Maurício Soares fala sobre sentir prazer em trabalhar

Maurício Soares fala sobre sentir prazer em trabalhar

Atualizado: Quarta-feira, 8 Agosto de 2012 as 4:15

Minha esposa tem um hábito muito peculiar. Sempre procuramos tirar um tempo para colocar os nossos assuntos em dia, afinal sendo esposo, pai de 2 meninos (o terceiro prestes a chegar!) e com tantas demandas, assunto é o que não falta. Mas muitas das vezes, o que falta mesmo é um tempo a sós para essas sessões de bate papo … e quando a agenda está pra lá de intensa e ela percebe que preciso ficar mais atento a algumas questões, com muita sutileza, com muita delicadeza, minha amável esposa vai separando uns textos para eu ler. Às vezes é um capítulo de um livro. Outras vezes um texto retirado de alguma revista ou jornal … em outras oportunidades um simples bilhetinho … o importante é que sempre fico muito atento a estas demonstrações de carinho e principalmente de que preciso dar uma reorganizada em minhas prioridades pessoais.

E nestes dias, arrumando minhas gavetas, encontrei um texto que como tantos outros foi deixado ali para que eu pudesse ler e refletir sobre algo importante para minha vida naquele momento. Não consegui ler o texto naquele momento, mas juntei-o a outros documentos e papéis que deveria dar mais atenção numa outra hora. Reuni tudo e coloquei o texto em minha mala para ler com mais calma depois no escritório. O texto ficou por alguns dias ali, esperando pela minha atenção até que hoje consegui reservar uns minutos para lê-lo. O impacto do texto foi tão forte que estou neste momento dedicando alguns minutos de meu dia para transcrevê-lo na íntegra para os leitores do blog.

O texto é uma pérola (mais uma) escrita por Stephen Kanitz, colunista da VEJA, pessoa pela qual nutro meus mais sinceros sentimentos de admiração e de quem sou leitor assíduo. O texto em questão foi publicado em 24 de novembro de 2004. Isso mesmo! Já foi escrito há mais de 7 anos e é impressionante como ainda se mantém absurdamente atual para os nossos dias. Vou reproduzir o texto e se achar importante fazer qualquer comentário adicional, tomarei essa liberdade.

FAZER O QUE SE GOSTA

A escolha de uma profissão é o primeiro calvário de todo adolescente. Muitos tios, pais e orientadores vocacionais acabam recomendando “fazer o que se gosta”  , um conselho confuso e equivocado.

Empresas pagam a profissionais para fazer o que a comunidade acha importante ser feito, não aquilo que os funcionários gostariam de fazer, que normalmente é jogar futebol, ler um livro ou tomar chope na praia.

Seria um mundo perfeito se as coisas que queremos fazer coincidissem exatamente com o que a sociedade acha que precisa ser feito. Mas, aí, quem tiraria o lixo, algo necessário, mas que ninguém quer fazer?

Muitos jovens sonham trabalhar no terceiro setor porque é o que gostariam de fazer. Toda semana recebo jovens que querem trabalhar em minha consultoria num projeto social. “Quero ajudar os outros, não quero participar desse capitalismo selvagem.” Nesses casos, peço que deixem comigo os sapatos e as meias e voltem para conversar em uma semana.

É um arrogância intelectual que se ensina nas universidades brasileiras e um insulto aos sapateiros e aos trabalhadores dizer que eles não ajudam os outros. A maioria das pessoas que ajudam os outros o faz de graça.

As coisas que realmente gosto de fazer, como jogar tênis, velejar e organizar o Prêmio Bem Eficiente, eu faço de graça. O “ócio criativo”, o sonho brasileiro de receber um salário para “fazer o que se gosta’, somente é alcançado por alguns professores felizardos de filosofia que podem ler o que gostam em tempo integral.

O que seria de nós se ninguém produzisse sapatos e meias, só porque alguns membros da sociedade só querem “fazer o que gostam”? Pediatras e obstetras atendem às 2 da manhã. Médicos e enfermeiras atendem aos sábados e domingos não porque gostam, mas porque isso tem de ser feito.

Empresas, hospitais, entidades beneficentes estão aí para fazer o que é preciso ser feito, aos sábados, domingos e feriados. Eu respeito muito mais os altruístas que fazem aquilo que tem de ser feito do que os egoístas que só querem “fazer o que gostam”.

Então teremos de trabalhar em algo que odiamos, condenados a uma vida profissional chata e opressiva? Existe um final feliz. A saída para esse dilema é aprender a gostar do que você faz. E isso é mais fácil do que se pensa. Basta fazer seu trabalho com esmero, bem feito. Curta o prazer da excelência, o prazer estético da qualidade e da perfeição.

Aliás, isso não é um conselho simplesmente profissional, é um conselho de vida. Se algo vale a pena ser feito na vida, vale a pena ser bem feito. Viva com esse objetivo. Você poderá não ficar rico, mas será feliz. Provavelmente, nada lhe faltará, porque se paga melhor àqueles que fazem o trabalho bem feito do que àqueles que fazem o mínimo necessário.

Se quiser procurar algo, descubra suas habilidades naturais, que permitirão que realize seu trabalho com distinção e o colocarão à frente dos demais. Muitos profissionais odeiam o que fazem porque não se prepararam adequadamente, não estudaram o suficiente, Não sabem fazer aquilo que gostam, e aí, odeiam o que fazem mal feito.

Sempre fui um perfeccionista. Fiz muitas coisas chatas na vida, mas sempre fiz questão de fazê-las bem feitas. Sou até criticado por isso, porque demoro demais, vivo brigando com quem é incompetente, reescrevo estes artigos umas quarenta vezes para o desespero de meus editores, sou superexigente comigo e com os outros.

Hoje, percebo que foi esse perfeccionismo que me permitiu sobreviver à chatice da vida, que me fez gostar das coisas chatas que tenho que fazer.

Se você não gosta do seu trabalho, tente fazê-lo bem feito. Seja o melhor em sua área, destaque-se pela precisão. Você será aplaudido, valorizado, procurado, e outras portas se abrirão. Começará a ser até criativo, inventando coisa nova, e isso é um raro prazer.

Faça seu trabalho mal feito e você odiará o que faz, odiando a sua empresa, seu patrão, seus colegas, seu país e a si mesmo.

Recentemente tive a oportunidade de conversar longamente com a cantora Shirley Carvalhaes – 35 anos de carreira, muitas viagens de Kombi, Fusca e outros meios de locomoção menos confortáveis pelo interior do país, muitos sucessos, muito trabalho, muitas alegrias e tantas decepções – e fiquei muito feliz de ouvir sobre sua visão da vida, do trabalho, dos relacionamentos … Shirley me disse que amava o que fazia! Me disse que depois de tudo o que já viveu, inclusive um sério problema de saúde recentemente, hoje via as coisas de uma forma diferente: “Não quero ter problema com ninguém! Quero viver! Amo a vida! Amo o que faço! Amo cantar! Hoje dou mais valor à minha família, aos amigos, às coisas de Deus … não tenho mais tempo a perder com coisas pequenas! Cada dia apenas louvo a Deus por tudo o que Ele fez e faz em minha vida!”

Ouvindo as palavras da Shirley e lendo esse texto do Kanitz fica muito claro para mim que devo me esforçar para fazer sempre o melhor, seja na minha vida profissional como também na minha vida pessoal. Preciso sentir prazer em trabalhar e servir às pessoas e mais ainda prazer em conviver com meus filhos, esposa, familiares e amigos. Isso é o que realmente importa e que faz toda a diferença!

por Maurício Soares

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