Perdi minha identidade no Condomínio San Phelipe

Perdi minha identidade no Condomínio San Phelipe

Atualizado: Segunda-feira, 27 Setembro de 2010 as 9:04

Quase todos sabem que tudo o que possuimos nessa vida é ilusório. Aquilo que aparentemente é nosso ficará aqui, mesmo depois que partirmos, pois dessa vida nada se leva. Porém, algo continuará sendo meu por longos anos em minha lápide - o meu nome. Dentre as muitas qualidades, traços e trejeitos que nos diferem, o nome é com certeza algo especial. Não me orgulho da semelhança dele aos atores de novela mexicana, mas sem dúvida me sinto querido quando me tratam por ele.

Em todos os lugares públicos ou mesmo privados tentam me adular chamando-me de "senhor", "vossa senhoria", "caro cliente"... chamam-me até de "pastor". Mas nenhum desses pronomes é mais pessoal ou amigável do que meu próprio nome. "Roger", "Ro" ou "Gerião" são abreviações que me trazem pra perto, me fazem sentir-se em casa. No mínimo, despertam minha atenção.

Ainda sou pouco conhecido em meu condomínio. Mudei-me há cerca de 2 anos. Mas os poucos amigos que fiz já me conhecem e me chamam pelo nome. Meu amigo Ohara até me chama de "Rogerinho" (rs).

Contudo, recebi uma carta endereçada ao "51-A". Fosse uma correspondência impressa ou malote etiquetado não estranharia o codinome. Mas, com tristeza, constatei que o destinatário era mesmo o tal 51-A. Descobri também que esse não era apenas o número do meu apartamento... era o MEU número! Não sei se senti-me numa prisão ou num laboratório. Seja como for, percebi que a cínica (ops, perdão), quero dizer, a síndica também havia perdido sua identidade, já que ela assinava também com seu codinome.

A carta pedia que eu limpasse minha vaga na garagem de alguns materiais de construção que havíamos deixado lá, o que fiz prontamente, mas também revelava algo sutil e subliminar - perdi minha identidade!

Aqui não tenho nome, não sou indivíduo. Sou mais um morador, condômino ou o tal 51-A. Perdi aquilo que considero o único atrativo de valor: minha individualidade. Não quero ser um apartamento. Ele não ama, não sente, não perdoa, nem se machuca. Quero ser simplesmente o Rogério. Não o "Sr. Rogério". Também não quero ser "o cara do 51-A". Quero ser eu mesmo. Meu endereço pouco importa. Lembrar de "uma boa ideia" cada vez que se diz o número do meu apartamento não me deixa mais feliz.

Enfim, se você vir minha identidade por aí, diga-lhe que estou com saudades daquele tempo que brindávamos ao som do "Bom dia, Rogério!". Diga-lhe que limpei a garagem e que já posso voltar a ser eu mesmo, sem vergonha, mas com muito orgulho. Diga-lhe também que Susan Boyle mostrou-me esses dias que não preciso ter vergonha do lugar onde moro, das roupas que uso ou do meu cabelo, mas que posso fazer com simplicidade que meu nome seja sempre lembrado, não por aquilo que tenho, mas por aquilo que sou.

Com carinho

L. Rogério   é autor do livro ''Adoração para Anônimos'' (Editora Reflexão) e tem ministrado nas áreas de adoração, apologética, liderança, família e outras. Seu ministério consiste em encorajar a igreja a um relacionamento íntimo e autêntico com Deus. Casado com Daniela Miranda, que faz parte ativamente de seu ministério, já ministrou em diversas igrejas no Brasil e nos Estados Unidos. É fundador do projeto ''Escola de Adoração'' em SP que reúne todos os anos diversos músicos, cantores e palestrantes comprometidos com o Reino. É formado em Análise de Sistemas e pós-graduado em Marketing e Comunicação Integrada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2011).

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