Novos convertidos enfretam conflitos de fé em casa

Novos convertidos enfretam conflitos de fé em casa

Atualizado: Sábado, 28 Novembro de 2009 as 12

Já era quase meia-noite e Fernanda Tozzi, na época com 20 anos, aguardava o marido, tentando se proteger da chuva debaixo de uma árvore, com a filha de poucos meses no colo. A igreja já estava fechada e todos haviam ido embora. Fernanda não tinha aceitado carona por medo de gerar problemas. Sabia que o marido ficaria furioso se ela não o esperasse. O culto havia terminado às 22 horas. Mas Sérgio só apareceria duas horas depois.

Hoje, dez anos depois, Sérgio ainda se surpreende ao lembrar das atitudes que tomava para evitar que Fernanda fosse à igreja. "Eu a deixava no culto e ia para a avenida, o ponto de encontro dos jovens na época", confessa. "Era uma forma de vingança, já que eu odiava o fato de ela ser evangélica".

Sérgio não proibiu Fernanda de freqüentar os cultos, mas tentou dificultar ao máximo a caminhada da esposa na vida cristã. Ele fazia Fernanda ir a pé até a igreja e dizia que ia buscá-la, mas não aparecia. Em casa, ainda ficava zombando e tentando provocar brigas, alegando que ela estava sendo vítima de uma lavagem cerebral.

A situação só começou a mudar cerca de sete anos depois, quando Sérgio passou a sentir curiosidade de ler a Bíblia. "Às vezes, eu deixava a Fernanda me mostrar alguma passagem bíblica e aí comecei a ler alguns capítulos. Depois decidi ir buscá-la cedo, para ouvir o final da pregação. Até que um dia entrei e não saí mais", conta o marido. Foram sete anos de luta espiritual, mas Fernanda sempre teve fé que Sérgio iria se converter. Hoje ela pode dizer: "Eu e minha casa servimos ao Senhor".

Dez anos à espera da Reconciliação

Marco Antônio Barbosa, técnico em análise de crédito, se emociona ao lembrar de como sua esposa, seguidora do espiritismo, reagiu quando ele se converteu ao Senhor, há dez anos. "Eu aceitei a Jesus e, alguns meses depois, decidi me batizar. Foi quando a luta começou. Minha esposa era totalmente contra a minha decisão de seguir a fé cristã. Por várias vezes, ela disse que eu teria de escolher entre ela e a igreja".

Apesar das ameaças, Barbosa decidiu se batizar. "Eu era muito imaturo, um bebê espiritual. Havia muitas coisas que eu não entendia ainda, e que só hoje entendo. Mas, na época, simplesmente confiei em Deus e fiz o que achava certo". Diante da decisão dele, a esposa cumpriu a ameaça e deixou o lar.

A despeito disso, ele nunca perdeu a fé e acredita que ela vai voltar. "Quando minha mulher foi embora, Deus colocou em meu coração que seria uma separação temporária, e eu creio nisso. Nunca mais tive outra mulher e sei que ela também não teve outro homem. Também não nos separamos legalmente. Foi apenas uma separação de corpos".

Hoje, aos 42 anos, Barbosa acredita que falta muito pouco para a reconciliação. "Nosso único filho, que hoje tem 17 anos, canta e toca na igreja. Por meio dele, minha mulher está conhecendo cada vez mais a Jesus. Hoje ela não freqüenta mais o espiritismo. Posso ver o quanto está mudando, sendo transformada. Creio que a salvação dela está muito próxima, e também a restauração do nosso casamento".

Situação semelhante viveu Agostinho Lopes Serrano, 58, pastor da Igreja Bíblica Restauração. Ele foi o primeiro membro da família a se tornar cristão, sob forte oposição da esposa. "Ela chorava muito, achava que era loucura da minha parte, e isso me cortava o coração", conta o pastor. Agostinho decidiu não confrontar a esposa e adotou uma estratégia: deixava Rosana na casa dos pais dela para ir à igreja. Assim ela não ficava tão sozinha e nem tão brava. "Aos poucos, ela começou a ver minha mudança e começou a ir também". Agostinho lembra que a resistência da esposa começou a ser quebrada quando ele passou a utilizar uma grande arma espiritual: o jejum. "Jejuava várias vezes por semana, sempre orando pela conversão dela". Hoje Rosana está ao lado do marido, ativa na igreja.

As histórias dessas duas famílias são semelhantes em vários pontos. Nos dois casos, o cônjuge decidiu não partir para a briga, mas preferiu orar e jejuar pela conversão do companheiro. Apesar dos anos de luta e sofrimento, os dois casais tiveram um final feliz.

O pastor Roberto Matos, que dirige a Igreja Apostólica Fonte da Vida, em Amparo (SP), e é professor do Instituto de Formação Cristã, aconselha evitar brigas. "É preciso sair do conflito. O novo convertido não pode tentar impor sua fé à força". Com certeza, críticas severas aos familiares podem levantar barreiras difíceis de serem derrubadas depois. Matos explica: "Quando aceitamos a Jesus, passamos a exercer o ministério da reconciliação. E esse não é um ministério de brigas. É o amor pelos nossos parentes que vai impactá-los e atrair cada um deles para Cristo".

Agostinho Serrano se tornou cristão sob forte oposição da esposa, mas não a confrontava. Hoje é pastor, tendo Rosana ao seu lado na igreja O professor defende que os princípios de autoridade familiar não devem ser quebrados em nome da fé. Para ele, quando o marido proíbe a esposa de ir à igreja, ela deve obedecer. E os filhos também devem obedecer aos pais quando forem proibidos, pois não se pode quebrar princípios de autoridade estabelecidos por Deus. Mas ele deixa claro que o fato de não congregar na igreja por algum tempo não deve fazer com que o cristão desista da fé. "Ninguém pode impedir nosso relacionamento com Deus. Jesus disse que onde há dois ou três reunidos em seu nome, Ele está também", declara o pastor. Nesse período, ele aconselha a pessoa a orar muito e pedir estratégias ao Espírito Santo para mudar a situação.

O conselho tem sido seguido por Eliane. A professora de 26 anos pediu para não ter o nome completo divulgado, com medo de que a reportagem chegasse às mãos de seus pais, complicando ainda mais sua situação. Evangélica há três anos, ela conta que as agressões verbais dentro de casa já se tornaram uma rotina. "Meu pai me chama de 'crentinha' e diz que vou dar dinheiro para o pastor. Isso é o que mais dói".

Eliane vai aos cultos quando os pais deixam ou quando não perguntam onde ela está indo. "Certa vez, meu pai disse que se eu saísse de casa para ir ao culto, iria encontrar toda a minha roupa jogada na rua". Para ler a Bíblia, a professora usa uma pequena lanterna. "Quando meu pai percebe que estou com a luz do quarto acesa, vem logo brigar comigo. Por isso, uso a lanterna". Revoltado com a conversão da filha, o pai de Eliane chegou a invadir uma igreja evangélica perto da casa onde moram.

Diante do relato de pessoas que venceram lutas semelhantes, Eliane reafirma sua fé: "Eu sei que há uma promessa de Deus em minha vida e toda a minha família vai se converter ao Senhor. Enquanto isso, peço que todos os irmãos orem por nós, para que eu tenha forças e para que meus pais sejam libertos".

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