Maratona de Nova York incomoda cristãos do Harlem

Maratona de Nova York incomoda cristãos do Harlem

Atualizado: Segunda-feira, 8 Novembro de 2010 as 9:52

Há dança nas ruas por todos os lados. Música gospel, soul e salsa trombeteando de alto falantes e coretos. O público vai chegando perto e fica em pé nas calçadas e ruas laterais, enquanto milhares de corredores passam driblando uns e outros e acenando para todos. A multidão vibra.

Na altura do quilômetro 33, a Maratona de Nova York cruza o bairro do Harlem, onde os corredores chegam à parte final da corrida. É aqui onde muitos corredores "dão com a cara na parede" e desistem da prova, ou começam a se arrastar devagar em direção a linha de chegada no Central Park.

E nesse ponto, que divide o leste e o oeste do Harlem, na famosa Quinta Avenida, a rotina dos moradores é seriamente afetada, especialmente durante o horário em que se vai à Igreja. Ruas são bloqueadas, e pode-se levar cerca de uma hora e meia para cruzar a cidade. A rotina dos domingos é deixada de lado para dar chance até ao último corredor de atingir seu objetivo de completar o cansativo percurso de 42 quilômetros.

Por onde ela passa, no primeiro domingo de novembro, traz agitação, grandes expectativas e uma multidão de curiosos. Quem não gosta de assistir, ou pelo menos admirar um pouco o espetáculo do atletismo e toda a euforia que o esporte proporciona?

Mas a maratona, que aconteceu este domingo, por outras razões, também inspirou uma certa dose de ansiedade e planejamento estratégico.

Em nenhum outro ponto da prova isso acontece de forma mais aguçada como no quilômetro 33.

O comparecimento a muitas das igrejas é reduzido pela metade no dia da corrida, afirmam pastores e membros da congregação. Padres e corais precisam competir com o barulho dos helicópteros que sobrevoam a área, os gritos da multidão e a música alta. Os mais velhos e aqueles de saúde mais frágil sentem muita dificuldade em lidar com as multidões que se aglomeram nas calçadas, e até os próprios pastores precisam ir até a região do Upper East Side para chegar às igrejas que ficam do outro lado da cidade. Encontrar um lugar para estacionar, então, é missão completamente impossível. E com a congregação reduzida, as oferendas e os dízimos recolhidos são ínfimos, dizem os sacerdotes.

"O aborrecimento todo é porque esse evento sempre acontece no dia dos nossos cultos", comenta o reverendo Charles ACurtis, da Igreja Batista Mount Olivet, santuário gigantesco que fica a um quarteirão à oeste do percurso da corrida. Além da inconveniência que causa a data, existem diversos outros evento no restante do ano que são feitos aos domingos, diz ele. "Quando não é a maratona, é o evento de caminhada. Quando não é o evento de caminhada, é uma corrida de bicicleta", ele complementa. "E todas as vezes esse eventos são realizados no dia que é sagrado para nós."

Já há algum tempo, fazer pronunciamentos contra a realização da maratona tem se tornado "quase um tabu, uma coisa que ninguém comenta", disse Curtis. Mas a polêmica vem sendo levantada constantemente nas reuniões semanais de sacerdotes e pastores do Harlem. Os representares das igrejas têm pressionado o New York City Runners Club, organizador do evento. E já realizaram reuniões com os moradores, a polícia e a comunidade. Muitos estão aborrecidos com o assunto.

"Todo mundo é prejudicado – as pessoas se atrasam até duas horas," conta o bispo S.N. Snipes, pastor da igreja House of Prayer Acts of the Apostles . "Aprendemos a lidar com isso". Alguns sacerdotes sugerem que a maratona seja realizada aos sábados, a exemplo da maratona de Boston, que acontece num feriado às segundas-feiras. Mary Wittenberg, CEO do New York City Road Runners Club , disse que simpatiza com a causa, mas que as chances de isso acontecer são ínfimas. "É muito difícil", disse ela.

Wittenberg disse que os organizadores fizeram o máximo para conquistar os moradores da vizinhança, inclusive envolvendo-os na experiência do dia da corrida. No Harlem, fizeram uma parceria com a Câmara de Comércio Greater Harlem, e patrocinaram bandas para tocar ao longo do percurso e se uniu a programas de escolas locais para iniciar os mais jovens no incentivo ao esporte.

"Obviamente realizar este evento num domingo por cinco bairros vai gerar trocas com os benefícios que a maratona traz", explicou Wittenberg. "Mas nós realizamos a corrida pelas ruas com o apoio de muita gente que normalmente iria estar fazendo suas atividades rotineiras num domingo à tarde."

Nem todas as igrejas que estão ao longo ou próximas ao percurso desaprovam a corrida. Algumas até já ofereceram bebidas para hidratação dos corredores e seus corais alegram o caminho por onde passam com canções de incentivo. Mas Curtis disse que o mais lhe incomoda é a indiferença da cidade às preocupações dos sacerdotes.

"Nós não somos contra esportes ou atividades físicas", conta Curtis. "Mas sim contra a frieza por parte da cidade e dos organizadores. E isso nos machuca de muitas formas. Ficamos indignados com isso."

O reverendo Jerome Washington, pastor da Igreja Batista New Mount Calvary, foi surpreendido na Quinta Avenida poucos anos atrás. No momento em que tentava atravessar a barreira policial para chegar até sua igreja, foi impedido de passar e logo depois acabu preso.

"Para algumas pessoas é quase como ter que ir ao inferno e voltar", disse Washington, que já foi policial. "Pelo menos finjam que se importam com o nosso comprometimento às missas, pois domingo é um dia sagrado para nós, então não nos tratem como se fossemos um zero à esquerda. "

Um porta voz da polícia disse que seus homens tentam facilitar a travessia dos que precisam cruzar o percurso e que existem locais específicos onde os policiais encaminham as pessoas para a travessia.

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