O homem não tem mais livre arbítrio, diz escritor

O homem não tem mais livre arbítrio, diz escritor

Atualizado: Sexta-feira, 23 Abril de 2010 as 12

Deslizamentos de terra em Angra dos Reis (RJ), terremotos no Haiti, no Chile, na China; quase 50 dias ininterruptos de chuva em São Paulo (SP); enxurradas que atingiram Niteroi e Rio de Janeiro (RJ); um vulcão em erupção na Islândia que parou o tráfego aéreo na Europa. As recentes tragédias, que atingiram o Brasil e o mundo desde o fim de 2009, trazem questionamentos a respeito da interferência de Deus e do homem nestes acontecimentos.

No livro "A maior tragédia da humanidade", o reverendo Hernandes Dias Lopes fala sobre a catástrofe que atingiu a criação humana e traz reflexos ainda hoje: o pecado.

Uma tragédia relatada no capítulo 3 de Gênesis, que narra a queda do homem.

Em entrevista ao GUIAME.com.br, Hernandes Dias Lopes fala sobre a relação entre pecado e manifestações da natureza; conta porque decidiu escrever sobre o capítulo 3 de Gênesis; aborda as armas de sedução do inimigo no mundo contemporâneo; e explica, porque, em sua opinião, o homem não tem mais o livre arbítrio.

Guia-me: "O pecado é a causa de todos os infortúnios". Essa afirmação faz parte da introdução do seu livro. Diante das recentes tragédias que o mundo tem visto, podemos afirmar que são culpa do pecado humano?

Hernandes Dias Lopes: É verdade que o pecado é a causa de todas as tragédias, não tivesse queda, não tivesse pecado original, não tivesse o pecado dos nossos pais, esse mundo não seria como é. Então, todas as tragédias, sejam elas de ordem natural, sejam de ordem moral, são consequência direta do pecado da queda. Isso não significa dizer que uma tragédia específica como o terremoto do Haiti seja um pecado direto do povo haitiano. Fazer essa afirmação é ser inconsequente.

Com a queda dos nossos primeiros pais, a natureza toda ficou enferma, ficou doente, e surgiu então o cativeiro do pecado. Existem causas naturais. Um terremoto, por exemplo, é ocasionado por problemas geológicos, naturais, não necessariamente tem a ver com o problema moral daquele povo específico.

Então, quando hoje se diz: "Ah, o terremoto chegou ao Haiti porque aquele povo adora outros deuses, porque estão atrás de vodu", isso não é verdade, não é verdade. Isso é botar um peso sobre aquele povo. O terremoto acontece em um país idólatra e em um país cristão. Uma tragédia desaba sobre a casa do injusto e sobre a casa do justo. Na mesma casa que acontece um milagre, acontece também uma tragédia.

Um dia os discípulos perguntaram assim para Jesus: Senhor, por que aquele homem nasceu cego? Ele pecou ou seus pais pecaram? Eles estavam preocupados com a causa. O Senhor Jesus disse assim: Ele nasceu cego para a glória de Deus, não é por causa do seu pecado ou dos pais dele, mas para que nele manifeste a glória de Deus.

Por que aconteceu esse terremoto? Não sei porque, isso é da soberania de Deus, da economia de Deus. Agora, como povo de Deus precisamos nos solidarizar com aqueles que sofrem, estender a nossa mão para socorrê-los, abençoá-los, manifestar a eles a graça de Deus através das nossas boas obras.

Guia-me: Como o senhor decidiu escrever sobre o capítulo de 3 de Gênesis?

Hernandes Dias Lopes: Primeiro porque hoje estou muito comprometido com a exposição da Bíblia. Estou escrevendo livros, com a graça de Deus, que são comentários de livros da Bíblia. E este capítulo 3 de Gênesis, por ser um capítulo da mais alta importância para o entendimento do todo das Escrituras, entendi que seria importante fazer uma exposição dele para que as pessoas pudessem entender a gravidade da queda, e ao mesmo tempo conhecer a grandeza da graça. Porque é no contexto da queda que se anuncia a graça, anuncia-se a promessa do Messias. A partir desse fato que vai se desenrolar todo processo da revelação de Deus, mostrando esse plano perfeito que se gerou na eternidade de Deus, que se desenvolve na história e se consumará na segunda vinda de Cristo. Então, esse capítulo é fundamental para o entendimento do todo das Escrituras.

Guia-me: O senhor pretende fazer uma Bíblia com esses comentários?

Hernandes Dias Lopes: O meu propósito é escrever. Se Deus me der vida e saúde, quero escrever comentários de toda a Bíblia. Nós já temos 22 livros expostos, 21 livros publicados, já temos outro prelo. E o meu desejo é, se Deus me der graça e vida, completar toda essa série de comentários expositivos da Bíblia.

No futuro, se Deus nos permitir, poderíamos até pensar em um projeto de uma Bíblia comentada.

Guia-me: No livro, o senhor também fala sobre as armas de sedução do diabo, quais são, em sua opinião, as utilizadas no mundo contemporâneo?

Hernandes Dias Lopes: O diabo é polivalente, tem diversas caras, diversos tipos de disfarces, diversas artimanhas, armadilhas. Ali no caso da queda usou alguns disfarces, como por exemplo: a simulação, a acusação, a mentira e o engano.

Hoje ele usa muitos disfarces, por exemplo: a primeira coisa que vai dizer é que ele não existe. A principal arma do diabo é se ocultar. As pessoas não acreditarem nele, isso eu chamo de subestimar o diabo. A segunda é superestimar, quando as pessoas só falam do diabo, atribuem tudo ao diabo, estão tão preocupadas com o diabo que deixam de se alegrar em Deus.

Há pessoas que ficam o tempo todo focadas nele, uma espécie de adoecimento emocional e espiritual, uma super-ênfase em relação ao diabo, atribuindo tudo ao ele, e essa é uma postura errada. Por exemplo, certa feita, uma mulher entrou no meu gabinete dizendo: "Pastor, eu gostaria que o senhor orasse pelo meu pai porque ele está com o demônio do adultério". Eu disse: "Não, minha filha, seu pai não está com o demônio do adultério". À luz da Bíblia, adultério é obra da carne. Então quando eu digo que uma pessoa está com o demônio do adultério estou dizendo que ela não é culpada, é vítima.

Se ela não é culpada, é vítima, não vai passar pelo processo de arrependimento, ela vai precisar de libertação. Então, adultério é pecado da carne, a pessoa precisa se arrepender. O diabo pode ter a ligação com isso, agora quando eu estou isentando as pessoas de culpa, estou criando uma espécie de "freudianismo" evangélico, dos problemas alógenos, e não dos problemas autógenos. Então, a causa daquele problema não está na pessoa, está no outro. Errado. A causa do problema está no homem e ele precisa se arrepender. Arrependendo-se, ele recebe o perdão de Deus. Recebendo o perdão de Deus, ele é liberto do poder do maligno.

Então, hoje, por exemplo, quando você pega o liberalismo, o misticismo, o secularismo, o humanismo, o antropocentrismo, tudo isso são artimanhas malignas para desviar a Igreja do seu verdadeiro foco.

Guia-me: "Foi com o pecado de Eva e Adão que o homem livre tornou-se escravo". No entanto, o senhor aponta que, nesse mesmo momento, Deus abriu a esse homem caído a porta da esperança por meio do Evangelho.

Hernandes Dias Lopes: O homem era livre de pecar. Depois de pecar o homem não é mais livre. A ideia de livre arbítrio é uma ideia equivocada. O homem não tem mais livre arbítrio depois da queda. O homem tem livre agência. Qual a diferença entre livre arbítrio e livre agência? Livre arbítrio tinha Adão antes de pecar. Depois que Adão pecou, o homem não tem mais livre arbítrio, porque livre arbítrio é o poder do homem escolher entre o bem e o mal, e escolher fazer o bem. Hoje o homem, depois de caído, não tem mais condições de escolher o bem e fazer o bem, porque o querer fazer o bem está em nós, mas não o efetuá-lo. O bem que eu quero fazer, esse eu não faço. O mal que eu não quero fazer, esse eu faço.

O homem hoje é escravo do pecado, por isso que não é o homem que escolhe a Deus, é Deus que escolhe o homem. A salvação não é uma decisão do homem, é uma decisão de Deus. Quem dá o start, quem dá o início nesse processo não é o homem. Não é o ser humano que se volta para Deus, é Deus que traz o homem para si.

A Bíblia diz: Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. Então é Deus que vem buscar o perdido por meio do seu filho. A reconciliação não é um processo que parta da terra para o céu, mas do céu para a terra.

O que é livre agência? Por exemplo, eu escolhi vir para esse congresso, eu poderia não ter vindo, isso é livre agência. Eu escolhi vir de paletó e gravata hoje, eu poderia ter vindo de camiseta, isso é livre agência. Eu escolho, por exemplo, em que cidade eu vou morar, em que escola eu vou estudar, com que pessoa eu vou me casar, isso é livre agência.

Agora, o que é livre arbítrio? Se eu tomasse a decisão: A partir de hoje eu não peco mais. Você acha que eu poderia tomar essa escolha e levá-la a efeito?

Guia-me: Não.

Hernandes Dias Lopes: Por que não? Porque eu sou escravo do pecado. Porque o homem tem uma luta dentro dele entre a carne e o espírito. Veja bem, a salvação passa por três fases: na justificação você é liberto da condenação do pecado. Na santificação você é liberto do poder do pecado. Na glorificação você é liberto da presença do pecado.

A justificação já é um fato, a santificação é um processo, a glorificação é um fato futuro. Então, hoje eu ainda não estou livre do pecado, estou sendo liberto do poder do pecado, mas só serei liberto da presença do pecado na glorificação.

Guia-me: E quando fazemos boas escolhas?

Hernandes Dias Lopes: A Bíblia diz que é Deus que opera em nós tanto o querer quanto o realizar. Quando você faz uma boa coisa, Deus é que moveu você para fazer aquela coisa, Deus que agiu em você. Nós não somos nada, por isso que toda obra é de Deus e toda glória pertence a Deus. Agora, a esse casal que estava caído lá no Éden, Deus disse: "Da semente da mulher nascerá aquele que esmagará a cabeça da serpente. Ele ferirá o seu calcanhar e o Senhor lhe ferirá a sua cabeça". Então, foi naquele contexto de queda no Éden que Deus trouxe a promessa da redenção por meio do seu filho Jesus Cristo.  

Por Adriana Amorim

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