Pastor participa de "reality show" produzido pelo grupo AfroReggae

Pastor participa de "reality show" produzido pelo grupo AfroReggae

Atualizado: Segunda-feira, 7 Fevereiro de 2011 as 8:34

No final do ano passado, o grupo AfroReggae propôs ao canal Multishow produzir um programa que tivesse um olhar diferente sobre a invasão da polícia ao Complexo do Alemão, no Rio, que aconteceu em novembro último.

Seria uma resposta do grupo, que desenvolve projetos sociais em favelas, à cobertura que a imprensa deu ao episódio, considerada por eles como superficial e benevolente com a ação militar.

A ideia era fazer um reality no qual um policial civil disfarçado passaria uma semana na favela, acompanhado por câmeras, para conversar com moradores sobre o que pensavam da operação.

A execução do projeto foi um tanto caseira. O policial escolhido, Beto Chaves, de 34, participou da operação em novembro, mas colabora com o AfroReggae desde 2008, dando palestras em escolas. A casa em que ele ficou pertence ao grupo, que pretende montar uma pousada.

  Sete pessoas acompanharam o policial, afirmando que faziam um documentário. O argumento inicial não foi seguido ao pé da letra. O protagonista, após ganhar a confiança do interlocutor, acabava revelando sua identidade. Por vezes, passava a defender a polícia.

Mas como o grupo é conhecido da comunidade --alguns integrantes da equipe moram ali-- não houve grandes sobressaltos. O resultado acabou ficando interessante, porque não traz uma série de denúncias de abuso policial, o que soaria falso, nem um diagnóstico conclusivo sobre a opinião dos moradores.

No diálogo, transparece uma hostilidade culturalmente arraigada contra a polícia. "Eles não têm faro para distinguir quem é bandido de quem é cidadão", reclama um morador.

Os personagens são instigantes. Um pastor conta que já salvou condenados do tribunal do tráfico. Uma ex-mulher de traficante diz que se sentiu inicialmente seduzida pelo poder, mas que, quando quis romper a relação, foi ameaçada de morte.

E o policial acaba vivendo uma experiência transformadora, não por descobrir atrocidades cometidas pela corporação, mas pela constatação de que, para muitos moradores, o fato de a favela estar ocupada pela polícia ou por bandidos é secundário. "Existe um nível de miséria e abandono tão grande por parte do Estado que a gente percebe que o buraco é muito mais embaixo", diz o diretor, Rafael Dragaud.

Em uma das sequências, o protagonista percorre a favelinha da Skol, uma fábrica abandonada onde moram dezenas de família. Crianças brincam ao lado de ratos e baratas. Ele encontra uma família que não tem nenhum documento. "Já são quatro gerações sem registro", diz o pai. Ali, toda a discussão policial começa a parecer um problema menor.  

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