Lugares da Bíblia - Tiro

Lugares da Bíblia - Tiro

Atualizado: Terça-feira, 11 Outubro de 2011 as 10:13

Tiro, citada na Bíblia várias vezes no Antigo e no Novo Testamento, era uma antiga cidade de origem fenícia, que pertencente hoje ao Líbano. Os tirianos eram aliados de Israel desde os tempos de Davi, como mostra o livro de Reis, pois de lá foram enviados vários materiais e profissionais para a construção do imponente Templo de Salomão. Alguns dos mais importantes personagens bíblicos lá estiveram, como Paulo, Estêvão e o próprio Jesus Cristo.

Vizinha de outra terra bíblica muito citada, Sidom, fica a 30 quilômetros dela na costa do Mar Mediterrâneo. É chamada localmente de Shûr, “rocha” ou “muralha” em árabe (ou “Sur”, em latim), por ali ter sido construída uma imponente fortaleza. Era dividida em duas partes: a Velha Tiro, formada pela citada fortaleza; e a cidade propriamente dita, numa ilha rochosa bem próxima à costa libanesa.

Sua posição militarmente estratégica tanto em relação à costa quanto ao mar lhe dava visão privilegiada, e seu exército dificilmente era surpreendido por inimigos. Em 586 antes de Cristo (a.C.), os guerreiros de Nabucodonosor, da Babilônia, realizaram um cerco que durou longos 13 anos, sem, no entanto, conseguirem entrar na ilha. Somente mais tarde, durante um cerco de 7 meses, o macedônio Alexandre, o Grande, conseguiu tomar a ilha. O novo domínio não arrefeceu o caráter comercial do lugar, mantendo-se importante rota e entreposto de mercadorias até a era cristã. Alexandre ordenou que a ilha fosse integrada à costa. A Velha Tiro foi demolida e suas pedras foram usadas para aterro, unindo a cidade insular ao continente.

No Evangelho de Ezequiel (capítulo 27) fica bem clara a tradição naval, pesqueira, militar e comercial dos tirianos, evidenciando também a qualidade do trabalho de seus construtores e artesãos com alguns dos melhores materiais da época, como tecidos nobres, madeiras de lei e metais.

Os armazéns da Tiro bíblica guardavam grande parte dos artigos comercializados no mundo então conhecido. Os mercadores locais foram os primeiros a navegar pelas águas do Mediterrâneo, fundando colônias que viravam entrepostos de preciosa estratégia, em pontos como a própria costa mediterrânea, o Mar Egeu (Grécia), África, Sicília, Córsega e Península Ibérica. Originalmente, antes do aterro que a uniu ao continente, a cidade possuía dois importantes portos. O da parte norte permaneceu, usado até hoje.

Mais tarde, mesmo passando pelas mãos de vários reinados que a conquistavam, foi de vital importância para o cristianismo, recebendo cristãos influentes como Paulo (à esquerda), que por ali passou um tempo pregando.

De Tiro era proveniente uma rara tinta, a púrpura tiriana, extraída de uma concha endêmica (só encontrada em uma parte do mundo). Tal raridade fazia com que fosse usada para tingir tecidos destinados somente à nobreza e à realeza em muitas culturas (daí o histórico uso do roxo em roupas, acessórios e artefatos de autoridades e famílias de grande distinção financeira).

Dos mitos ao Deus de verdade

Na mitologia grega, Tiro era a terra natal da princesa fenícia Europa, que encantou o lendário Zeus e foi levada para Creta por ele, anos depois cruzando as águas em direção à costa. Era uma forma ficcional de exemplificar o fluxo colonizador dos fenícios, claramente demonstrado no nome daquele que ainda hoje é um dos continentes mais influentes do planeta. Em alusão à princesa também foi batizada uma das luas do planeta Júpiter (nome equivalente a Zeus na mitologia romana, pela óbvia ligação entre os dois personagens na ficção).

Saindo dos mitos para a vida real, Jesus Cristo retirava-se para a costa local, em Tiro e Sidom, onde pregava, mesmo quando sua intenção era somente descansar. O povo o descobria e Ele não perdia a chance de falar sobre Deus ou promover curas físicas e espirituais (conforme o mesmo episódio contado em Mateus 15. 21 e Marcos 7. 24, sobre uma mãe que clama a cura da filha possuída por demônios). Tiro também foi citada em outros livros da Bíblia, como Isaías, Jeremias, Ezequiel, Joel, Amós, Zacarias, Reis, Salmos, Lucas, Josué e II Samuel.

Até mesmo alguns dos mais importantes nomes da arte universal se inspiraram em Tiro e nos tirianos. A história mais famosa (após a da Bíblia) em alusão à cidade é, sem dúvida, a peça “Péricles, o Principe de Tiro”, de William Shakespeare, mas ela também está presente em prosa e verso nas linhas de Oscar Wilde, Rudyard Kipling, E. Nesbit e até mesmo do cantor Bob Dylan (na canção “Sad-Eyed Lady of the Lowlands”).

Tiro passou a ser província de Roma no ano 64 d.C. Hoje pertencente ao Líbano após muitos domínios distintos, tem cerca de 117 mil habitantes, a 80 quilômetros da capital libanesa, Beirute, e é a quarta maior cidade do país.

No final da década de 70 do século passado, Tiro foi muito danificada na Operação Litani, em que o exército israelense realizou uma grande ofensiva contra a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que usava a cidade como base, na chamada Guerra Civil do Líbano. Novamente, a área foi destruída no início da década seguinte, já na Guerra do Líbano, então uma base israelense. Em 2006, outra vez a área foi sacudida pelos combates entre Israel e a facção islâmica política e paramilitar Hezbollah.

Atualmente, a maioria dos habitantes de Tiro é muçulmana, com uma pequena (mas bem perceptível) porção cristã. Sua tradição pesqueira permanece, às margens do belo, imponente e sempre piscoso Mediterrâneo. Além disso, é um ponto turístico imperdível, mesclando o antigo e o moderno.

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