Ministro do Butão questiona: "Para que mais religiões?"

Ministro do Butão questiona: "Para que mais religiões?"

Atualizado: Quarta-feira, 28 Julho de 2010 as 8:46

O ministro do interior e da cultura, Lyonpo Minjur Dorji, diss à Compass Direct News que o governo não tem “nenhum problema” com o cristianismo ou com qualquer outra fé.

“Mas o Butão é um país pequeno, com pouco mais de 600 mil pessoas e a maioria delas é de budistas”, disse Lyonpo. “Temos hindus, principalmente na parte sul do país. Então, por que precisamos de mais religiões?”.

O budismo está intimamente ligado à vida política e social no Butão. O escritório de Lyonpo está assentado em um monastério gigantesco em Thimphu, conhecido como Tashichho Dzong. O budismo une e congrega as pessoas, disse Lyonpo, explicando que a vida social de um vilarejo gira em torno de seu dzong (monastério).

Ele disse que a sociedade multi-religiosa da Índia tem causado muitas tensões e derramamento de sangue.

“A Índia pode sobreviver a distúrbios e inquietações”, disse ele, “mas o Butão não, porque é um país pequeno entre dois gigantes [Índia e China]”.

Com líderes que tem se orgulhado por não terem permitido o país ser colonizado, historicamente, o Butão tem se preocupado extremamente com sua sobrevivência. O povo do Butão vê sua cultura distinta, e não os militares, como o meio que tem protegido a soberania do país. E não é por acaso que o ministério de Lyonpo inclui tanto a segurança interna quanto a preservação da cultura.

A constituição, adotada em julho de 2008, também requer que o Estado proteja a herança cultural do Butão e declara que o budismo é a herança espiritual do país.

Um funcionário do governo, que pediu anonimato, disse que assim como o Tibete foi para a China e o Sikkim se tornou um Estado da Índia, “agora quais dos dois países vai ficar com o Butão?”.

Esta preocupação é prevalente entre os butanenses, acrescentou.

Sikkim, atualmente um Estado no nordeste da Índia, era um reino budista com grupos de povos nativos de Bhotia e Lepcha como seus súditos. Mas os hindus do Nepal migraram para Sikkim para trabalhar e gradualmente excederam em quantidade os budistas locais. Em 1975, foi feito um referendo para se decidir se Sikkim, então protetorado da Índia, deveria se tornar um Estado oficial do país. Desde que 75 porcento das pessoas em Sikkim eram nepaleses, que sabiam que democracia significaria o governo da maioria, eles votaram por sua incorporação à Índia.

Butão e outros menores vizinhos da Índia viram isso como uma anexação descarada. E acredita-se que a “anexação” de Sikkim fez o Butão desconfiar da influência da Índia.

Em 1980, o rei do Butão iniciou a campanha  ‘uma nação – um povo’ para proteger sua soberania e integridade cultural, que era discriminatória para os nepaleses étnicos que, por sua vez, protestaram. Sua não concordância, entretanto, resultou em duras repressões pelas autoridades, levando à expulsão ou migração voluntária de mais de cem mil nepaleses étnicos, muitos deles cristãos, para o lado nepalês da fronteira, em Jhapa, no início dos anos 90.

“O Butão não quer se tornar outro Sikkim”, disse um morador local, explicando porque o governo não tolerou os protestos.

O Butão é rigoroso em implementar as leis relativas ao uso do idioma nacional, do código de vestimenta nacional e dos padrões de arquitetura uniforme por todo o país para fortalecer sua integridade cultural. Os homens butaneses têm de vestir o gho, uma túnica com o comprimento na altura do joelho, amarrada à cintura por um cinto de pano, para irem para o trabalho ou comparecer a alguma cerimônia pública. As mulheres têm de vestir a kira, um vestido com o comprimento no tornozelo, preso a um dos ombros e amarrado na cintura. A não observância disso pode levar a multa e detenção.

  Um futuro mais brilhante

Um pastor esperançoso disse que, em um futuro próximo, espera que o governo reconheça oficialmente a existência do cristianismo no Butão.

“A liberdade religiosa será boa para os cristãos e para o governo”, disse ele. “Se os cristãos não forem reconhecidos oficialmente, para quem o governo irá se quiser implementar uma decisão executiva relacionada às comunidades religiosas?”.

Explicando o motivo de sua esperança, ele relembrou um incidente na região de Punakha, em janeiro, quando uma casa em construção foi demolida após rumores de que estava sendo usada como igreja.

“O proprietário da casa, um cristão, foi à sua majestade [Rei Jigme Khesar Namgyel Wangchuck] e lhe disse que não estava construindo uma igreja, mas que cultuaria junto com outros cristãos aos domingos”, disse o pastor. “O rei permitiu-lhe construir a casa”.

Ele também disse que uma delegação de cristãos se encontrou com o Primeiro Ministro Lyonchen Jigmey Thinley em maio de 2009, que reassegurou-lhes que haveria mais liberdade em breve.

O cristianismo tem crescido gradualmente, mas de boca a boca por testemunhos daqueles que receberam cura de doenças, e não pela pregação pública, disse ele. E acrescentou que os cristãos precisam entender e ser pacientes com o governo, “que não pode ou não deveria fazer mudanças ou dar liberdade da noite para o dia”.

Tradução: Getúlio Cidade/ Portas Abertas

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