Oração, luz e solidariedade

Oração, luz e solidariedade

Atualizado: Quinta-feira, 24 Março de 2011 as 1:25

Há uma figura literária com a qual as pessoas cristãs nos cobrimos frequentemente, já que é um imperativo identitário dado diretamente por Jesus como uma herança para nós, os crentes — a de “Ser Luz” (Mateus 5.14-16). O que acontece é que Jesus, como ser humano total, exige de seus seguidores o que ele mesmo disse ser: “Eu sou a luz do mundo” (João 8.12). Este estilo religioso pode nos complicar se não o valorizamos em seu justo lugar. Se é verdade que a luz “não se põe debaixo de uma vasilha” mas sobre o candeeiro, isto obedece a razões muito óbvias — a finalidade da luz é dar oportunidade de ver claramente o lugar que é iluminado. Entretanto, a tentação na qual podemos cair é esperar que a luz se converta, para nós, em um fim em si mesma. Isto é, que a luz não sirva para tornar evidente o contexto que ilumina mas que se torne o elemento principal de contemplação. Se isso acontece, a luz perde sua função pois faz com que as pessoas fiquem cegas momentaneamente.

Diante dos últimos acontecimentos que se sucederam no Japão — terremoto, tsunami e o perigo iminente de desestabilização de suas plantas nucleares —, é indispensável que aqueles que nos consideramos crentes em Jesus sigamos seu exemplo como luz no meio da escuridão...mas não para nos tornarmos o ponto de atração, senão para sermos uma pequena ferramenta a serviço do infortúnio de irmãos e irmãs japonesas que necessitam ver com esperança sua situação nebulosa.

Serve a isto, então, ser luz através da oração. Esta é uma das mais importantes e nobres tarefas que qualquer pessoa religiosa pode realizar para iluminar vidas obscurecidas pelo desastre. Através dela, posso me conectar com esta prática que atravessa muitas religiões, em particular se o vemos como um dos elementos que conectam a fé cristã com a prática budista, religião bastante presente no Japão.

Em geral, as pessoas associam a prática budista com a meditação silenciosa e reflexiva. Entretando, a recitação e a entonação dos ensinos têm sido particularmente importantes na história do budismo. A articulação sonora, que manifesta a fé e o voto religioso em forma de oração, é um ato visível para os outros. O budismo de Nichiren Daishonin põe ênfase na entonação da oração como postura essencial, em lugar da meditação silenciosa. À diferença da mera abstração espiritual íntima, a prática religiosa exposta pelo budismo se centra no fazer emergir o potencial inherente mais elevado que possui o ser humano, no âmbito da sociedade, em benefício de toda a humanidade. Nichiren costumava citar a máxima de um antigo filósofo budista que afirma: “A voz leva a cabo a tarefa do Buda”. (1).

A oração conduz, frequentemente, a experiências de “êxtase” (2), estado que também se designa como “céu” (ten em japonês). Esta palavra define o plano onde habitam os seres celestiais e também se traduz como “deidade”. Originalmente significava “brilho”, no sentido de irradiar a luz. No budismo, este “céu” não se concebe como um lugar onde a vida de alguém vai parar depois da morte, mas como um estado que se experimenta em vida, a cada momento. O mundo dos seres celestiais significa o estado de satisfação que experimentam as pessoas quando realizam seus desejos (3). E é isto o que eu quero refletir hoje... Que as orações sejam gritos de luz...que os bons desejos se tornem lampejos de esperança para um povo que sofre hoje o infortúnio. Que nosso brilho não cegue, mas que ilumine e permita vislumbrar esperanças, alternativas de saída, espaços celestiais...em meio de um inferno.

Que nossa voz seja coletiva, o clamor multicolorido desde todos os rincões do mundo, e que faça outra vez o milagre de ressuscitar a esperança.

Hoje, todos e todas somos Japão.   Por Dan González Ortega é pastor da Igreja Nacional Presbiteriana do México. Foi Secretário Regional da Federação Universal de Movimentos Estudantis Cristãos para a América Latina e Caribe (FUMEC-ALC) e Secretário Executivo da Rede de Jovens da América Latina e Caribe de Religiões pela Paz. Atualmente é e reitor da Comunidade Teológica do México e conselheiro nacional de adolecentes na sua denominação   Via Novos Dialogos

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