PM's de Cristo: Militares armados com a palavra de fé e esperança

PM's de Cristo: Militares armados com a palavra de fé e esperança

Atualizado: Segunda-feira, 5 Setembro de 2011 as 11:30

No front da árdua batalha pela segurança da população estão homens e mulheres que se dedicam ao ofício de zelar pela paz e atuar em defesa do próximo. São munidos de armas, protegidos com coletes à prova de bala e movidos pela coragem. Mas, por trás da farda de um policial militar, pode haver um soldado ferido, com seus dramas pessoais, ou mesmo sufocado pela pressão do ofício, que muitas vezes põe em risco sua própria vida e a de sua família. É aí que entram em cena os militares armados com a palavra de fé e esperança. São os PMs de Cristo, uma associação sem fins lucrativos e interdenominacional que nasceu há 19 anos na Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Ela é fruto da inquietação de alguns militares cristãos que na época viam-se distantes de suas igrejas e oprimidos pela ideia de que o binômio Deus e Polícia não combinava com a realidade das ruas. Como bravos soldados de Cristo, superaram as barreiras do preconceito, para se unir, somar forças e buscar dos céus a direção e a proteção divina para suportar os perigos do ofício.

Dentre estes homens estava o jovem Alexandre Marcondes Terra, um cadete do Barro Branco, hoje Tenente Coronel da Polícia Militar, com 32 anos de carreira militar, chefe da Assistência Policial Militar da Coordenadoria Estadual dos Conselhos Comunitários de Segurança (Consegs), que responde interinamente pela função de Coordenador Estadual dos Consegs. Em 1992, ao tomar conhecimento da existência da União dos Militares Cristãos Evangélicos do Brasil (UMCEB) e da União dos Policiais Militares Evangélicos do Estado do Rio de Janeiro (UEPMERJ) ele buscou o apoio do Capitão Alberto Resende de Oliveira para implantar em São Paulo uma associação nos mesmos moldes.

Após três meses de oração, buscando a direção de Deus, eles conseguiram reunir 74 militares para sua primeira reunião. Hoje,sustentada por contribuições voluntárias de parceiros e abnegados associados , a associação possui cerca de 1.500 integrantes e aproximadamente 50 Núcleos em todo Estado e um batalhão de policiais militares evangélicos para unir. O último censo realizado internamente pela Polícia Militar em 2011 indica que entre os 138 mil policiais militares - 100 mil da ativa e 38 mil aposentados - há em torno de 25 mil policiais militares evangélicos em todo o Estado.

Como grande companheiro nesta luta a favor do Reino de Deus, o Ten Cel Terra, hoje vice-presidente da associação, tem ao seu lado o presidente dos PMs de Cristo, Capitão Joel Rocha, a quem chama de grande amigo e com quem tem compartilhado grandes vitórias. Na entrevista a seguir, ele fala da história, dos projetos da associação e das expectativas futuras.

  Exibir gospel - Como um dos fundadores dos PMs de Cristo, nos conte como e onde nasceu a associação. Quem foram os homens que, assim como o senhor, idealizaram disseminar princípios e valores cristãos aos policiais militares? Ten Cel Alexandre Marcondes Terra - Há dois precursores que merecem destaque: o Cel Paulo de Tarso Augusto e o Cel Samuel Souza Ribeiro Filho, homens valorosos que não se envergonharam em testemunhar a Cristo na Polícia. Desde o final da década de 1960, eles já semeavam e atuavam como verdadeiros capelães voluntários em várias unidades policiais. Fruto deste persistente trabalho, em 1984 foi criado o primeiro Núcleo dos Alunos Oficiais Evangélicos da Academia de Polícia Militar do Barro Branco, que se constituiu no embrião da Associação PMs de Cristo. Ali, jovens alunos oficiais – cadetes do Barro Branco –, por estarem distantes de suas casas e da comunhão de suas igrejas, passaram a se reunir semanalmente para compartilhar dificuldades e experiências pessoais com Deus, orar juntos e meditar na Bíblia. Essa experiência foi lentamente crescendo também em outras unidades da Polícia por iniciativa de abnegados cristãos, mas ainda de forma isolada, muitas vezes mal compreendida por comandantes locais, que não autorizavam o trabalho. Era possível perceber que havia um número expressivo de cristãos evangélicos, porém desunidos, fracos na fé, com vergonha de declararem-se cristãos, tentando sobreviver sozinhos no difícil ambiente policial.

  EG - Então o senhor acreditou que era possível uni-los? Ten Cel Terra - Em 1992, ao tomar conhecimento da existência da União dos Militares Cristãos Evangélicos do Brasil (UMCEB) e da União dos Policiais Militares Evangélicos do Estado do Rio de Janeiro (UEPMERJ), meu coração foi incendiado e duas perguntas não se calavam na minha mente: ‘Por que São Paulo não poderia ter algo semelhante? Por que os cristãos continuavam ainda tão desunidos?´ Compartilhei a visão com o Capitão PM Alberto Resende de Oliveira, que também trabalhava na Academia do Barro Branco e, inspirados na história bíblica de Neemias - que mobilizou as famílias de Israel para a reconstrução dos muros de Jerusalém -, começamos um período de três meses de oração, buscando a direção de Deus. Fizemos uma lista dos PMs evangélicos que conhecíamos e uma carta de convocação. Então no dia 25 de junho de 1992, no auditório do Corpo Musical da Polícia Militar, nascia a Associação PMs de Cristo, na época denominada União dos PMs Evangélicos do Estado de São Paulo, com a presença de 74 policiais militares de diversas igrejas e denominações. O nome PMs de Cristo foi adotado dois anos depois, inspirado nos Atletas de Cristo.  

EG - A PM de São Paulo tem o maior efetivo do Brasil e o terceiro maior da América Latina, com 138 mil militares. Existe uma estimativa de quanto deste efetivo se declara cristão? Ten Cel Terra - O último censo realizado internamente pela Polícia Militar em 2011 indica que entre os 138 mil policiais militares - 100 mil da ativa e 38 mil aposentados - há em torno de 25 mil policiais militares evangélicos em todo o Estado, das diversas igrejas e denominações.  

EG - O senhor acha que estes militares cristãos hoje estão mais sensíveis à Palavra de Deus do que há 19 anos, quando a associação foi fundada? Ten Cel Terra - Vejo nitidamente um mover especial de Deus nestes últimos anos no meio policial. No começo, havia muitos policiais tímidos, com vergonha de se declarar cristãos. O binômio Deus e Polícia parecia não combinar com a realidade das ruas na mentalidade de alguns. Outros entravam na Polícia e logo se desviavam da fé e também havia o grupo dos rejeitados pelo seu pastor e pela sua própria igreja por se tornarem policiais. Hoje, graças a Deus, temos mais policiais sensíveis ao chamado de Deus e a própria igreja começou a compreender o papel do policial, a serviço do bem comum e também da Associação PMs de Cristo, como missão interdenominacional. A própria Polícia valoriza mais o policial militar como figura humana e incentiva a espiritualidade.  

EG - Ser uma associação cristã interdenominacional tem seus desafios próprios, visto a diversidade e diferenças de tantos ministérios evangélicos hoje. Como os PMs de Cristo conseguem unir militares cristãos, sem esbarrar em questões doutrinárias? Ten Cel Terra - Vivendo a simplicidade e a essência do Evangelho de Jesus Cristo. Ele orou dizendo: “Pai, que Eles sejam um... para que o mundo creia...” João 17:21. Nós compreendemos que este chamado de Jesus é muito maior que nossos interesses pessoais; que a desunião é destruição, porque ela faz com que vidas deixem de conhecer o Evangelho e se percam. Somos uma missão e não discutimos costumes denominacionais. Sabemos que maior é o que nos une do que nossas eventuais diferenças. Estamos determinados a praticar, viver e promover Cristo e sua Palavra no meio policial, portanto, o amor e o respeito tem de ser o ponto alto. No relacionamento diário e na diversidade não nos precipitamos em julgar, mas aprendemos a exercitar a tolerância, o perdão, o respeito mútuo, a mansidão e a humildade.  

EG - Fora das corporações, como um PM de Cristo pode fazer a diferença para a sociedade? Ten Cel Terra - O PM de Cristo pode fazer a diferença ao atuar como um facilitador e mobilizador comunitário, aproximando os seus amigos, a sua igreja e a sua comunidade da unidade policial do bairro, divulgando os serviços, sites e ações positivas e também chamando pessoas para participarem do Conselho Comunitário de Segurança local. Ele deve se posicionar como instrumento de Deus, colocado por Ele para promover a paz e proteger as pessoas.  

EG - De que forma os PMs de Cristo atuam para cumprir seu propósito de levar a palavra de vida e esperança à família policial militar? Ten Cel Terra - Como Paulo disse aos Colossenses, ‘portai-vos com sabedoria, aproveitai as oportunidades’, é assim que os PMs de Cristo cumprem o seu chamado, se fazendo presente em todas as áreas de atuação da Polícia Militar. Os núcleos PMs de Cristo, dirigidos por policiais voluntários, promovem semanalmente os ‘Momentos com Deus’, reuniões que trazem reflexão bíblica e oração, fortalecem a fé e tornam o ambiente de trabalho mais produtivo e com mais qualidade de vida. Nosso objetivo é estar presente em todo o ciclo de vida profissional, recepcionando o policial em seu ingresso, acompanhando seus passos ao longo da carreira, destacadamente em apoio a ocorrências graves, na resolução e encaminhamento de problemas e crises familiares e também em momentos especiais, como o Dia do Soldado, Páscoa dos Militares, formaturas, promoções etc. Com a Ronda Missionária, capelães voluntários visitam as unidades policiais prestando apoio e assistência aos policiais necessitados. Quando é preciso encaminhamos para profissionais de psicologia e aconselhamento.  

EG - Nestes 19 anos, quais as principais conquistas da associação? Ten Cel Terra - A associação foi criada com o objetivo de se prestar assistência emocional e espiritual, levando a Palavra de vida e esperança ao policial e sua família e também representar os PMs evangélicos perante o Comando da Corporação no desenvolvimento da capelania. É claro que a principal conquista é o resultado da missão: vidas salvas e restauradas, profissionais que voltaram a ter dignidade e a conviver no seio familiar, inúmeros suicídios evitados e o nome de Cristo honrado. Não posso deixar de mencionar em 2008 a memorável abertura do quartel da ROTA para a capelania e distribuição do Kit valorização policial. Do ponto de vista institucional, conquistamos o respeito e o reconhecimento do Comando da Polícia Militar e de importantes lideranças da comunidade evangélica e autoridades do Estado. Outras conquistas especiais são a edição do Pão Diário personalizado, a publicação e doação de mais de quatro mil livros “Com o Sacrifício da Própria Vida”, o lançamento do DVD em inglês “A Force for Change” no Dia Mundial de Oração, na África do Sul em 2010, a distribuição de mais de 30 mil Bíblias com a logomarca da PM e a participação na I Conferência Internacional de Policiais Cristãos em Londres (1995).  

EG - Por se tratar de uma das profissões tidas como mais estressantes, qual a importância da espiritualidade e da fé para o policial? Ser um PM de Cristo ajuda a lidar com a pressão do trabalho? Ten Cel Terra - Falando na linguagem de gestão pela qualidade, na “hora da verdade” da Polícia, como na abordagem, na investigação ou na ocorrência grave com refém, a espiritualidade e a fé é que determinam o sucesso que só a técnica e a lei não podem oferecer, atuando diretamente no controle emocional, na resistência à corrupção e no respeito ao ser humano, independentemente das circunstâncias. A convivência diária com a violência, a corrupção, o perigo e o envolvimento com misérias e crises humanas das mais variadas afetam a estrutura emocional do profissional de segurança pública. Ele precisa sempre mostrar-se forte e manter o equilíbrio a fim de bem desempenhar sua missão. No entanto, atrás do colete à prova de balas, há um ser humano que também precisa de cuidado, de fé e de esperança. Somado a essa realidade, o policial ainda precisa administrar seus próprios conflitos pessoais e familiares para não trazer riscos a sua própria vida, pois a arma está sempre disponível a poucos centímetros da sua cabeça e o suicídio é uma constante ameaça que ronda qualquer Polícia do mundo. Assim, sem um cultivo permanente da espiritualidade e da fé – que é o que se propõe o serviço de capelania policial - o policial tende a se embrutecer e perder os maiores valores da vida e da família.  

EG - O XV Congresso da União dos Militares Cristãos Evangélicos do Brasil (UMCEB) deve reunir cinco mil congressistas em setembro. Como o senhor avalia o movimento dos profissionais cristãos no País, eles estão mais atuantes e unidos? Ten Cel Terra - Há algo especial acontecendo dentro das Polícias e das Forças Armadas. Deus está convocando e despertando os policiais e militares cristãos em todos os Estados para a importância da unidade e da oração, do quebrantamento e posicionamento de conquista e cura da nação. Parece que nossos ouvidos estão se abrindo para obedecer de fato o texto de II Crônicas 7:14 “Se o meu povo que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar e buscar a minha face, e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus e perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra”. Novas associações estão surgindo, como os PMs de Cristo do Pará, que estão sediando o magnífico e histórico congresso nacional deste ano. São Paulo será representado no Congresso com a maior delegação de sua história, serão 140 componentes. Há um clima de aliança, de cooperação, de uma só fé e de um só amor.  

EG - Eventualmente, a imagem da polícia é arranhada por casos de abusos de poder e corrupção envolvendo policiais. O que o senhor diria aqueles que, por conta de casos isolados, generalizam a polícia como uma instituição desvirtuada de seu propósito? Ten Cel Terra - Toda organização, seja policial ou não, está sujeita a enfrentar desvios de conduta de seus membros. O diferencial então é a forma como ela se posiciona em relação aos que se desviaram do propósito institucional. A história e os números demonstram a seriedade da Polícia Militar em consolidar seu compromisso com a legalidade e seus valores éticos. Assim como o bom samaritano, milhares de bons policiais militares anônimos saem e retornam as suas casas após exaustivos períodos de serviço em prol da população e obviamente não são alvos de manchete ou primeira página nos jornais, mas eles, graças a Deus, são a regra e representam a esmagadora e predominante maioria. As pessoas precisam conhecer melhor a sua polícia e sua recente história de transformação. Se avaliarmos os últimos 15 anos, as estatísticas e os projetos com resultados são fantásticos. É muito animador perceber que a Polícia Militar é uma grande força para mudança e transformação da sociedade. Os 150 mil chamados/dia do telefone de emergência 190, as seis milhões de crianças que já passaram pelo Programa Educacional de Resistência às Drogas e a Violência (PROERD) e a expressiva redução dos homicídios na última década, nos dão a certeza de que a nossa geração está assistindo ao nascimento de uma nova polícia, uma verdadeira força pública da sociedade paulista. Como diz a nossa canção, tudo isso tem sido possível “Por mercê de Deus”.

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