Pastores da Associação dos Evangélicos da GV não concordam com posição do presidente

Pastores da Associação dos Evangélicos da GV não concordam com posição do presidente

Atualizado: Sexta-feira, 8 Outubro de 2010 as 8:59

O segundo turno das eleições presidenciais, que era para ser um momento para análise de projetos de governo dos candidatos Dilma Roussef (PT) e José Serra (PSDB), se concentra agora no nível de acusações e boatos. Depois do posicionamento da petista sobre a descriminalização do aborto ao longo dos últimos anos, o tema suscitou reações da comunidade evangélica nacional, que alega ser o ato um atentado à vida e aos ensinamentos cristãos. Estima-se que um terço da população capixaba seja evangélica, correspondendo a cerca de 1,2 milhão de pessoas.

No Espírito Santo, a posição da Associação de Pastores Evangélicos da Grande Vitória (APEGV),  tem provocado polêmica, mas não entre os eleitores cristãos, e sim entre os próprios lideres que compõem a entidade. Os pastores, líderes de igrejas capixabas, reclamam da posição contrária à candidata petista tomada por seu presidente, o Pastor Enoque de Castro, que segundo eles, foi desrespeitoso.  Pois, para os demais pastores, a posição de Castro não representa o desejo dos líderes de toda a comunidade evangélica capixaba e da associação.

O próprio presidente de honra da entidade, o Pastor Silas dos Santos Vieira, disse que sequer foi consultado e que o presidente da APEGV não foi autorizado a falar em nome de todos os membros. Ele explica que, inclusive, dentro das igrejas evangélicas capixabas há fiéis que apóiam o projeto de governo da candidata petista. Para o pastor, a candidata está sendo cruelmente difamada pela mídia.

"Nós temos posições diferentes dentro da associação. A igreja é uma instituição sagrada e os pastores devem ter responsabilidade com o que falam. O nosso presidente se posicionou por ele. Orientamos os fiéis a votarem no candidato que representa os interesses da sociedade, que tem projetos sociais que privilegiem a todos. O cristão deve olhar projetos e não decidir seu voto por algo que não foi provado. A igreja não pode ser manipulada. Eu, por exemplo, voto na petista", explica Vieira. Boataria. Compartilha da mesma opinião o Pastor Alcemir Pantaleão, da Igreja Evangélica Peniel, em Itapoã, Vila Velha. Ele, como vários outros pastores da APEGV, não foi consultado e discorda totalmente da posição do presidente, divulgada pela imprensa capixaba esta semana. Ele classificou o ato de Pastor Enoque como uma "insensatez e falta de respeito com quem pensa diferente dele, e com os seus próprios fiéis".

"Minha postura é como cidadão e como membro da diretoria da entidade. Temos fiéis humildes dentro da igreja e neste espaço não se cabe debate no campo moral neste momento. Pois estão querendo desviar o foco. Oriento que o fiel vote de acordo com a necessidade dele e do projeto de desenvolvimento que o represente. Não sejamos hipócritas, nós que ensinamos o mandamento de Cristo temos que prezar pelo voto certo. Não é porque uma boataria foi plantada que o nosso povo vai ser massa de manobra de interesses de lideres religiosos com a bandeira do falso moralismo", ressaltou o pastor.

Pantaleão ressalta que seu voto é da presidenciável, Dilma Roussef (PT) e que há, segundo ele, uma manipulação da imprensa ao contar os fatos. "O debate em uma eleição deve se pautar em propostas, assim como o voto. O cristão fiel deve ficar atento e não entregar seu voto à boataria. Nós temos que deixar o povo decidir o que e melhor para ele. Devemos olhar a capacidade técnica do candidato. Independente dos meus colegas, eu voto na candidata Dilma, por entender que ela traz o melhor projeto", diz o pastor.

E completa: "Se tivesse só uma posição dentre todos nós, os evangélicos, a candidata Marina Silva (PV) teria ganhado no Estado. O que não é verdade, pois no Estado quem ganhou foi Dilma. Não podemos ser tendenciosos. O Pastor Enoque, que é contra a petista, deu depoimento para um jornal e um outro pastor, que é a favor também. Só que o presidente ganhou uma página inteira para falar, além de uma baita foto. E um o pastor que pensa como nós sequer apareceu. Não tenho dúvida de que há uma manipulação aí favorecendo outro candidato".

Reunião. Posições à parte, os pastores prometem expor seus argumentos, na reunião do próximo dia 14 de outubro, onde evangélicos vão debater a posição do grupo em relação ao segundo turno das eleições presidenciais. O evento é organizado pelo Fórum Político Evangélico do Espírito Santo e acontece na Igreja Batista de Restauração em Jardim da Penha, Vitória, às 9 horas.

Coordenador estadual da campanha de Dilma, o deputado Gilvaldo Vieira (PT), disse que vai buscar votos e mobilizar os evangélicos que votam na candidata  e esclarecer mal entendidos e dúvidas dos líderes religiosos.

Aborto não é competência de presidente. Após a polêmica gerada em torno do aborto, o tema moral deve ser esclarecido para um melhor entendimento da população. Em âmbito legal, o professor de Direito e advogado, Rafael Tardin, esclarece que é impossível se aprovar a lei do aborto na atual conjuntura política. E que, um presidente não pode instituir qualquer ato por si só.

"Uma lei precisa passar pelo crivo das duas casas legislativas do Congresso Nacional: a Câmara e o Senado, que são compostos por deputados e senadores que representam toda a sociedade. Não é uma decisão singular do governante federal. O próprio José Serra, em 1998, quando era Ministro da Saúde, assinou uma portaria que permitia que mulheres em gestação de risco pudesse interromper a gestação. Mas isso não significa que há um direito ao aborto", explica Tardin.

Por último, o advogado explica que o debate presidencial nesta esfera não resultaria em promulgação de Lei do aborto. "Na verdade, não existe um direito ao aborto. Na Constituição Federal está estabelecida como clausula pétrea o direito à vida. Sendo assim, seria preciso definir quando começa a vida para estabelecer um ato de aborto. Nem o Judiciário, o Supremo Tribunal Federal (STF) têm entendimento em relação a isso ainda. O aborto é insconstitucional, portanto, ilegal. Se um dia uma lei deste teor for aprovada, vai levar anos de muito debate com a sociedade", finalizou.

Dilma fala sobre o aborto em Minas Gerais A candidata à presidência Dilma Rousseff (PT) criticou o que definiu como uma campanha clandestina com base em suas supostas convicções a respeito do aborto, na tarde desta quinta-feira (7), em Belo Horizonte (MG). "Pessoalmente, sou contra o aborto. Até porque seria muito estranho, no momento em que meu neto acabou de nascer, eu defender o aborto. O aborto é uma violência contra a mulher". A declaração foi feira em visita à capela de Nossa Senhora de Fátima do Mercado Central de Belo Horizonte.

Malta e outros evangélicos se unem pela vitória de Dilma O deputado Walter Pinheiro (PT-BA), que se elegeu senador, o também deputado Gilmar Machado (PT-MG) e o senador reeleito Magno Malta (PR-ES), todos ligados aos evangélicos, vão se juntar a Marcelo Crivella (PRB-RJ) na coordenação da campanha de Dilma Rousseff (PT) junto aos eleitores evangélicos.

A estratégia foi acertada com o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho. A ideia é não transformar a campanha em uma disputa religiosa, mas abordar temas como o aborto com mais clareza.

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