Pastor luterano é candidato à presidência da Alemanha

Pastor luterano é candidato à presidência da Alemanha

Atualizado: Quarta-feira, 30 Junho de 2010 as 10:08

A chanceler Angela Merkel, filha de um pastor luterano da ex-Alemanha de Leste, vê hoje o seu Governo ameaçado por um outro pastor luterano da ex-RDA.

Joachim Gauck é o candidato da oposição social-democrata -Verdes à presidência da Alemanha, contra o candidato oficial da coligação democrata-cristã-liberais, Christian Wulff.

Se fosse o povo alemão a votar, teria a eleição garantida, revelam as sondagens. Mas visto que quem vota é uma Assembleia Federal, em que os partidos no poder têm uma maioria de 21 votos, as suas hipóteses são menores.

A vitória pode, no entanto, vir parar-lhe às mãos. Como? Com o voto, secreto, dos delegados conservadores e liberais que estão descontentes com o rumo da governação de Merkel ou simplesmente preferem o candidato independente ao actual ministro presidente da Baixa Saxónia (ver perfis em baixo nesta página).

Aceso opositor do regime comunista da ex-Alemanha do Leste, tornou-se omnipresente nos media alemães, arrancou aplausos (e quase lágrimas) à audiência que ouviu recentemente o seu discurso no Deutsches Theater em Berlim, a capital do país.

Wulff foi o candidato encontrado pela chanceler quando apanhada de surpresa pela demissão de Horst Kohler, a 31 de Maio. Foi a primeira vez na história da Alemanha que o Chefe do Estado abandonou o cargo. Em causa, o facto de não ter sido defendido pelo Governo dos ataques a que a oposição o submeteu, por declarações polémicas feitas a propósito do Afeganistão.

A demissão de Khoeler surgiu em péssima altura, com o Governo de Merkel em queda livre nas sondagens, em parte por causa da gestão da crise financeira e económica e da questão do plano de resgate para ajudar a Grécia. Tal descontentamento pode explicar também a derrota da CDU/CSU-FDP, coligados a nível federal, nas eleições regionais da Renânia do Norte-Vestefália - o mais populoso estado alemão.

Agora, a eleição do novo presidente será feita por esta Assembleia Federal, composta por 622 deputados do Bundestag e outros tantos delegados e personalidades da sociedade civil nomeados pelos vários estados federados do país. Quatro delegados do FDP, partido da coligação liderada por Merkel, já indicaram que vão votar em Gauch e não em Wulff. "Se o senhor Wulff for batido, isso será uma grande perda de prestígio para o Governo", referiu o politólogo Nils Diederich, da Freie Universität Berlin, citado pela AFP. Mas acrescenta: "Não vejo dissidentes em número suficiente para pôr em perigo a sua eleição."

Se Wulff não obtiver maioria absoluta na primeira e na segunda volta desta eleição presidencial, Gauck poderia ter mais hipóteses na terceira volta, onde é suficiente a maioria simples. Mas para isso teria de contar com os votos do Die Linke (Partido da Esquerda), que conta com ex-comunistas que odeiam o dissidente.

A seguir à reunificação da Alemanha, nos anos 90, Gauck liderou durante uma década a organização dos arquivos da Statsi, a polícia política do regime da ex- -RDA. O Die Linke tem, aliás, a sua própria candidata à presidência: Lukrezia Jochimsen, de 74 anos, deputada e ex-jornalista. O certo é que a votação de hoje pode ficar marcada por um simples procedimento institucional ou pelo início de nova campanha eleitoral.

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