar porque ele é um consumidor exigente. E se ele é um consumidor exigente, pode virar um consumidor exigente. Você não vai dar dentadura para ele, nem pé de bota e nem empreguinho para ficar dirigindo van, como esses políticos fazem por aí.

- Esses políticos estão com os dias contados?

- Esses políticos, eu acho que esses políticos que compram votos, que distribuem cesta básica, que usam as máquinas das prefeituras... Aí, vocês denunciaram a distribuição de cesta básica, na Serra. Eu acho que, guardadas as devidas proporções, eu acho que esses políticos estão com os dias contados, sim. Agora, quando você tem uma prefeitura na mão você tem uma máquina de emprego na mão. E isso é uma influência muito grande. Você pega o município de Fundão, por exemplo, se eu te disser que 60% dos empregos são gerados pela prefeitura... Quem tem a prefeitura tem município na mão. Então, como você vai levar um discurso para lá? Não tem jeito. A primeira coisa que você tem de garantir são os empregos, para garantir o consumo. Política de emprego é extremamente importante. Mas também, em Fundão, o jovem está no crack, não tem emprego para o jovem em Fundão, as empresas fecharam ou foram embora. É um município que está andando para trás.

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