O Cura D'almas

O Cura D'almas

Atualizado: Segunda-feira, 20 Dezembro de 2010 as 5:05

G osto da designação que se dava aos sacerdotes de antanho. É bastante apropriado chamar padres e pastores de curas d’alma. Ainda que tenha caído em desuso, me atrai e fascina. O sacerdote cristão, consciente do seu chamado e vocação, trabalha basicamente para esse fim, e vê nesse expediente a razão fundamental do exercício do seu ministério.

N um tempo em que a medicina, destituída de sua usual onipotência, admite que grande parte dos males que afligem o h0mem tem origem em uma psique adooentada, e que por essa razão não há recurso alopático, homeopático ou de qualquer ordem medicamentosa que resolva, médicos da alma surgem no cardápio de alternativas como os únicos que podem dar resposta adequada a um número cada vez maior de males.

C omo médico de almas,  o sacerdote religioso, não importando sua confissão, deve estar disposto a lidar com pessoas num nível de proximidade que inevitavelmente vai colocá-lo em contato direto com o lado sombrio e até mesmo asqueroso da vida. Quem tem nojo de sangue, vômito e pus que não se meta com esse ofício!

N o caso mais específico do ambiente cristão,  é comum ouvir aqui e ali, de pastores que não gostam de envolver-se com o povo, misturar-se com o rebanho… Duvide do pastor que não tem cheiro de ovelha! Se não tem cheiro de ovelha não é pastor. É simples assim! Muitos gostam de ostentar títulos e granjear a honra e benefícios que o título confere, mas na hora de tratar a ovelha, desconversam e mandam para outro, quando o fazem.

E sse tipo de “pastor” é responsável pela mercantilização da religião cristã e promoção da simonia, ou seja, o comércio de artigos sagrados, a venda de bênçãos, favores divinos e demais práticas que transformam a crendice e boa fé dos desesperados em ouro, numa espécie de alquimia mágica e bem calculada.

O bservando tão de perto estes médicos de almas que não tem vocação para cuidar de vidas, e vendo-os tão abundantes exclamamos perplexos: “Que absurdo!” Temos a mania de achar que os nossos tempos são escandalosos e que pelo jeito que as coisas vão o mundo está mesmo chegando ao fim. O grande orador, filósofo e escritor romano Cícero (106-43 a.C) nos seus dias, abismado com os fatos e perplexo diante dos desvarios de sua geração exclamou: o tempora, o mores! “Ó tempos, ó modos!”

D epois da queda da raça humana no Éden, nunca mais houve uma única geração que não produzisse escândalos que causasse pasmo. Já no capítulo 4 de gênesis, temos registrado o primeiro homicídio (e também fratricídio) da história; logo a seguir, no capítulo 6 desse mesmo livro, encontramos a narrativa bíblica expressando o desgosto do Criador em face à corrupção de suas criaturas. Diz o texto:

“E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Então arrependeu-se o SENHOR de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração. E disse o SENHOR: Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito. ”

O poeta baiano Gregório de Matos (1633-1696), conhecido pelo alcunha de“Boca do inferno”, em razão de sua irreverência desbocada, o que lhe custou perseguição e exílio nos seus dias no longínquo século XVII já denunciava as práticas da sacerdotada cujo Deus é o próprio estômago.

(....) Em um tempo é tão velhaco,

tão dissimulado, e tanto,

que só por parecer santo

canoniza em santo um caco:

se conforme o adágio fraco

ninguém pode dar, senão

aquilo, que tem na mão,

claro está que no seu tanto

não faria um ladrão santo,

senão um Santo Ladrão.

Estou em crer, que hoje em dia

já os cânones sagrados

não reputam por pecados

pecados de simonia:

os que vêem tanta ousadia,

com que comprados estão

os curados mão por mão,

devem crer, como já creram,

que ou os cânones morreram,

ou então a Santa unção.

óbvio que Gregório de Matos não teria feito o barulho que fez se o clero não o tivesse munido com um rosário imenso de razões, além de pincel e tinta abundante para pintar suas famosas caricaturas literárias. Como Gregório, vemos no mesmo século outro feroz escritor se levantar contra os desmandos do sacerdócio desviado que  já naqueles dias se caracteriza por tudo aquilo que hoje nos causa espanto. O Padre Antonio Viera (1608-1697), conhecido como padre protestante não poupou os sacerdotes de seu tempo que não tinham cheiro de ovelha e nem disposição para andar com o rebanho. Diz o velho e saudoso Vieira:

“Vós, diz Cristo, senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra; e chama-lhe sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrução, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que tem o ofício de sal, qual será, ou qual não pode ser a causa dessa corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque os pregadores não pregam a verdadeira doutrina (...)  ou porque os pregadores dizem uma coisa e fazem outra (...) ou é porque o sal não salga, e os pregadores pregam a si e não a Cristo... ”

N este sermão pregado em S. Luiz do Maranhão, em 1654, em uma crítica severa aos pregadores do seu tempo, o padre se mostra tão atual que parece estar se dirigindo aos não poucos profissionais do púlpito desses nossos dias conturbados. “Ó tempos! Ó modos!”

Luiz C. Leite é pastor, psicanalista, administrador de empresas, conferencista e escritor. Autor de "O poder do foco", editora Memorial; e "A inteligência do Evangelho", editora Naós; além de vários títulos por publicar.

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Confira o blog do escritor:   http://luizvcc.wordpress.com/

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