O dia em que o mestre ensinou sobre uvas colhidas

O dia em que o mestre ensinou sobre uvas colhidas

Atualizado: Quinta-feira, 3 Outubro de 2013 as 9:48

videira - uvasO mestre e seus discípulos caminhavam por plantações quando sinalizou que parassem, ao lado de uma videira frondosa que sombreava uma passarela. Roçou levemente a barba cheia, demonstrando que se preparava para mais um de seus ensinamentos. Todos se viraram em sua direção, o silêncio venceu a conversa amigável da estrada, alguns permaneceram em pé, trocando apoio de ombros entre si a fim de se sustentarem num descanso; enquanto outros apoiavam-se sobre seus calcanhares ao chão. Atentos, todos.
 
- Vamos colher uvas. Diante de vocês está a plantação, lembrem-se de que passarão algumas horas entre elas e gostaria de lhes propor um exercício. Façam o que tiverem de fazer pensando que em breve estarão longe daqui.
 
Entreolharam-se com afeição de dúvida, tomaram o rumo da plantação e iniciaram seus debates:
 
- Acho que ele quer que peguemos o máximo de uvas que pudermos para não faltar depois, precisamos de algumas cestas a fim de colher o suficiente para todos nós, por vários dias. Isso seria sábio.
 
Alguns tomaram esse rumo e assim fizeram.
 
Mas logo alguém mais reflexivo disse:
 
- Não! Dever ter algo a mais nisso tudo. O mestre deve querer nos ensinar algo diferente. Será que ele não quer que colhamos apenas as melhores uvas de abandonemos as piores pelo chão, seria mais prudente aproveitarmos nosso espaço e nossa capacidade de recolhimento com as melhores da produção.
 
Foi o que outros resolveram fazer.
 
Até que alguém teve outra ideia: 
 
- Ah! Mas pode ser que o mestre queira que apenas olhemos as uvas, que não as experimentemos, pois assim não sentiríamos falta delas depois; seria um exercício de autocontrole. 
 
Pareceu bom e alguns decidiram jejuar enquanto caminhavam pela videira.
 
Até que alguém apontou na direção do mestre, que havia caminhado à frente de todos pelos atalhos da plantação. Ele caminhava com calma, passava as mãos por cachos, recolhia aroma com as mãos, fechava os olhos, sentia a textura de uma uva, extraia e comia. Um a um, todos passaram a observa-lo, de longe, e reparavam o mesmo ritual. 
 
Curiosos, esperaram o mestre voltar. Haviam desistido do que estavam fazendo por lhes parecer descabido. Quando o mestre se aproximou, perguntou-lhes o que haviam feito. Alguém resolveu atualiza-lo.
 
- Primeiramente achamos que seria bom recolher o máximo de uvas, sem restrição, a fim de termos o suficiente para um bom tempo de viagem. Depois, alguns pensaram que o senhor privilegiaria as melhores uvas e que deveríamos desprezar as piores. Por fim, outros acharam que o exercício requeria algo mais profundo, decidimos não colher uvas, sequer experimenta-las, fazer um jejum, para treinar nossa capacidade de controle. Mas ao observarmos o senhor, vimos que nada disso estava fazendo.
 
- E o que eu estava fazendo?
 
- O Senhor estava contemplando, cheirando, tocando e experimentando as uvas.
 
- E vocês entendem o que isso quer dizer?
 
- Não, exatamente. Se o senhor pode colher uvas para levar consigo, porque passar todo esse tempo apenas desfrutando de algumas poucas?
 
O mestre então sorriu docemente e passou a lhes explicar:
 
- Essa videira é como a vida. Tudo o que devemos fazer é desfrutar, não há nada para colher. Tentar colher muito para que não haja falta, apenas enfatiza o próprio medo de que algo irá nos faltar amanhã; e que dependemos completamente de nossa capacidade de provisão. Gera também o medo de sermos roubados pela estrada. Colher somente as melhores cria em nós a fantasia de que a aparência externa do fruto é o que o faz melhor que os demais, nos tornamos escravos da aparência e passamos a realizar competições para ver quem tem as mais belas uvas, como se beleza fosse correspondente fiel de essência. Jejuar numa videira seria a pior maneira de viver, o que é feito para ser comido, deve ser comido.
 
E prosseguiu:
 
- Na vida é assim também. Tudo aquilo que apenas desfrutamos sem apego, não se torna alvo de excessivas preocupações, porque não pode ser roubado; não precisamos consumir com voracidade de quem teme que vai acabar e isso nos liberta do medo da morte e da finitude, do medo do envelhecimento.
 
- E tudo o que é colhido para uma longa viagem tende a estragar, poluindo com mal cheiro, atraindo insetos, tornando desagradável a caminhada. Assim como o que colhemos do passado. 
 
O passado é como a visita a uma plantação, devemos desfrutar, comer, cheirar, contemplar, brincar; conscientes de que há frutos bons e ruins; sem a preocupação de colhermos qualquer um, a fim de que fiquem ali mesmo, que é seu lugar, pois servem de alimento somente naquela hora, depois devem seguir seu curso natural de morte, apodrecimento, adubo.
 
Tudo o que vemos agora devemos desfrutar com alegria e simplicidade, depois devemos deixar onde está, sem a fobia de colher por medo de não ter novamente, porque passado que é colhido fica atormentando a mente e apodrece a vida toda.
 
- Venham, deixem seus passados aqui na vinha, vamos caminhando porque logo veremos uma plantação de amoras. Ah! Como gosto das amoras!
 
 
- Alexandre Robles
 

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