Maternidade capaz de abraçar cinquenta filhos

Maternidade capaz de abraçar cinquenta filhos

Atualizado: Terça-feira, 12 Julho de 2011 as 10:35

A missionária e cantora evangélica Flordelis dos Santos é mãe de 50 filhos, apenas quatro deles biológicos. No rebanho, meninas abandonadas em terrenos baldios, meninos que obedeciam cegamente às ordens do tráfico, crianças que nasceram na favela, cresceram nas calçadas da vida e se tornaram frequentadores das cracolândias.

Vinte e seis deles hoje torcem para que a Vara da Infância e da Juventude reconheça que ela pode continuar responsável por eles até a maioridade. Graças ao trabalho que realiza no instituto que leva seu nome, em São Gonçalo, Flordelis é a sexta personalidade a receber de O DIA a medalha Orgulho do Rio, concedida a cidadãos que contribuem para um Rio melhor.

Flordelis se orgulha em dizer que dá o mesmo tratamento a todos os filhos, biológicos, adotados ou em processo de adoção. Ao lado do marido, o pastor Anderson do Carmo, e de 28 filhos, a missionária se emocionou ao receber o prêmio: “Quando estava sob ameaças do tráfico, de um grupo de extermínio e procurada pelo então Juizado de Menores, que tentava arrancar as crianças de mim, O DIA me defendeu”, lembrou.

A história já virou filme (‘Flordelis, basta uma palavra para mudar’) e livro (‘Flordelis, a incrível história da mulher que venceu a pobreza e o preconceito para ser mãe de cinquenta filhos’).

Menino salvo momentos antes da execução Um dos filhos de Flordelis foi salvo momentos antes da execução. Um rapaz de 13 anos que seria levado para o paredão, no Jacarezinho. Flordelis soube pela mãe biológica do jovem, que a procurara em busca de oração: “A mulher pedia que eu orasse por ela, pois o garoto já estava ‘encomendado’. Larguei tudo e saí pela favela, tentando encontrá-lo. A turma do ‘bonde’ (soldados do tráfico) concordou em me levar até o chefão deles. Argumentei. Disse que iria tomar conta do rapaz e fiz um acordo: se ele errasse novamente, pagaria com a minha vida. O chefão mandou desamarrarem o menino e me entregarem. E me chamou de louca”, recorda.

Vida em risco para negociar com o tráfico Apesar das inúmeras vezes em que sua mãe suplicou para que não se metesse com os traficantes, Flordelis usou a religião como escudo para negociar com os chefões a liberação de vários jovens. Chegou a desmanchar um casamento para abrir suas portas para quem não tinha outro teto senão o oferecido pelos bandidos. Flordelis viu, por duas vezes, seu nome entre os de outras pessoas marcadas para morrer. Jamais se intimidou. “Não me conformava com a omissão das mães. Quando viam os filhos ganharem armas para integrar a turma do ‘bonde’, se conformavam, certas de que não os teriam mais de volta. Não lutavam pelos seus filhos, para mudar aquilo”.

Ligação com a religião é antiga As ligações de Flordelis com a religião vêm desde menina, quando acompanhava o pai, Francisco dos Santos, que tocava num grupo evangélico. Ela era a cantora do conjunto. Desde a morte de Francisco, Flordelis passou a ser a grande preocupação de sua mãe, Carmosina. A filha não se conformava com as leis da favela do Jacarezinho, ditadas pelo tráfico. Perdeu muitos amigos em confronto com a polícia ou por determinação dos superiores na hierarquia da venda de drogas. Vários morreram em seus braços, arrependidos.  

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