O drama de uma garrafa Pet

O drama de uma garrafa Pet

Atualizado: Quarta-feira, 26 Janeiro de 2011 as 10:42

Quando a encomenda de lixo reciclável chegou do projeto da comunidade, o povo não botava muita fé naquela ideia de “arte do lixo”. Era a festa de encerramento da escola dos meus filhos e junto com as professoras, abracei o projeto do cenário todo feito com material do lixão.

No chão do palco, cola, fita crepe, tintas, pincéis e uma quantidade imensa de coisas que a cidade joga fora. O responsável pela iluminação chegou por volta das 8 da manhã. Desconfiado, olhou ao redor, coçou a cabeça, bebeu um gole d’água e começou a montar os refletores.

O céu nublado ajudou bastante e ninguém queria parar. A festa já tinha começado pra nós.

Aos poucos o espaço foi tomando forma, uma colina ali, uma nuvem aqui, uma flor mais adiante…

e uma árvore. Enorme. De marchè com a copa inteirinha feita de garrafas pet – a grande atração da cenografia – resultando numa floresta conceitual de papelão e outras coisinhas que ninguém queria mais.

Emendas, colagens, pinturas, retoques que ninguém podia ver compunham a paisagem que ninguém deixaria de perceber e, ao final da tarde, as luzes cênicas ascenderam um palco inspirador para aplaudir as crianças em suas lindas performances.

“A senhora é a responsável  por isso aqui?”. De volta, o cara da iluminação me interrompeu a correria antes que o auditório ficasse lotado. Com uma garrafa pet recortada em forma de flor na mão, continuou: “Vou  lhe confessar: esta manhã achei que tudo isso aqui ia ser um tremendo fiasco com tanto cacareco. Pra mim, nada daquilo tinha mais jeito. Agora, volto e vejo como estava enganado”. Respondi com um sorriso largo. A primeira coisa que me veio à cabeça foi que eu também era um lixo, tipo aquela garrafa de plástico verde, e Deus viu beleza em mim.

Já se sentiu descartado? Então sabe do que eu estou falando.

Falta de beleza, excesso de gordura, fracassos estudantis, profissionais, falta de cultura, falta de emprego, de um namorado, de andar na moda, de bons modos, de equilíbrio, de conhecimento. Pouco talento, timidez, pouca idade, velhice, falha de caráter, pouca educação, pouco dinheiro, pouca popularidade, pouco em comum.

Descartáveis num mundo que nunca está satisfeito, vivendo o esforço de ser aceito. Como diria a canção: “é, talvez eu seja simplesmente como um sapato velho, mas ainda sirvo se você quiser, basta você me calçar e eu aqueço o frio do seus pés.”

Disso tudo, um conforto: O Artista, lá do alto, ainda assim vê possibilidades. Junta os pedaços de nós e forma obra perfeita e pintada de vermelho sangue que brilha quando reflete glória. Assim, venha a nós o Seu reino!

Nenhum versículo mais concreto para se começar este ano:

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.”

Por Meg Banhos - Formada em direito e publicidade, com especialização em design gráfico. Congrega na Igreja Batista Central de Fortaleza (CE) desde 2001.  

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