Pr. e jornalista, Elben César fala sobre mídia e movimento evangélico

Pr. e jornalista, Elben César fala sobre mídia e movimento evangélico

Atualizado: Quarta-feira, 19 Janeiro de 2011 as 10:45

Aos 80 anos de idade, Elben Lenz César é daquelas pessoas que, para bem ou mal, tem uma trajetória construída e reconhecida. No caso dele, felizmente, a biografia enquadra-se no primeiro grupo. Fundador da editora Ultimato, que publica a revista de mesmo nome – que em mais de 40 anos de circulação se tornou referência para boa parte da Igreja brasileira –, ele tem dedicado sua vida às letras cristãs, ao púlpito e à obra missionária. Autor de livros como Para melhor enfrentar o sofrimento, Prática devocional, Conversas com Lutero e História da evangelização no Brasil, Elben é também ministro presbiteriano, denominação da qual nunca se desligou. Como evangelista, ajudou a implantar o Evangelho em regiões de Minas Gerais numa época em que ainda predominava o conservadorismo católico.

Elben tem larga experiência internacional e missionária. Parte dessa vivência é contada em seu livro O Mineiro com Cara de Matuto ao redor do mundo. O personagem, através do qual escreve na terceira pessoa, é um dos mais apreciados pelos leitores de Ultimato. Observador arguto da Igreja brasileira nas últimas cinco décadas, o pastor e jornalista também tem falado muito sobre ela, não apenas em seus livros e artigos, mas também nas diversas palestras e eventos de que participa. Aqui, Elben compartilha com os leitores de CRISTIANISMO HOJE uma série de reflexões sobre um assunto que, sem dúvida, o apaixona.

CRISTIANISMO HOJE – O senhor é um dos pioneiros da mídia impressa evangélica no Brasil, com o lançamento de Ultimato em 1968, época em que o país e a igreja atravessavam tempos muito diferentes.  Qual foi sua motivação?

ELBEN LENZ CÉSAR – Em 1966, eu morava em São Paulo, e a direção do jornal Brasil Presbiteriano me pediu que escrevesse a história dos jornais presbiterianos. Ao pesquisar publicações como Imprensa evangélica (o primeiro jornal evangélico da América do Sul), O puritano, O evangelista e Fé e vida (mais tarde Unitas), acordei para o fato de que, naquela época, tínhamos vários e excelentes veículos evangélicos, mas todos denominacionais, de metodistas, batistas e presbiterianos.

Não havia publicações acessíveis ao público em geral?

Exato. Revistas não denominacionais eram uma raridade, como Fé e vida, de Miguel Rizzo; Vida, da Mocidade para Cristo; Palavra da vida, da Organização Palavra da Vida; e Mundo cristão, o embrião da Editora Mundo Cristão. Essa lacuna só começou a ser preenchida quando o sectarismo denominacional diminuiu, forçado, creio, pelo Espírito de Deus. Aí, surgiu a tímida ideia de atuarmos nessa área. Escrevi a diferentes líderes evangélicos sobre o assunto e eles puseram mais lenha na fogueira, digamos assim. Depois de deixar o projeto de molho na presença de Deus, pus definitivamente as mãos no arado em janeiro de 1968, quando saiu o primeiro número do então jornal Ultimato, mais tarde transformado na revista.

Ultimato tem entre seus colaboradores gente como os pastores Ricardo Gondim, Robinson Cavalcanti e a missionária Bráulia Ribeiro, todos com grande liderança e autonomia ministerial. Como lidar com articulistas com esse perfil?

Na verdade, nós procuramos não apagar a luz própria dos nossos articulistas. Entendemos que cada um, com suas características e brilhantismo, tem uma colaboração a dar. A soma do que eles escrevem e do que fica a cargo da redação é o que oferecemos ao leitor.

Para muitos crentes e boa parte de sua liderança, o pensamento crítico acerca da própria Igreja deve ser evitado. Há alguma legitimação disso sob a ótica cristã?

Há uma grande diferença entre julgamento temerário e pensamento crítico. O primeiro é pecado, condenado pela Bíblia; já a crítica construtiva é bíblica, saudável e indispensável. Muitas reformas não acontecem ou porque ninguém chama atenção para o erro ou porque, quando chama, o faz sem autoridade ou com intenções duvidosas. Sem um voto de obediência cega a Adolf Hitler, o nazismo não teria triunfado. O voto de obediência à Igreja Romana por parte de todo o clero tem atrasado ou impedido mudanças no seio do catolicismo. Sempre me lembro da crítica aberta de Paulo a Pedro, que era um apóstolo mais velho na fé e no ministério: “Quando Pedro veio a Antioquia, enfrentei-o face a face por sua atitude condenável”, atitude registrada em Gálatas 2.11. Porém, é preciso tomar todo o cuidado, porque a fronteira entre o juízo temerário e a crítica construtiva é tênue.

Como escritor, de que forma analisa a produção literária evangélica?

Seria pretensão definir a produção literária dos últimos anos. É preciso um tempo de decantação. Primeiro, porque livro não tem data de validade; e segundo, porque livro vendido não significa livro lido. Nunca se produziu tanto, mas – espero não me arriscar muito – nunca fomos tão superficiais. Basta frequentar os estudos bíblicos e as escolas dominicais das nossas igrejas para ver isso.

E quais seriam as atuais preferências do leitor crente?

Parece que os livros de autoajuda são os mais procurados. É um velho dilema: vende mais porque é bom ou é bom porque vende mais? Nossa experiência, embora modesta, aponta em outra direção. Livros sobre a existência (e a relevância) ou não de Deus, sobre arte e fé cristã e missão integral, além dos devocionais, são também bastante apreciados. Um exemplo curioso: um livro com o título "Icabode", escrito por um autor nacional [Rubem Amorese] e que trata dos efeitos devastadores da modernidade sobre a Igreja, poderia conter algum apelo comercial? No entanto, é um dos nossos títulos mais procurados ao longo dos últimos dez anos.

A consolidação da internet nos últimos 15 anos criou um novo tipo de consumidor de informação, inclusive nas áreas teológica e devocional. Essa transição tem sido adequadamente percebida pelos criadores de conteúdo? E a chamada Igreja virtual tem obtido sucesso?

Eu diria que é difícil falar sobre o sucesso ou não da igreja virtual enquanto ainda estamos experimentando os seus primeiros efeitos. No entanto, a “coceira nos ouvidos” é a mesma, ontem e hoje. O que mudou – e muda todos os dias – é a versão do browser e a facilidade de, como se diz modernamente, customizar a mensagem. Estamos entregues ao narcisismo virtual e aperfeiçoando a oração do fariseu, aquele que ora de si para si mesmo, conforme a descrição de Lucas 18.11. Mas, ao contrário do fariseu, que era visto por uns gatos pingados em praça pública, nossa praça agora é o mundo. Claro, o mercado descobriu a Igreja! E, não raro, aqueles que servem as mesas e oferecem os banquetes – o conteúdo – confundem os menos avisados com os “utensílios do templo” que adotam. Assim, como Daniel advertiu, é preciso tomar cuidado com tanta opulência.

O senhor fundou o Centro Evangélico de Missões e presidiu a Associação de Missões do Terceiro Mundo, tendo participado ativamente de eventos como os Congressos Brasileiros de Evangelização. Como analisa a atuação missionária da Igreja contemporânea?

Receio que estejamos fazendo confusão entre evangelização e crescimento numérico. Nem sempre este é resultado daquela, o que é lamentável. Embora o número e a qualidade dos missionários estejam aumentando, a maior parte das igrejas continua sem consciência missionária. Jesus não nos enviou para fazer convertidos, e sim, discípulos. Hoje, como gosta de lembrar o bispo Robinson Cavalcanti, enfrentamos dois problemas: não sabemos o que fazer com os convertidos e nem o que os convertidos fazem. Como Igreja, precisamos nos despojar da teologia da prosperidade, das banalidades, da superficialidade, do afastamento da única regra de fé e prática e do endeusamento das figuras de destaque – para o bem delas e para o bem da Igreja.

Quais os motivos do descrédito social a que têm sido submetidos os ministros do Evangelho?

A resposta histórica e universal é a mesma: pastores caem diante da tentação da fama, do poder, do dinheiro e do sexo. A virtude mais difícil de todas é a humildade. A dificuldade decorre do fato de que ela tem de ser autêntica, ou seja, não pode ser aparente. Humildade é assim: ou existe, ou não existe. É uma virtude para Deus ver, e não para a sociedade ver. Quando um pastor de renome se envaidece, ele perde a proteção de cima, fica solto e fragorosamente cai em descrédito. A partir daí, acontecem todos os problemas.

O senhor já escreveu que os escândalos são um dos principais motivos que levam as pessoas a abandonar a fé...

Isso mesmo. Jesus disse, conforme o texto de Mateus 18.6, que é melhor a pessoa enfiar o pescoço na abertura de uma grande pedra de moinho e atirar-se ao mar profundo do que cometer um escândalo. O Senhor é tão drástico nessa avaliação porque o escândalo afasta do caminho o que estava nele e da salvação aqueles pelos quais ele mesmo morreu. O preço da desgraça do que comete escândalo tem de se proporcional ao mal que ele cometeu. Uma igreja sem credibilidade é um punhado de sal sem suas propriedades. Penso que teremos muitas surpresas no Juízo. Veremos milhares de filhos, de ovelhas e de almas perdidas no inferno por causa dos escândalos dos pais, dos pastores e da igreja. Precisamos ter mais temor de Deus, lembrando que os escândalos são a maior “fábrica” de ateus da história. Alguém já disse que a quantidade de ex-crentes que se afastaram da Igreja é maior do que a daqueles que estão nela. Devemos levar mais a sério a admoestação do apóstolo Paulo: “Aquele que está de pé, cuide para que não caia”. O teólogo e escritor americano Michael Horton fez uma afirmação sombria: “Os cristãos evangélicos estão aderindo a estilos de vida hedonistas, materialistas, egoístas e sexualmente imorais com a mesma proporção que as pessoas mundanas.”

Dilma Rousseff assume a Presidência agora em janeiro – a primeira mulher no cargo em 111 anos de história republicana do Brasil. Como evangélico, qual sua expectativa?

Quanto à primeira mulher a ocupar a presidência do país, penso que devemos esperar que, além de não descriminalizar o aborto e não apoiar o casamento gay, ela faça muito, mais muito mais do que foi prometido. Espero que Dilma alcance tanto sucesso quanto Lula na área econômica e o ultrapasse em outras áreas.

Ao contrário do passado, hoje católicos e evangélicos têm mais proximidade, participando até de atividades religiosas conjuntas. À luz do ecumenismo, qual sua avaliação desse processo?

Os conflitos entre os dois grupos ainda existem, mas é evidente que a tolerância mútua aumentou. Nos anos 60, enfrentei a oposição católica na implantação do Evangelho em Viçosa e arredores. Mas é preciso estar certo de que, para Deus, não há nem católicos nem protestantes, mas cristãos, cuja autenticidade o dia da separação do trigo e do joio mostrará. Entendo que no catolicismo existe muita gente séria, apaixonada e que luta bravamente contra o pecado, o secularismo e as potestades do ar.  Todavia, não sou ecumênico no sentido pejorativo da palavra. Por causa disso, nunca assumi o compromisso de deixar de lado as coisas que nos separam dos católicos e de enfatizar apenas as que nos aproximam deles. Prezo muito a liberdade tanto de admirar e propagar as coisas bonitas que eles fazem como de continuar a criticar o que julgo diferente do ensino bíblico, tanto lá como em nosso meio.

O Censo deste ano deve confirmar a tendência de crescimento do percentual de evangélicos na população brasileira, que, segundo analistas, pode chegar até a 30%. Mas não se vê tanta ênfase na necessidade de essa fé pessoal repercutir no comportamento dos crentes. Como chegamos a esse ponto?

Se as coisas continuarem como estão, o evangelho fácil não convencerá ninguém de que é necessário crucificar a carne e o ego, como Jesus ordenou. A Igreja está desacreditada, infelizmente. A paixão pelas almas sem Cristo cedeu lugar à paixão pelo crescimento numérico. Esse crescimento das igrejas evangélicas deve-se, em grande parte, à propagação da teologia da prosperidade, que oferece uma esperança mais imediata do que escatológica, mais temporal do que eterna. Estabelece-se uma concorrência entre igrejas, e as menores tendem a copiar as estratégias que dão certo nos grupos que mais crescem. É como desejar alguma coisa de Deus, mas não desejar o próprio Deus.

O senhor é um ministro de formação presbiteriana. Como se define teologicamente?

Sou um presbiteriano convicto e realizado. Nunca mudei de igreja nem de presbitério; mas repudio o denominacionalismo, tanto em mim, como nos outros. Recebi influência batista no Colégio Batista Fluminense de Campos; influência congregacional do Seminário Teológico do Rio de Janeiro; influência episcopal e luterana, quando era missionário em Porto Alegre [RS]; e influência metodista quando era missionário em Ubá e Barbacena [MG]. Também me dou muito bem com assembleianos e crentes renovados. Mas tento me prevenir tradicionalismo exacerbado como das “novidades” exacerbadas.

Por Carlos Fernandes

veja também