Padre imagina encontro de Deus com Saramago

Padre imagina encontro de Deus com Saramago

Atualizado: Sexta-feira, 18 Junho de 2010 as 1:33

A Igreja Católica em Portugal lamentou nesta sexta-feira (18) a morte de José Saramago. O diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura da Conferência Episcopal Portuguesa, Padre José Tolentino, e o porta-voz da conferência, Padre Manuel Mourão, disseram que o país perde um "expoente" e que a igreja perde um crítico com o qual soube dialogar constantemente.

Mourão acredita em um desfecho piedoso para a relação de Saramago, ateu convicto, com a religiosidade. "Penso que Deus, ao encontrá- lo na eternidade, terá havido alguma surpresa: ‘como o senhor tem a coragem de me dar um abraço se o critiquei tanto?’", imagina, o padre, quais seriam as palavras de Saramago. No suposto diálogo, na visão de padre Manuel Mourão, Deus responderá: "você criticou outro, não o Deus do amor e dar misericórdia."

A relação entre a hierarquia católica e o escritor foi marcada por momentos de debates públicos e declarações polêmicas, motivados pela crítica ferrenha de Saramago à instituição e pela à abordagem de temas bíblicos em obras como "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", de 1991, e "Caim", de 2009.

As últimas arestas entre católicos e o escritor foram aparadas no lançamento de Caim, obra na qual Saramago faz uma crítica à Bíblia e à visão de Deus expressa no Antigo Testamento. Na época do lançamento, padre Jose Tolentino participou de um debate com o escritor.

Para ele, as declarações críticas de Saramago à Bíblia foram "muito mais radicais que o livro". Em seus comentários sobre o romance, Saramago disse que o Deus da Bíblia era pessoal e vingativo. "Sem a Bíblia, seríamos outras pessoas, seguramente melhores", afirmou o escritor.

O padre, que é professor de exegêse bíblica, poeta e ensaista, diz que em "O Evangelho Segundo Jeus Cristo", o escritor manteve diálogo maior com os temas religiosos do que na útlima obra. "Ele olhou para Jesus, nem tanto como uma chave para o divino, mas como uma chave para o humano. Nesse sentido, para um teólogo, Saramago é um autor incômodo e fascinante", resume. O professor ressaltou ainda que não há nenhum outro escritor que toma a bíblia de forma tão sistemática.

"Saramago estava apaixonado pelo texto bíblico. Seu estilo tem uma musicalidade bíblica." O padre diz que fez essa afirmação para o escritor durante o debate e que ele acenou com um sorriso de concordância. "Ele é talvez o mais bíblico dos grandes autores contemporâneos e, ao mesmo tempo, o mais antibíblico", afirmou o padre Jose Tolentino.

Hierarquia

Para ele, foram mais pesadas as críticas do escritor à hierarquia. "Sem dúvida, a acusação que Saramago faz ao cristianismo é muito mais ao institucional, ao poder histórico do que propriamente ao cristianimo messiânico de Jesus de Nazaré", disse o padre José. Entre outras observações mais contundentes, Saramago chegou a chamar o Papa Bento XVI de "cínico" e disse que a "insolência reacionária" da Igreja precisa ser combatida com a "insolência da inteligência viva".

"Do meu ponto de vista, o discurso dele está em uma certa fronteira em relação à intolerância cultural. (...) Tinha dificuldade de dizer as coisas boas (da igreja)", disse.

Para o porta-voz da conferência, que chegou a afirmar à época que o lançamento de Caim era "operação de publicidade", Saramago errou ao tomar a Bíblia em sentido literal. "É um escrito datado. A Bíblia foi escrita durante mil anos, não foi escrita há 15 anos. Sem colocar a Bíblia no seu tempo e na sua cultura, é evidente que se interpreta de maneira que não é verdade", disse Mourão.

"Naturalmente, o que cada um escreve tem a ver com sua própria vida, sua experiência de Deus, da fé e da igreja. Não foi uma experiência muito positiva e isso vai nos seus livros", disse o porta-voz da conferência.

Nota da igreja de Portugal

VOTO DE PESAR PELA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO

O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura expressa o seu pesar na morte de José Saramago, grande criador da língua portuguesa e expoente da nossa cultura. José Saramago ampliou o inestimável património que a literatura representa, capaz de espelhar profundamente a condição humana nas suas buscas, incertezas e vislumbres.

Como é público, o cristianismo e o texto bíblico interessaram muito ao autor como objecto para a sua livre recriação literária. Há uma exigência e beleza nessa aproximação que gostaríamos de sublinhar. O único lamento é que ela nem sempre fosse levada mais longe, e de forma mais desprendida de balizamentos ideológicos. Mas a vivacidade do debate que a sua importante obra instaura, em nada diminui o dever da cordialidade de um encontro cultural que, acreditamos, só pode ser gerado na abertura e na diferença.

Postado por: Felipe Pinheiro

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