Livro Cristão é destaque na Folha de São Paulo

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Atualizado: Terça-feira, 28 Abril de 2009 as 12

Em entrevista à Folha, Miroslav Volf fala sobre O fim da memória. Fatos históricos recentes e sua experiência pessoal são alguns dos temas.

O jornal Folha de S.Paulo, edição do dia 2/04, publicou no caderno Mais entrevista com o autor Miroslav Volf, professor da Universidade de Yale, sobre seu lançamento O fim da memória. A entrevista, assinada por Caio Liudvik, aborda um dos principais temas do livro - o perdão - sob o ponto de vista de pessoas traumatizadas por graves acontecimentos pessoais ou históricos.

Em O fim da memória, o teólogo Miroslav Volf afirma que as boas lembranças devem ser cultivadas, mas as memórias ruins, apagadas e relegadas ao passado em que ocorreram, pois alimentam sentimentos negativos, como o ódio e a vingança e impedem que as feridas cicatrizem.

Volf foi convocado a servir o exército da Iugoslávia comunista do início dos anos 1980. Sua orientação religiosa e seu casamento com uma cidadã norte-americana serviram de pretexto para considerá-lo inimigo do regime, dando início a uma aparentemente interminável série de penosos interrogatórios.

Questionado logo de início na entrevista sobre ter perdoado seu algoz, o capitão G., Miroslav afirma que sim e explica como se dá o processo do perdão, pois ele não ocorre de uma vez só. Perdoar também não deve ser uma imposição, como responde quando perguntado se é possível um pai perdoar o assassino de sua filha.

Miroslav é questionado sobre de que forma sua perspectiva sobre perdoar e esquecer influencia o conceito e a prática da lei em nossa sociedade. Leia transcrição abaixo.

FOLHA - Por que existe, em suas palavras, esta "obsessão" do mundo contemporâneo pela recordação? O 11 de Setembro é um exemplo nesse sentido?

VOLF - Hoje construímos e interpretamos nossa identidade em termos narrativos: somos aquilo que nos aconteceu, o que fizemos, o que outros fizeram a nós, como reagimos ao que outros fizeram a nós etc.

Se isso é o que somos, então a memória é essencial. A memória, nesse caso, é nossa identidade; se você perde sua memória, perde seu eu.

Quanto maior é o impacto que um ato tem sobre uma pessoa, mais é significativo para nós nos lembrarmos dele. É por isso que juramos nunca esquecer acontecimentos como o 11 de Setembro. Entretanto, freqüentemente fazemos mau uso dela. A memória do 11 de Setembro, especialmente da maneira como foi manipulada e empregada pela administração George W. Bush, é um caso quase emblemático de quão danosa ela pode ser. Cada conflito - quer aconteça numa sala de jantar ou num gabinete do governo - é movido pela memória. A memória de males sofridos confere energia e legitimação ao conflito. Ao mesmo tempo em que nos asseguramos de não nos expor à violência de outros, podemos fazer da memória dos sofrimentos que nos foram impostos pontes que nos unem aos outros e fontes de motivação para consertar o mundo.

Em seu livro, Volf trabalha a necessidade de se interromper o ciclo destrutivo das lembranças dolorosas por meio da perspectiva divina de perdão. Também sobre a base bíblica, ensina ao leitor quais lembranças devem ser cultivadas e o jeito correto de armazená-las.

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