"Muitos não conhecem a história de suas igrejas", afirma pesquisadora

"Muitos não conhecem a história de suas igrejas", afirma pesquisadora

Atualizado: Sexta-feira, 26 Novembro de 2010 as 8:21

Marina Corrêa, que faz doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), vem recebendo auxílio do Centro de Estudos do Movimento Pentecostal (CEMP) para desenvolver a tese “A Lógica Administrativa das Igrejas Assembleias de Deus através de seus Ministérios”.

O objetivo, segundo a autora, é além de entender como funcionam esses ministérios dentro das Assembleias “apresentar também uma igreja atual que caminha com a modernidade”.

A pesquisadora, que frequenta a CPAD para pesquisar conteúdo para sua tese, desde antes da fundação do CEMP, em 2009, diz que com a criação de um “centro de pesquisas ficou ainda melhor. Posso dizer que se iniciou um novo ciclo na história das Igrejas das ADs; é a instituição abrindo as portas aos estudos acadêmicos com um compromisso: mostrar a sua “face” aos pesquisadores. Isto é muito bom!”, declara.

Leia abaixo a entrevista completa:

Qual é o tema da sua tese de Doutorado?

O tema da minha tese é sobre a lógica dos ministérios nas Assembleias de Deus. Quando iniciei o mestrado em 2003 me deparei com inúmeros ministérios, a primeira impressão era que existia uma sede administrativa para organizar todos eles, ou seja, pastores, abertura de novas igrejas, estatuto e assim por diante.

Como surgiu o interesse pelo tema?

O interesse surgiu quando iniciei as entrevistas na igreja pesquisada em São Paulo. O ministério da igreja Assembleia de Deus no bairro Bom Retiro e o pastor me disseram que existem vários ministérios independentes e que essa ideia de uma sede administrativa não é real. Logo, estava diante de um grande estudo, pois esse assunto é novo, nós pesquisadores ainda não tínhamos a noção de várias igrejas funcionando sob o mesmo nome, sem uma patente.

Quais os principais pontos discutidos na tese?

Os principais pontos giram em torno dos ministérios. Sabendo que as Igrejas Assembleias de Deus no Brasil, tradicionalmente conhecidas pelas características rígidas da primeira formação – no que se refere à interpretação da palavra, comportamento de seus membros, ascetismo e distanciamento do mundo, – conseguiram reproduzir em si mesmas, tornando-se independentes junto à sua base formadora; o objetivo primário é identificar o processo organizacional atual dessa denominação do ramo pentecostal, que mais cresce no país em números de adeptos.

Como delimitou seu objeto de estudo?

O estudo centrar-se-á na construção de um mapeamento básico nos aspectos histórico e empírico dos ministérios das Igrejas Assembleias de Deus. Tendo em vista a imensa diversidade de ministérios hoje existentes se torna inviável um levantamento completo de todas as igrejas o que exige, portanto, a opção por alguns recortes de trabalho por amostragem. A ideia é de “mapeamento básico”, para expressar as possibilidades e limites de um levantamento empírico com os instrumentos disponíveis (entrevistas, jornais, livros, diários, etc.).

Quais questões estão sendo abordadas em sua tese?

As igrejas evangélicas são as que mais crescem atualmente. Fica a indagação de "por que esse fenômeno acontece e o que faz surgir às novas igrejas com ministérios diferentes dentro da mesma denominação AD? Qual a insistência de preservar o nome Assembleia de Deus?". Não é possível imaginar que os paradigmas não tenham mudado... Algum movimento interno (das igrejas) ou externo (da sociedade) deve ter desencadeado esse fenômeno.

Nesse sentido, o objetivo do estudo se centra na construção de um mapeamento básico dos inúmeros ministérios encontrados dentro das Igrejas Assembleias de Deus no Brasil por meio de cisões analisando as seguintes questões como: a sua lógica interna de funcionamento; quais são os elementos que influenciam neste processo, descrevendo a importância do ponto de vista da organização, as principais vertentes e o significado dessa lógica assembleiana; mapear o maior número de ministérios das igrejas ADs passando pelos ministérios já existentes – Ministério da Missão, Madureira e Ministério independente -; discutir os motivos que levaram as cisões internas, a tensão entre o carisma, a instituição e o discurso dos pastores das ADs e, por último, tecer uma interpretação das variáveis sociológicas da mudança com os dados colhidos pela pesquisa empírica mediante a sociologia da religião (pesquisa teórica).

No estudo que vem desenvolvendo descobriu alguma curiosidade?

Uma curiosidade é que todos os membros contam a mesma história nas igrejas: ”fundada em 1911”. Sempre a mesma coisa. Na verdade, existem muitos membros que não conhecem a verdadeira história de suas igrejas.

Outra curiosidade é o medo de falar. As pessoas só falam se o pastor autorizar, interessante que isto se torna mais fascinante a pesquisa, sempre pensamos, tem mais assuntos a serem revelados.

Quais principais dificuldades em estudos desse tipo?

As dificuldades são inúmeras, por exemplo, falta de dados históricos mais detalhados, pois de maneira geral, todos contam a mesma história, a chegada dos suecos no Brasil e assim por diante. Existem muitas lacunas na história das Assembleias de Deus. Outra dificuldade são as entrevistas, quase ninguém quer falar sobre as várias formas de funcionamento das igrejas e/ou ministérios, sobre as cisões então, nem pensar. O pesquisador ainda é visto como um inimigo. Na verdade, os trabalhos acadêmicos têm por objetivo acompanhar as transformações sociais ocorridas dentro das instituições religiosas no decorrer dos tempos e não “falar mal” como já ouvi tantas vezes.

Como o CEMP tem contribuído com suas pesquisas?

Na verdade, comecei as visitas na CPAD antes de ser fundado o Centro de Pesquisas – CEMP – via pastor Isael de Araújo, chefe do CEMP (foto), que me recebeu muito bem, (a quem agradeço imensamente) esclareceu pontos importantíssimos sobre a história das ADs no Brasil. A chegada dos suecos fundadores, Gunnar Vingren e Daniel Berg ao Brasil, a primeira formação sueca, sobre o crescimento, e etc. Na verdade, o pastor Isael tem me orientado de muitas formas, ele afastou muitos mitos em torno das Assembleias de Deus. Depois com o funcionamento de um centro de pesquisas ficou ainda melhor, posso dizer que se iniciou um novo ciclo na história das Igrejas das ADs, é a instituição abrindo as portas aos estudos acadêmicos com um compromisso, ou seja, mostrar a sua “face” aos pesquisadores. Isto é muito bom.

Qual contribuição este estudo pode trazer para a denominação AD?

A contribuição seria contar a história real das ADs porque existem muitas histórias fantasiosas e também apresentar uma igreja atual que caminha com a modernidade. Até mesmo para a própria comunidade evangélica apontando os ministérios; que não existe uma sede administrativa comandando todas as igrejas; as cisões; as igrejas e/ou ministérios que nasceram independentes; as convenções estaduais e nacionais, como funcionam; a formação de pastores etc.

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