Partidos religiosos são um perigo para a democracia, alerta professor

Partidos religiosos são um perigo para a democracia, alerta professor

Atualizado: Segunda-feira, 24 Maio de 2010 as 2:55

''A presença de partidos claramente autodefinidos como religiosos no primeiro Poder da República é um contra-senso por onde queira que se examine o ponto'', disse o professor Hugo Mora, da Universidade da Costa Rica, em artigo publicado no diário A Nação.

Segundo o catedrático, as instituições democráticas estão em perigo quando o fundamentalismo religioso as infiltra, referindo-se, de maneira específica, à participação de dois partidos minoritários, liderados por dois pastores protestantes em pugna, durante a nova Assembléia Legislativa desse país.

''A democracia é o resultado de uma longa luta política, muitas vezes cruenta, na contramão das aspirações das hierarquias religiosas por reter o poder, exercido diretamente ou em conivência com outros sistemas políticos, como no caso das monarquias e as ditaduras'', analisou Mora.

O professor lembrou que chegar à convicção de que a soberania e o poder político se originam, numa nação, na vontade popular, e não num mito sobrenatural, ''supõe um salto qualitativo de grande envergadura''.

A religião pode ser uma base, ''discutida por verdadeiro'', que forme indivíduos no âmbito moral, mas não para assumir a direção de um Estado, defendeu. ''A religião está melhor servida quando se reduz ao âmbito privado, não quando mete suas mãos na vida política dos povos e dos cidadãos'', definiu.

Muitas vezes as religiões são usadas para separar, dividir introduzir diferenças irreconciliáveis na trama social e até perseguir, e os partidos políticos não podem estar alheios a essa realidade, afirmou.

Definiu, então, que pelo menos é ''nefasto, abominável, funesto'' ter dois deputados pastores investidos de poder para operar sua própria agenda sectária ''em benefício não da comunidade geral, senão de grupinhos que deveriam ser atendidos por partidos livres do vírus religioso''.

O professor qualificou de um ''perigo'' para a democracia a presença na esfera política de pastores e religiosos. Mencionou, a título de exemplo, infiltrações do fundamentalismo religioso nos níveis de decisão governamental dos Estados Unidos.

De uma maneira mais evidente, escreveu, ''o fenômeno se apresenta no Oriente Médio, onde o Estado judeu se vê submetido às exigências e pressões de alguns pequenos partidos religiosos que, inclusive, tratam de impor ao resto da população costumes e preconceitos próprios de outras épocas''.

O mesmo ocorre na maioria dos países muçulmanos vizinhos, onde o fundamentalismo ''impõe sobre os políticos e a população crenças e práticas que ferem os direitos humanos mais básicos''.

Mora chamou os partidos políticos à responsabilidade, para que revisem sua agenda de serviço, voltando-a para toda a sociedade, e para que revisem seus programas a fim de se tornarem atraentes a todos.

Se não o fizerem, alertou, perderão eleitores a favor de minúsculas formações políticas oportunistas, com uma agenda própria, sectária e corrosiva da necessária coesão social fundamentada, sobretudo, em valores cívicos.

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