Portugal recorda a evangelização de Angola

Portugal recorda a evangelização de Angola

Atualizado: Quinta-feira, 4 Novembro de 2010 as 10:58

Decorre, desde terça-feira, em Lisboa, o Congresso Internacional "Ordens e Congregações Religiosas em Portugal. Memórias, Presença e Diásporas", organizado pelo Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

O congresso reúne especialistas de várias áreas do saber, provenientes de todos os cantos do mundo, que até amanhã têm a oportunidade de discursar sobre a experiência portuguesa além-fronteiras, destacando a sua campanha evangelizadora na América, Ásia, e África.

Isto aconteceu num período histórico em que a meta principal dos portugueses era dilatar a fé cristã, através de expedições missionárias que, a partir do século XV, começaram a chegar à Angola, mais concretamente à região de Mbanza Congo, que com a chegada dos primeiros missionários portugueses passou a designar-se São Salvador. Foi, exactamente, nesta zona em que foram baptizados os primeiros angolanos. Com este encontro, Angola tornava-se um país cristão, ao abraçar o catolicismo, que entrava com muita força no país, no âmbito da expansão portuguesa, dominada não só pela religião, mas também pela política e pela economia. Esta é uma das razões que leva muitos estudiosos a considerarem a evangelização de Angola uma autêntica campanha colonial que difundiu uma ideologia forte, que permitiu aos portugueses "dominar" o povo angolano.

Todavia, este Congresso tem como ponto de partida o Centenário da República, um regime que marcou uma grande viragem na história de Portugal, tendo retirado a religião do seu lugar, aprovando a separação total entre a Igreja e o Estado. Viveu-se, nesta linha, uma etapa em que as ordens e congregações religiosas foram extintas, facto que provocou uma profunda crise de identidade, pois, Portugal, que se identificava com a religião cristã, viu-se invadido por uma ideologia anticlerical, que desorientou gerações e gerações.

Neste prisma, os portugueses reconhecem que não se pode falar da sua História sem fazer referência à religião, especialmente a campanha missionária, em que Portugal tinha o poder de decidir sobre as congregações e ordens religiosas que podiam entrar em Angola para evangelizar. Esta ideia está a ser referenciada com veemência neste evento, que tem como pano de fundo a forte ligação do País de Camões à Angola, que foi também assinalada pela evangelização desta região, uma das primeiras a receber o "Evangelho de Cristo" na África subsaariana.

O Patriarca de Lisboa - Cardeal Dom José da Cruz Policarpo - Dom Carlos Azevedo, historiador e bispo auxiliar de Lisboa, e Eduardo Lourenço e Luís Machado de Abreu (presidente da Comissão Científica do Congresso), grandes homens de cultura a nível de Portugal, que já discursaram e dissertaram as suas teses, foram unânimes em sublinhar este dado, colocando Angola como um ponto de referência obrigatória quando se fala da história e da cultura portuguesa, especialmente no contexto da missionação.

Todavia, hoje, os portugueses são unânimes em reconhecer que Portugal deve mudar o seu olhar em relação a Angola e a outros países que ontem eram suas colónias. A independência é um marco que assinalou uma nova página na história, que Portugal não pode esquecer, para evitar possíveis complexos, pré-conceitos e ressentimentos nas relações que devem existir entre os dois países, nos nossos dias. Neste âmbito, os especialistas que participam no evento sublinham que com esta nova realidade, a Igreja de Angola deve aprender a caminhar, viver e actuar como uma comunidade esclarecida, madura, mas que deve manter-se aberta ao diálogo, à comunhão, e à cooperação com as restantes igrejas irmãs, particularmente com a Igreja de Portugal.

Para o presidente da Comissão Organizadora do Congresso, Eduardo Franco, "Portugal não podia deixar de falar da sua acção evangelizadora no mundo, e de uma forma especial em Angola, numa altura em que se assinala o Centenário da República. Isto porque este acontecimento teve efeitos históricos visíveis não só em Portugal, mas também nas antigas colónias. E a religião esteve sempre no centro. O Evangelho partiu de Portugal e chegou até Angola. Os angolanos aderiram à mensagem de Cristo e muita coisa mudou na sua vida".

José Eduardo Franco continuou a proferir palavras sábias e oportunas aos leitores do Jornal de Angola, realçando: "Quando Portugal começou a perseguir as congregações e ordens religiosas, Angola sofreu também com esta revolução. Por isso, a missionação de Angola nunca deixará de ser uma página importantíssima na cultura e na história de Portugal. Por outro lado, felizmente, é notável a satisfação quase de todos os congressistas, pois os conferencistas seleccionados, de Portugal a outros pontos do mundo, incluindo Angola, estão a corresponder com as expectativas, confirmando a vertente científica do encontro".

O Congresso termina amanã, com a palestra do conhecido estudioso português Guilherme d’Oliveira Martins, que vai dissertar sobre "Contemplação e acção ontem e hoje". Para a cerimónia de encerramento, está prevista a presença do Presidente da Assembleia da República Portuguesa, do Primeiro-Ministro e do presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz de Braga.  

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