"Levo comigo as convicções cristãs" diz pastor Roberto de Lucena

"Levo comigo as convicções cristãs" diz pastor Roberto de Lucena

Fonte: Atualizado: sábado, 31 de maio de 2014 09:55

A bancada evangélica no Congresso nunca esteve tão grande. Setenta e dois deputados federais e senadores de todos os Estados irão compor a maior Frente Parlamentar Evangélica já eleita. Neste grupo, estará, pela primeira vez, o pastor Roberto de Lucena (PV), um nome forte da Igreja O Brasil Para Cristo, que conseguiu o feito de unir a igreja em torno da sua primeira candidatura a um cargo eletivo, como deputado federal, e ainda o apoio de outras denominações. Foi uma votação expressiva, fruto do seu intenso trabalho e de 25 anos de ministério pastoral, muito carisma e da influência conquistada em diferentes instituições nacionais que congregam diversas denominações.

Aos 44 anos, pastor Lucena tem uma trajetória marcada por conquistas ministeriais precoces. Ele já esteve na presidência nacional da Igreja O Brasil Para Cristo e hoje, além de ser membro do Supremo Conselho que dirige a denominação, integra o primeiro escalão do Conselho Nacional de Pastores do Brasil (CNPB) e da Fenasp (Frente Cristã Nacional de Ação Social e Política).

Em entrevista à revista Exibir Gospel, em seu gabinete na Catedral da Esperança, em Arujá (SP), o pastor Lucena falou das suas expectativas para a nova legislatura, do governo de Dilma Rousseff, de seu compromisso político como deputado federal evangélico e temas polêmicos, como aborto, Lei da Homofobia-PL 122, dentre outros que vão colocar os evangélicos na linha de frente dos embates na Câmara Federal.

Apesar de levantar a bandeira da família e dos preceitos cristãos, Lucena tem claro para si que o seu mandato deve ser um instrumento de Justiça social e o seu gabinete precisa estar aberto para todos os brasileiros, independentemente do seu credo religioso: “Não estou indo para o Congresso apenas para defender a igreja evangélica ou legislar para ela. Vou legislar para todos os brasileiros. Agora, como evangélico, estou levando comigo as convicções cristãs”, destaca.

  Exibir Gospel - Após 25 anos de ministério pastoral, agora o senhor assume um compromisso político. O que representa em sua trajetória o cargo de deputado federal? Pastor Roberto de Lucena – É o exercício da política profética, porque eu não vou conseguir desvincular o ministério pastoral da minha vida. E a política eu vejo como parte do meu chamado. Também vou exercê-la como parte do meu ministério.

  EG - Sua eleição foi uma surpresa, visto que se tratou da sua primeira candidatura para um cargo público. A que o senhor atribui esta vitória e qual o peso da Igreja O Brasil Para Cristo nisto? Lucena - Foi fundamental. A denominação contabiliza 1,2 mil igrejas no Estado. São quase 200 mil membros. Uma grande parte da nossa eleição veio dessa lavoura, que é a Igreja O Brasil Para Cristo. Outra parte deste resultado veio do relacionamento de confiança, amizade, cumplicidade e companheirismo com outras igrejas evangélicas, com quem temos caminhado. Não precisei ser apresentado a esse povo como alguém que estava começando. Já tinha uma história com eles, são anos de caminhada. E a outra parte desse resultado veio dos nossos apoiadores, até não evangélicos, que estavam procurando um projeto novo e viável e que encontraram em nós essa possibilidade.  

EG - O senhor é membro do Supremo Conselho das Igrejas O Brasil Para Cristo, vice-presidente do Conselho Nacional de Pastores do Brasil (CNPB) e um dos líderes do Fenasp (Frente Cristã Nacional de Ação Social e Política). Conte-nos como foi a sua escalada rumo a cargos tão expressivos nos cenários evangélico e político. Lucena - Eu sou filho de pastor, neto de diácono. Meu pai se converteu quando eu tinha apenas um ano de idade. A minha primeira experiência espiritual e de fé foi aos três anos. Comecei a pregar aos seis. A partir daí, tive uma série de episódios de precocidade. Aos 20, fui ordenado pastor, na época, o mais jovem na Igreja O Brasil Para Cristo. Fui pastor auxiliar do meu pai em Santa Isabel, cidade onde nasci. Aos 24, quando vim para Arujá, tive o presente de Deus de dar início ao ministério na cidade. Quase 20 anos depois, somos cerca de três mil membros em 19 igrejas na nossa regional. A partir daqui comecei a servir o Brasil. Fui presidente da Secretaria do Nordeste das Igrejas O Brasil Para Cristo, vice-presidente do Apha Ministries no Estado da Flórida, nos Estados Unidos da América, e, aos 33 anos, em 1999, assumi a presidência nacional da igreja O Brasil Para Cristo. Ela é uma das maiores denominações Evangélicas Pentecostais do Brasil, com milhares de templos e quase um milhão de membros espalhados em todo o território nacional.

  EG - E como foi esta transição da Brasil para Cristo para instituições nacionais? Lucena - Construímos uma malha de serviços sociais e assistenciais no País por meio da igreja. Paralelamente a isso desenvolvemos um trabalho junto ao Conselho Nacional de Pastores do Brasil (CNPB), onde hoje, com muita honra, ocupo a 1ª vice-presidência. Também participamos da construção da Fenasp, da qual sou o representante no Estado de São Paulo. Além dessas frentes de serviços, tenho pregado por todo o Brasil e em vários países.

EG - Como representante dos evangélicos no Congresso, isto aumenta a sua responsabilidade como parlamentar? Lucena - Eu não me sinto um deputado evangélico. Sou um evangélico deputado. Não estou indo para o Congresso apenas para defender a igreja evangélica ou legislar para ela. Vou legislar para todos os brasileiros, de todos os credos, de todas as demandas; inclusive do Alto Tietê, região à qual estou inserido e, evidentemente, haverei de defender os seus interesses. Agora, como evangélico, estou levando comigo as convicções cristãs, mas o nosso gabinete estará aberto para todos.  

EG - Qual sua expectativa de integrar a maior bancada já eleita da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso? Lucena – Oportunamente terei boas notícias a respeito deste assunto, mas tenho a expectativa de que aqueles que foram eleitos representando projetos sérios e as convicções cristãs lá manterão as suas posições e se unirão em torno dessas causas comuns.

  EG - A Frente terá batalhas importantes nesta gestão, envolvendo temas polêmicos como o aborto e os homossexuais. O senhor acredita que haverá muitos embates? Lucena - Não esperamos que sejam batalhas fáceis, mas estou com uma expectativa enorme de que as pessoas que foram eleitas pelo povo defendam os interesses dos brasileiros no Congresso. Em relação ao aborto, entendo que é uma exceção e deve ser tratado como exceção. Devemos nos posicionar para que a exceção não se transforme em regra e que não se transforme em pecado nacional e um atentado à vida. Precisamos ter uma regra clara, que o Brasil se posicione contra isso, mas há exceções e elas devem ser estudadas com muita seriedade, sem envolvimento emocional. Se fizermos um plebiscito nacional, o Brasil vai dizer não. Acredito que os parlamentares não podem decidir algumas questões como esta, que não é religiosa, é ética, sem envolver a coletividade nacional.  

EG - As discussões em torno da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a PL 122, que é a Lei da Homofobia, têm gerado atritos entre ativistas de movimentos gays e evangélicos, que, declaradamente, se posicionam contra tudo isso. O senhor acha que os parlamentares cristãos devem manter o seu posicionamento religioso no Congresso? Lucena - Nós estamos discutindo a Lei da Homofobia, e essa lei chega ao Congresso, passa pela Câmara, vai para o Senado. A novela tem vários capítulos, não há nada encerrado. Mas o que estamos tratando nada tem a ver com homofobia. A Igreja não pode ser chamada de homofóbica por não apoiar o casamento gay. A Igreja professa uma fé, fundamentada na Bíblia. A Igreja não deve interferir nos assuntos do Estado, mas o Estado também não deve interferir nos assuntos da Igreja. O que temos nessa proposta é uma interferência, é uma maioria tendo de se submeter a uma minoria. Mas quero falar do homossexual e da nossa relação com sua opção. Ele, enquanto cidadão brasileiro, precisa ser respeitado. Sou contra todas as formas de desrespeito, seja intolerância, violência em todos os níveis, desde a agressão verbal. O próprio Senhor Jesus, que é o nosso modelo, é um respeitador. O homossexual merece ser respeitado. A sociedade deve isso a ele, e o Estado precisa zelar pela sua segurança, da mesma maneira como protege qualquer outro cidadão. No entanto, ele não pode ser mais protegido do que a mulher, por exemplo. O número de mulheres assassinadas pelos seus companheiros dentro de casa é de 40 mil nos últimos dez anos, é quase metade da população de Arujá, por exemplo. Mas que interessante! Não vemos uma sociedade se levantando contra isso!  

EG - Seria, então, um cuidado e atenção excessivos em torno dos homossexuais? Lucena - Quando uma pessoa sofre uma agressão não é, necessariamente, por causa da sua orientação sexual. A mídia dá um destaque distorcido sobre esta questão, parece que deseja colocar de um lado a vítima de um sistema medonho e do outro lado o mundo inteiro. E isso não é verdade. No caso do reconhecimento do casamento de pessoas do mesmo sexo, não entendo que o Brasil deva fazer isso. A formalização disso é determinar que o segmento religioso reconheça esse casamento. É extrapolo. Não concordo que a nossa fé, as nossas convicções tenham de se sujeitar àquilo que não aceitamos. Vivemos numa democracia e regidos por uma Constituição que nos apresenta garantias inegociáveis.  

EG - A ex-presidenciável Marina Silva anunciou que vai abrir uma ONG para politizar os evangélicos. O senhor acha que essa iniciativa é necessária ou esse é um processo que deveria ocorrer naturalmente dentro das igrejas? Lucena - O brasileiro precisa ser politizado, independentemente da sua religião. Entendo que o evangélico, por sua vez, não possa ser alienado desse processo. Somos 40 milhões, uma força capaz de definir uma eleição. Sobre nós também repousa o bônus de sermos um povo de números impressionantes, que influencia vários segmentos, mas também o peso da responsabilidade e do nosso compromisso com Deus e com a nação. Marina, que é uma referência para toda a pessoa que quer ser correta e que não desiste de ser de Deus e do bem, está se propondo a essa árdua tarefa, mas por toda a vida ela se habituou a enfrentar importantes desafios. Certamente poderá contar com o meu total apoio e com um grande número de apoiadores.  

EG - Sobre o governo de Dilma, quais as suas expectativas? Lucena - Estou otimista, mas é cedo ainda para qualquer avaliação. Os primeiros movimentos demonstram uma Dilma mais independente do governo anterior do que se esperava. Entendo que o Brasil, em algumas áreas, precisa corrigir a sua rota, especialmente na economia. Há bolhas que precisam ser tratadas antes que tenhamos surpresas negativas. Temos uma carga tributária insuportável, juros altíssimos e uma série de questões que envolvem a política externa, que precisam ser revisadas. Mas tenho esperança de que Dilma tenha sensibilidade e a firmeza para tratar dessas questões.

  EG - Enquanto deputado federal, como o senhor se posiciona diante do governo? Lucena - Como alguém que estará sempre ao seu lado, enquanto ele estiver ao lado dos interesses do povo brasileiro e enquanto as suas atitudes não traírem as nossas convicções de princípios cristãos.

  EG - O que o senhor diria a quem critica o envolvimento de pastores e líderes evangélicos na política? Lucena - Eu respeito essa posição. Não estou deixando de ser pastor, porque o serei até a morte, não estou deixando de ser pregador, porque é um chamado que recebi de Deus. Apenas estou somando a essas grandes responsabilidades mais uma, que recebi por procuração do povo. Não é mais honrosa e importante do que as que já desenvolvia. É mais uma, outra área. Então eu respeito quem pensa assim. Eu defendo que o púlpito não pode ser palanque. Tenho a consciência de que não o usei para me promover enquanto candidato. Defendo que a Igreja não deve trazer a política para dentro dela. Mas a Igreja tem de entrar na política. É uma ordem imperativ,a que nós sejamos sal e luz da Terra.  

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