"O estudo da religião é importante para a psicologia", diz Marisa Lobo

Falando sobre a boa relação que a fé pode ter com a ciência, a psicóloga destacou que a religião pode ser de grande ajuda se administrada de forma consciente na terapia.

Fonte: Guiame, com informações do Extra (Globo)Atualizado: quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017 14:40
Marisa Lobo é psicóloga e cristã. (Foto: Divulgação)
Marisa Lobo é psicóloga e cristã. (Foto: Divulgação)

Os confrontos e contraditoriedades entre a ciência e a fé não são algo novo e tampouco parecem estar perto do fim. Como em qualquer outra área científica, no campo da psicologia não é diferente.

Há quem afirme que a fé (independente da religião) faz parte da formação de opiniões e subjetividade do ser humano, de forma que possa dar contribuições importantes à psicologia, se administrada com sabedoria. Porém os críticos destacam que há o perigo de do "fanatismo" ser prejudicial ao tratamento psíquico.

O assunto ganhou destaque após o Conselho Federal de Psicologia se manifestar sobre a nomeação — posteriormente suspensa pelo Supremo Tribunal Federal (STF) — de Marcelo Hodge Crivella, filho do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, ao cargo de secretário-chefe da Casa Civil da prefeitura, que aconteceu no início de fevereiro. Na ocasião, Margelo Hodge foi citado como tendo formação em "psicologia cristã".

A suspensão da nomeação por parte do STF não teve relação com o fato do filho do prefeito ser um psicólogo cristão e sim com o caso de nepotismo que representava. Porém o uso do termo "psicologia cristã" levou o Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRM-RJ) e o Conselho Federal de Psicologia divulgarem nota, afirmando que reconhecem a existência de "apenas uma psicologia, que se constitui por 12 especialidades, técnicas e cientificamente validadas. A 'Psicologia cristã' não é uma delas".

"Nós recebemos em nossa ouvidoria diversas denúncias de psicólogos incomodados com a divulgação de informações sobre a formação do Crivella em psicologia cristã", disse Pedro Paulo Bicalho, professor da UFRJ e membro da diretoria do Conselho Federal de Psicologia (CFP). "Divulgamos uma nota para afirmar à sociedade que a chamada psicologia cristã não é reconhecida como psicologia no Brasil".

Em um comunicado publicado nas redes sociais, o filho do prefeito afirmou que as informações citadas na ocasião estavam "equivocadas".

Segundo ele mesmo informou, seu bacharelado em psicologia vem da Universidade Biola - uma instituição cristã protestante de ensino, em La Miranda, na Califórnia. Crivella também disse que ele nunca exerceu a profissão de psicólogo (no Brasil ou no exterior) e, por isso, não precisa que seu curso tenha o reconhecimento dos conselhos de psicologia no Brasil.

“Minha trajetória profissional sempre foi ligada à administração e gestão de empresas”, afirmou ele.


Especialização
Professor do 'Southern Baptist Theological Seminary' ('Seminário Teológico Batista do Sul'), em Kentucky, e fundador da Sociedade para a Psicologia Cristã, Eric L. Johnson explicou que nos Estados Unidos também não existe um bacharelado em psicologia cristã. Porém há a oção de cursos de mestrado e doutorado que reconhecem essa vertente de trabalho.

"Nos últimos 30 anos, a religião e a espiritualidade começaram a ganhar espaço no campo da psicologia por causa dos seus benefícios mentais. Existem estudos que mostram que pessoas religiosas sofrem menos de problemas como o estresse", explicou Johnson. "Esse movimento começou com outras religiões, como o budismo e o hinduísmo, e o cristianismo seguiu esse modelo".

Johnson destacou que a psicologia cristã não tenta fazer uso de qualquer tipo de "fanatismo" e respeita a psicologia moderna e a ciência.

"Tentamos reunir o grande conhecimento que o cristianismo tem. A leitura da Bíblia, a oração e a meditação são usadas há séculos para confortar as pessoas", disse ele. "É uma versão cristã. Não tentamos lutar contra a ciência, buscamos apenas o reconhecimento de uma visão diferente do mundo".

Sessão de terapia. (Foto: Psiconlinews)


Intolerância
Um conhecido caso no qual o medo do "fanatismo" ganhou proporções extremas foi a cassação do registro profissional da psicóloga cristã, Marisa Lobo, feita pelo Conselho Regional de Psicologia do Paraná, em 2014. Posteriormente, a penalidade foi suspensa pela Justiça e substituída por uma censura pública do Conselho Federal de Psicologia.

No Conselho Regional, Marisa chegou a ser acusada de promover a chamada "cura gay", porém após as acusações serem contrariadas por pacientes homossexuais da própria psicóloga, ela passou a ser acusada de proselitismo por se apresentar como uma psicóloga cristã.

Marisa Lobo destacou que respeita a laicidade na Ciência, mas também destacou que é possível haver uma relação saudável entre a fé e a Psicologia.

"Não é que a gente vá ficar dentro do consultório recitando a Bíblia, mas se eu não entendo sobre o que o paciente acredita, como posso ser uma boa psicóloga?", questionou Marisa. "O estudo da religião é importante para a psicologia por causa do seu conteúdo simbólico. Por esse motivo, o Brasil deveria reconhecer a psicologia cristã".

Marisa negou que tenha oferecido qualquer tipo de terapia de conversão ("evangelismo no consultório"), mas assume que se abstém diante de algumas questões contrárias aos princípios bíblicos que segue.

"Quando a demanda é sobre aborto, eu me declaro incompetente e passo o caso para outro psicólogo", disse.

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