"Não fumo. Deus é mais", diz idosa que vendia crack

"Não fumo. Deus é mais", diz idosa que vendia crack

Atualizado: Sexta-feira, 19 Março de 2010 as 12

No title A pele enrugada e o jeito franzino de quem completou 77 anos escondem a real ocupação de Laudelina Maciel de Jesus. Com a desculpa de que precisa sustentar quatro filhos, 20 netos e reformar a casa onde vive, dona Zinha, como é conhecida, atuava como traficante em Saramandaia, Pernambués, até a noite de quarta-feira,quando foi presa com 100 pedras de crack no bolso por policiais da 9ª Delegacia, na Boca do Rio, e encaminhada para 6ª Delegacia, Brotas. "Eu disse na festa do meu aniversário, terça-feira: muita alegria é sinal de que vem tristeza por aí. Não deu outra. Comemorei 77 anos na terça- feira e fui presa na quarta. Não deu", admite dona Zinha.

Ela conta que, na festa, ganhou mensagem em alto-falante de carro, churrasco e cerveja para toda a comunidade. Presa na frente de parte dos netos, ela levou a polícia até a casa onde vive com a família, no beco chamado Vila Horto. Na casa, a polícia encontrou mais 33 pedras de crack. Outros integrantes da família também foram parar atrás das grades: a filha dela, Lucigleide Maciel de Jesus, 29 anos, o sobrinho André dos Santos Maciel, 31, o também sobrinho Adailton Oliveira Santos, 28, que já responde por tráfico de drogas, e o namorado de uma das netas, Douglas Silva dos Santos, 19. Eles foram indiciados por uso de substância ilícita e encaminhados para a 11ª Delegacia (Tancredo Neves).

Apreensões

Da casa, os policiais levaram três aparelhos de telefonia celular, R$ 143,50 em espécie, dois radiotransmissores, uma pistola de brinquedo, duas facas de cozinha que serão encaminhadas para exame, uma corrente de metal e um fone. Na delegacia, Laudelina contou que decidiu entrar para o tráfico há três meses, quando, após uma forte chuva, a casa onde mora começou a cair. O imóvel, de apenas um cômodo dividido em dois por um armário, não suporta a quantidade de moradores. "Dormimos um por cima do outro. Até o varal é dentro de casa. E, se chegar mais gente, eu arrumo espaço. Não posso é deixar ninguém na rua. São a minha família. Por isso, resolvi vender esse negócio", justifica dona Zinha, que declarou estar arrependida, mas nem tanto, por ter pedido sua vaga no mundo do crime. "Eu acho que não vale a pena porque não trabalho para mim. Se os 20 gramas de pedra inteira chegassem para eu cortar, embalar e dar preço, seria mais vantajoso. Ganharia mais", explica a idosa, que ganha entre R$20 e R$40 por cada carga de 60 pedras vendidas.

"Não fumo nada disso, Deus é mais. E a droga também não é minha. É para a venda". Ainda assim, ela entende a dinâmica do vício. "Eu vendo por cinco cada pedra. Mas sempre tem aquele que chega na fissura, que quer muito. Aí, a gente negocia e ele leva até por um real".

Tráfico

Dona Zinha se recusou a dizer na delegacia o nome do chefe do tráfico de Saramandaia, mas informou aos policiais que ele só circula pela comunidade, principalmente nos fins de semana. "Se eu souber o nome dele, morro. E tenho medo. Sou idosa, não burra", disse.

Ela já foi presa outras duas vezes. A primeira há 18 anos. "Fui presa por porte de maconha. Uma amiga me deu um pacote num hospital e pediu para eu segurar. Coloquei no bolso. Quando cheguei em casa, fui abordada e fui presa." Já na segunda prisão, ela foi abordada quando chegava em casa. No bolso, os policiais encontraram uma sacola com pedras de crack. "É sempre assim. Eles me pegam em casa e encontram as coisas no meu bolso. Eu boto na parte de trás da bermuda e esqueço. Aí, sou presa. Mas a culpa toda é minha. Minha família nada tem a ver com isso. Se tenho que ficar presa, vou ficar", diz

O único desejo, na prisão, é ter roupas limpas e ser bem cuidada, o que ela garante estar acontecendo. "Já chorei muito na minha vida. Não tenho mais por que chorar. Só quero agora resolver esse problema, trocar de roupa, ter comida e água e minha família por perto. Deus é quem sabe o meu destino. Só ele conhece o que ele escreveu para ser a minha história", avalia.

Dona Zinha diz que, se for solta, vai voltar a morar na mesma casa. "Não tenho para onde ir. Vou voltar com medo, mas só tenho aquele destino. Assim será", determina.

Idosa lidera tráfico na Saramandaia

Chegar a Saramandaia e procurar pela casa de dona Zinha é até fácil. Apesar do ar de violência e crueldade estampado nas paredes dos becos e ruas da comunidade, dona Zinha é, por lá, uma celebridade. Do crime. De acordo com moradores e com a polícia, ela lidera a venda de drogas (crack) na área do beco onde ela mora.

Vizinhos dizem não lembrar quando um carro de reportagem foi até o local. "Nossa, o que aconteceu para vocês estarem aqui. Quem morreu de importante?", questionou um vizinho. No beco onde mora dona Zinha, um intenso corre-corre de pessoas assustadas e acreditando que era mais uma vez a polícia para prender mais integrantes da família. Outros, mais esperançosos, acreditavam ser uma equipe do Caldeirão do Huck, para reformar a casa e proporcionar um lar doce lar. A casa, na verdade um barraco, possui um intenso mau cheiro. Entrar lá é difícil. É necessário desviar de pombos, filhotes de cachorros e gatos. No único espaço dividido para ser sala e quarto, o varal demonstra a falta de espaço: as roupas secam dentro da própria casa.

"Minha avó só queria ajudar a gente. Ainda bem que eu vou crescer. Assim, poderei trabalhar, ganhar dinheiro e, se Deus quiser, tirar todo mundo daqui", conta Pacote, como é conhecido um dos tímidos netos de dona Zinha, ainda choroso com a prisão da avó. "Quero visitar e levar roupas limpas para ela. Logo ela estará de volta", torce o garoto.

Por Bruno Menezes

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