Preciso de conversão! Misericórdia, Senhor!

Preciso de conversão! Misericórdia, Senhor!

Atualizado: Quarta-feira, 10 Março de 2010 as 12

Faz tempo que eu sei que conversão é coisa para a vida toda. Deus nunca termina a sua obra em mim. Eu nunca dou conta das mudanças que ele quer realizar na minha vida e ele nunca desiste de mim. Aprendi que a palavra de Paulo em Romanos precisa ser lida para mim e contra mim: "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.1-2).

No Congresso Brasileiro de Missões, realizado em Águas de Lindóia, SP, de 10 a 14 de outubro de 2004, descobri que preciso me converter! Durante a palestra da Bráulia Ribeiro, uma rica conversa se estabeleceu entre o que eu ouvia e o que o coração me dizia. À minha memória vinham ênfases, opções e lacunas que eu havia abraçado e reivindicado no decorrer da minha caminhada. Então rabisquei num pedaço de papel quatro áreas nas quais vi que careço de conversão.

Conversão à compaixão, abandonando a distância na relação com o outro

Já falei várias vezes sobre essa necessidade, até porque na Visão Mundial a gente lida tanto com a miséria e a necessidade humana que é difícil continuar sendo sensível à realidade de sofrimento do outro. Não há um dia em que ao ligar o computador não se encontre alguma notícia de desastre, emergência ou necessidade cruel em algum lugar do mundo; e todos na organização acabamos sendo candidatos à "fadiga da compaixão". Além disso, eu me conheço o suficiente para saber que diante de situações de sofrimento e necessidade me revisto de uma certa distância estratégica. Mas sempre que me debruço sobre os Evangelhos vejo Jesus olhando para as pessoas com compaixão e dirigindo-se a elas com um sorriso nos lábios. Em Cristo vemos que a compaixão é uma expressão de amor que estabelece proximidade de vida e comunhão de coração entre as pessoas. Assim, eu oro a Deus pedindo que me dê o dom do amor, para que eu cultive proximidade com as pessoas, especialmente com os pequenos e os pobres.

Conversão à dinâmica do corpo, chutando o excesso de institucionalização

A Jocum geralmente quer "jogar na área" e fazer gol de qualquer jeito. Quanto mais eu ouço sobre essa missão, mais ela me cativa. Esse era também o lugar onde eu gostava de jogar; e jogava. Com o tempo fui aprendendo a fazer o jogo da costura, bem posicionado no meio-de-campo, para continuar com a linguagem do futebol. Não estou fazendo nenhuma confissão de arrependimento por ter jogado nesse lugar, que também considero importante no campo do reino. Mas preciso reconhecer que, se não tiver gol, o monótono jogo de meio-de-campo, "bola pra lá, bola pra cá", torna-se cansativo e sem sentido. Em outras palavras, os processos de institucionalização clerical e eclesial que tenho visto em minha própria denominação, e que sempre voltam a ocorrer em nossas igrejas e em nossas vidas, são um cansativo caminho que gera defesa de fronteiras, contornos e privilégios, e que acaba matando a própria missão e o explodir da vida e da "boa bagunça" que precisa acontecer na nossa vida e na vida de toda expressão da realidade do reino de Deus. Oro pedindo que Deus me dê olhos para ver as regras do seu jogo, dando-me muita sede de gol - do gol da salvação, que sempre é muito bom!

Conversão à vida, relativizando a sistematização

É um pouco difícil falar sobre isso, pois o jargão teológico acaba se impondo. Falo dos processos de sistematização num esforço por fazer da teologia um discurso lógico e da fé, um processo racional. Eu aprendi a fazer isso, mas há um bom tempo estou querendo ir além desse jeito de falar da nossa fé. Esse jeito que formula conceitos, mas tende a colher abstração; sistematiza conhecimento, mas gera distância pessoal e relacional; procura explicar Deus, mas se embaralha em sua própria e limitada linguagem. É claro que a fé tem conteúdo e deve se expressar em conhecimento, mas tenho aprendido que Deus não se deixa enquadrar nem sistematizar; tenho aprendido que Deus rompe com os meus esforços cognitivos e bagunça com eles. Deus anda por lugares que eu acho estranhos, faz o que eu reluto em fazer, relaciona-se com pessoas das quais mantenho distância, sempre na busca da salvação e na vivência do amor - coisas das quais eu nunca dou conta. Por isso, preciso orar que Deus me dê olhos de fé que me ajudem a ver tanto a carência como o brotar da vida.

Conversão à oração, abandonando os processos de excessiva racionalização

Uma coisa tem a ver com a outra e acabo me repetindo. Assim como eu busco a institucionalização para o exercício do controle e a sistematização para dominar o conhecimento, também enveredo pela "cerebralização" para nunca perder o controle nem deixar de dominar as fronteiras, numa radical vivência de ilusão. Ilusão na qual Deus nunca embarca e que ele sempre desmonta. É claro que não quero abandonar o meu cérebro; mas este precisa entender que se entregar nas mãos de Deus e abandonar-se aos seus cuidados é algo que nunca se deve deixar de fazer. Já percebi que a oração mais real não é aquela em que eu formulo as coisas claramente para Deus, mas sim aquela na qual as minhas palavras se transformam em silêncio de espera e a minha articulação racional se transforma num gemido. Oro, então, que Deus continue a converter a minha vida de oração na gestação de uma relação com ele e a partir dele com o outro, especialmente o pequeno e o pobre.

Posso convidá-lo a orar pela minha conversão e a converter-se comigo?

Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.

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