O ‘rolezinho’ não quer só comida

O ‘rolezinho’ não quer só comida

Atualizado: Quinta-feira, 6 Fevereiro de 2014 as 12:07

O ‘rolezinho’ não quer só comidaO ano de 2013 foi embora, mas o que trouxe de novo, as manifestações populares que escapam às velhas análises, parece que vai continuar. Depois dos protestos de junho/julho, agora é a vez do “rolezinho”. A ida de jovens e adolescentes da periferia aos shoppings não tem uma pauta clara. Mas, cá entre nós, precisa?
 
Se perguntarem qual era a reivindicação dos atos públicos do ano passado, o que você responderia? Derrubar o aumento da tarifa do ônibus? Tá, mas esse foi só o gatilho. Na “revolta da cartolina”, cada um tinha sua exigência. Fim da impunidade, melhores hospitais, extinção dos partidos políticos… A filhinha de uma amiga cobrava até “sorvete pra todo mundo”. Como disse à época, a questão não era se as respostas certas seriam dadas, mas se as perguntas certas seriam feitas. E foram.
 
É verdade que, agora, talvez, o “rolezinho” ganhe pauta bem definida. Depois que o shopping JK Iguatemi obteve liminar para proibir o tal evento em suas dependências, é natural que a atenção de universitários e movimentos sociais seja atraída e, com isso, surjam convocatórias como a divulgada recentemente em Porto Alegre (RS), com palavras de ordem do tipo “contra toda forma de opressão”.
 
Li, dia desses, que a Prefeitura de São Paulo quer convencer os participantes desses encontros a ocupar praças, áreas livres etc. Qual o sentido disso? Mal comparando, imagine tentar persuadir o pessoal da “Occupy Wall Street” (Ocupe Wall Street), em Nova York (EUA), a ir protestar no Central Park? Nonsense…
 
Parece que estamos dizendo: “Mas eles precisam ir justo ao shopping?”. É claro: esses jovens querem ir a um espaço que normalmente lhes é proibido. Não pelo direito, mas porque quase nada ali lhes é acessível (sei que não há restrição formal quanto a acesso. Essa galera vai ao shopping e tal. Mas há varias formas de se excluir uma pessoa ou um grupo, né?). Além disso, em tempos como os nossos, os limites entre cidadão e consumidor se misturaram…
 
A ideologia de mercado difunde a ideia de que os direitos podem ser alcançados pela compra. Compra que, por essa lógica, gera inclusão. Sendo os shoppings espaços de consumo por excelência, tornam-se, por analogia, lugares em que os conceitos de público e privado também estão bastante misturados. Ou seja, formalmente, esses centros comerciais são particulares, sim, e precisam ter essa condição resguardada. Mas, na sensação geral, são de todos. E, como na prática a teoria é outra, a galera do ‘rolezinho’ está reivindicando seu lugar ao sol.
 
A ideia nem é tão nova. Algo parecido aconteceu em 2000, quando 130 sem-teto se juntaram a estudantes e punks e foram ao Shopping Rio Sul, em Botafogo (RJ). O que eles fizeram? O que se faz num shopping. Ir às lojas, provar roupas, passear. Tudo terminou na praça de alimentação, onde comeram sanduíches de mortadela e marmitas trazidos de casa. Na época, a reportagem da Folha de S.Paulo a respeito apresentou a curiosa manchete “Favelados e punks ‘invadem’ shopping”.
 
É claro que compreendo os riscos. Nenhuma iniciativa que tenha por objetivo intimidar, que seja agressiva ou sirva de pretexto para baderna, furtos e delitos terá o meu apoio – e se tiver acesso a dados que comprovem que onde ocorreram “rolezinhos” aumentaram roubos ou coisa assim, lutarei contra esse movimento. Porém, a tal “invasão” de agora não é, ao menos até aqui, violenta. Na verdade, o “rolezinho”, querendo ou não, tendo objetivos só de curtição ou não, denuncia a falta de espaço, a invisibilidade, a exclusão. A carência de áreas públicas de boa qualidade – Não falo de um CEU aqui, outro ali, como acontece em São Paulo – dessa “comida”, as periferias estão fartas. Ninguém vive só disso.
 
É como dizia a velha música dos Titãs: “A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte… A gente quer saída para qualquer parte… A gente quer a vida como a vida quer”.
 
Fazer do shopping um ponto de encontro é só uma forma de dizer tudo isso. “Você tem fome de quê”, questiona a música. E a verdade é que “rolezinho” ou “rolezaum” têm fome da mesma coisa. Mas desse prato, os ingredientes são múltiplos: acesso, liberdade, lazer, cultura, ver e ser visto. Direito à cidade, enfim. Não adianta reagir com mais repressão. Melhor mesmo seria tentar encontrar a receita certa. E começar a servir o quanto antes.
 
Por Carlos Alberto Bezerra Jr.- pastor, médico e deputado estadual

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