Marisa Lobo: "Temos que tratar a droga como a vilã da história"

Marisa Lobo: "Temos que tratar a droga como a vilã da história"

Atualizado: Quinta-feira, 13 Fevereiro de 2014 as 8

Marisa Lobo: "Temos que tratar as drogas como o vilão da história"Recentes escândalos como o do pop-star Justin Bieber - preso por dirigir embriagado nos EUA, por agressão no Canadá e a descoberta de grande quantidade de drogas em sua casa - ou como os frequentemente comentados da atriz Lindsay Lohan - que passou por diversas internações em clínicas de recuperação - e a crescente criminalidade no país têm recolocado questões como o uso de drogas nas diversas classes sociais, prevenção entre jovens e outras mais. 
 
Em entrevista exclusiva ao Guiame, a psicóloga cristã, palestrante, coordenadora do projeto "Restituição Sem Internação" e da campanha contra a legalização da maconha, Marisa Lobo falou sobre a atual situação de usuários no Brasil, políticas públicas de prevenção e o poder do diálogo nos lares e nas escolas.
 
Confira abaixo a entrevista na íntegra:
 
Portal Guiame: Antes visto como um mal associado a classes baixas, o vício em drogas tem mudado o seu contexto. Novas substâncias têm surgido, ampliando assim o campo afetado por este problema. Como você poderia resumir este quadro atualmente? Já se reconhece este mal nas classes mais altas? O que tem mudado nos últimos anos, quando se analisa esta situação?
 
Marisa Lobo: Sim, com certeza, há muitos anos deixou de ser um problema das classes dos menos favorecidos e tornou-se problema de todos. Drogas afetam todas as classes sociais, sexo, até mesmo religião. A prova disse é o grande numero de internos em comunidades terapêuticas, do qual a maioria é desviado de igreja ou de famílias de evangélicos ou católicos. Esses ainda buscam internamento, mas outros se não tem condições financeiras para internar em clinicas que custam em médica 3 a 7 mil reais por mês, recorrem a vagas sociais nas comunidades ou nas vagas mais baratas - que é outra opção. A cultura de internamento é de classe média alta e / ou de religioso.
 
Guiame: Medidas públicas como a internação compulsória ou a "bolsa-crack" tem levantado polêmica em todo o país. Como você caracteriza a ação do governo no combate às drogas - seja no ataque ao narcotráfico ou no tratamento de dependentes químicos?
 
Marisa Lobo: Não sou contra nenhuma ação que favoreça a diminuição do uso e nem mesmo da "bolsa-crack" , mas acredito sem medo de errar  que essa ação é hipócrita. É uma tentativa - em minha opinião - desesperada de tirar os "craqueleiros" da cracolância antes da Copa [2014]. O que questiono são os reais objetivos disso, pois essa ação da "bolsa-crack" visa trabalho e moradia o que é apenas parte da recuperação, mas não é vinculada a um tratamento médico e psicológico, tão pouco à reinserção familiar ou apoio às famílias. Vejo como somente mais um golpe político ou uma ação desastrosa dos defensores de direitos humanos que não entendem de dignidade humana - se entendessem, saberiam que o viciado quer é sair das drogas e não morrer nela. Isso é dignidade? Não podemos generalizar , FAZER crer a sociedade que alguém usa drogas porque não tem oportunidade, ou moradia por exemplo, se assim fosse, milhões de pessoas estariam na cracolândia e não é o caso. 
 
O que questiono é a intenção, a legitimidade das ações e a efetividade de se dar emprego e moradia (ótimo) sem o principal fator, que é vincular ao tratamento médico e psiquiátrico. Isso é coisa de pais que cultuam a droga e a morte. O futuro disso? Será a manutenção dessa pessoa no mundo das drogas, e a cultura de que "em um pais de altas taxas de desemprego, é só usar drogas que o governo te sustenta e até de dá moradia".Tem ideia de quantas pessoas moram nas ruas e não usam drogas? Essas situações é que me preocupam essa inversão de valores, essa vitimização do sujeito e essa cultura de desumanização.
 
Guiame: Qual o melhor contexto para se iniciar a prevenção contra as drogas? Na família? Na escola? Na Igreja? Há idade "certa" para tratar deste assunto?
 
Marisa Lobo: Em primeiro lugar  oferecendo modelo familiar de "não uso" e muito diálogo. Em segundo, na escola deveria ser ensinado tudo sobre drogas, de forma continuada, fazendo parte do curriculum escolar, deixando claro para as crianças como as drogas são prejudiciais à saúde física e psíquica e como ela quebra vínculos afetivos, retarda o conhecimento, infantiliza emoções. É preciso tratar as drogas como "as vilãs da história", mesmo e não como se faz hoje, com essa história de "politicamente correto e redução de danos" ou ainda com essa deturpação da liberdade de expressão, incentivando o uso com mentiras do tipo "drogas são boas ou ruins: depende de quem usa"; "você pode usar mais se tem um limite seguro" ou ainda "você decide sobre o teu corpo, tem direito de morrer de overdose se quiser", etc. Temos que barrar este tipo de pensamento, pois é imaturo, irresponsável e típico de um adulto usuário relativista, que não acredita no poder de ressignificação do sujeito. É o que penso.
 
Em minha experiência  recomendo que a igreja  faça palestras, ações preventivas, fale com a juventude sobre o tema, exaustivamente e saiba que ela é parte fundamental no processo de prevenção e tratamento das drogas, pois crer em um poder superior capaz de devolver a sanidade é fundamental para a recuperação e a prevenção. Temos estudos que provam essa máxima. Eu creio e tenho comprovado na minha caminhada. 
 
Guiame:"Quais mudanças - sejam elas comportamentais, alimentares, relacionais - podem ser observadas pela família como "sinais de alerta" no jovem / adolescente?
 
Marisa Lobo: Quando percebemos os sinais, é porque o tempo de uso já é considerável. Ou seja muitas drogas demoram alguns meses ou até anos para mostrar suas complicações principalmente emocionais, então quando ele apresenta comportamentos desajustados por exemplo e mudanças de humor, pode já estar usando há meses. As mudanças são comportamentais, de estilo de vida. As drogas afetam o ser humanos em 4 dimensões: biológica, psicológica, social e espiritual. Tudo a sua volta se desestabiliza, principalmente a sua relação familiar. Mas podemos estar atentos aos primeiros sinais, que são as mudanças de amizades, comportamento, linguagem, higiene, humor, queda no rendimento escolar, faltas em seus compromissos [escola, faculdade, trabalho], enfim todos os sinais devem ser observados e monitorados. O principal de tudo é ser muito amigo de seus filhos e estabelecer um diálogo de confiança.
 
Por João Neto - www.guiame.com.br

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