"Não há ficção melhor que as parábolas de Cristo" diz Jilton Moraes

"Não há ficção melhor que as parábolas de Cristo" diz Jilton Moraes

Atualizado: Sexta-feira, 13 Maio de 2011 as 10:34

O maior drama da vida de Antônio Santos Lira se deu quando ele tinha apenas quatro anos e foi obrigado a enfrentar a precoce morte da mãe. Apesar de não entender nada do que estava acontecendo, a visão do corpo de dona Maria baixando à sepultura fez o coraçãozinho do garoto ficar apertado. Desde então, essas lembranças sempre o marcaram. Mesmo adulto, casado e com filhos, ainda sofria pela perda. E o calvário pessoal continuou – tempos depois, Lira experimentou a dor da morte de um filho e de uma irmã. Parece coisa de Jó, não é mesmo? Contudo, a história de Antônio Lira é inteiramente ficcional e a base do livro A riqueza maior – Um convite à esperança, que fez sucesso nos anos 1980 e agora é relançado pela Editora Vida.

A ficção não é gênero vendável entre os evangélicos brasileiros. Mas, se no exterior ele chega às listas dos best-sellers – que o diga a série Deixados para trás, com mais de 70 milhões de exemplares distribuídos em mais de trintas idiomas –, por aqui raras exceções mantêm o estilo, ao menos, respirando.  Nessa linha, a saga de Antônio Santos Lira mostra que um romance bem escrito, simples e verossímil sempre tem seu lugar. Ambientada em Alagoas na primeira metade do século passado, a obra mostra a trajetória do protagonista e como ele como descobriu no Evangelho de Cristo uma razão para viver. Mesmo tratando de dramas sociais, como a luta contra a pobreza e o drama do êxodo rural, o livro não é meramente um romance regionalista, muito menos relato de época. A narrativa é empolgante e cheia de reviravoltas. Ou seja, apesar da visão positiva diante das adversidades, A riqueza maior não resvala no triunfalismo da fé.

Méritos para o pastor, professor e escritor Jilton Moraes de Castro, que teve todo o cuidado de revisar, atualizar e ampliar sua obra. Apesar do texto ser ficcional, o autor o temperou com experiências e lembranças de sua própria infância e juventude – aqueles fatos que ocorrem diariamente na vida de muita gente, produz forte identificação e coloca um pé na realidade de tantos. Afinal, a literatura representa a vida. E, por extensão, ao servir de catarse, a ficção molda aquilo que pensamos. Quem sabe também inspire autores e editores brasileiros a investir mais nesse gênero a partir de agora.

Entrevista com Jilton Moraes de Castro

Conexão com a vida

Alagoano de Maceió, o pastor, professor e escritor Jilton Moraes de Castro conciliou, ao longo dos últimos 40 anos, a carreira pastoral em igrejas do Recife, Fortaleza, Belém e Teresina com as aulas de teologia. Porém, sua grande paixão é mesmo a literatura. Admirador do falecido poeta evangélico Gióia Junior, Castro escreveu poesias, contos, obras didáticas sobre homilética e ficção. A CRISTIANISMO HOJE, ele falou sobre seu trabalho e explicou porque ainda é uma exceção no Brasil.

CRISTIANISMO HOJE – Por que o senhor escolheu a morte para conduzir uma narrativa que fala sobre a vida?

Jilton Moraes de Castro – Na literatura, a morte é um tema universal. E, para o imaginário cristão, é ainda mais importante. Precisamos encarar nossa finitude como algo natural ao ser humano. Mas o sentimento de perda, quando trabalhado corretamente, também permite reconstruir um novo caminho. Se para uns a morte leva a terrível sofrimento, para outros pode ser a porta de entrada para uma nova vida com Cristo – a única que é verdadeira e eterna.

Quais são as novidades da nova edição de A riqueza maior?

O livro foi publicado em 1986 e a primeira edição se esgotou. Uma segunda foi lançada, e, desde então, venho alimentando o desejo de relançar o livro, atualizando algumas coisas e complementando outras. Porém, só comecei a trabalhar numa releitura da obra há quatro anos. O texto foi totalmente revisado, atualizado e ampliado.

Podemos dizer que é uma obra biográfica?

Usei muitas experiências pessoais para compor o texto. A pitada de realidade faz com que as pessoas se identifiquem. Meu pai, antes de morrer, disse que o livro contava a história dele. Mas A riqueza maior é uma ficção. Busco na realidade apenas o suporte para trabalhar, modelar e recriar a vida. Quem nos ensina a trabalhar assim é a própria Bíblia: não há ficção melhor que as parábolas de Cristo.

Se é assim, por que a ficção é um gênero tão restrito na literatura evangélica brasileira?

Precisamos investir mais no surgimento e capacitação de novos autores. O retorno pode não vir a curto prazo, mas virá no futuro. A produção de bons livros de ficção cristã abençoará as igrejas, seus membros e o publico em geral.

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