Preparados para a boa obra

Preparados para a boa obra

Atualizado: Sexta-feira, 5 Novembro de 2010 as 1:54

Todo crente sabe que o Senhor não habita em santuários feitos por mãos humanas – mas como fazer a obra crescer se não houver lugar para reunir o povo de Deus? Afinal, seja qual for a denominação ou o perfil teológico, toda igreja precisa de um templo. Desde os majestosos prédios capazes de abrigar milhares de fiéis e oferecer-lhes confortos como ar condicionado central e som de cinema, até salinhas alugadas de periferia, os templos evangélicos multiplicam-se pelo Brasil. Impossível saber quantos eles são – já se fala em pelo menos 200 mil congregações no país –, mas todos precisaram ser erguidos ou adaptados de acordo com as necessidades, o gosto e os recursos disponíveis de cada grupo. E na hora de construir, reformar ou mesmo ampliar templos, há que se levar em conta uma série de fatores, além da fé. O próprio Cristo advertiu seus seguidores de que, antes de se fazer uma construção, é preciso planejar minuciosamente a obra, para evitar o fracasso. Assim, o que parecem pequenos detalhes podem virar armadilhas e trazer enorme dor de cabeça.

Segundo projetistas e construtores, detalhes funcionais, e mesmo legais, têm sido repetidas vezes esquecidos por pastores e líderes evangélicos. Antes de mesmo de iniciar a construção, ou seja, ainda na fase de definição da área do novo templo, é importante a consulta a um profissional –engenheiro ou arquiteto –, para a elaboração do chamado Estudo de Viabilidade Técnica Legal. É esse levantamento que vai fornecer informações fundamentais para o êxito do empreendimento, tais como o índice de aproveitamento do espaço, a altura máxima do prédio e a classificação do uso do edifício, além da permeabilidade mínima do solo e suas dimensões necessárias para a construção de uma igreja.

A arquiteta Gláucia Velasco, que coordena todos os projetos de construção da Igreja Internacional da Graça de Deus – uma das que mais constroem ou adaptam templos no país –explica que, numa construção destinada a reuniões de público, o projeto precisa ser minucioso nos detalhes. “O hall de entrada tem de ser dimensionado segundo a capacidade do salão de culto, ou seja, no mínimo um metro quadrado para cada oito pessoas. A nave deve ocupar lugar de destaque, ter fácil acesso, visibilidade e acústica adequadas", ensina. Além disso, diz a especialista, a circulação central e lateral tem que ter no mínimo 1,20m. "Parece simples, mas não é. Apesar de envolver questões de segurança, essas regrinhas básicas, muitas vezes, não são seguidas por quem constrói” diz a arquiteta.

Gláucia lembra ainda que a disposição das poltronas não pode terminar junto às paredes e que o templo deve ter espaços para rampas ou elevadores destinados a pessoas com mobilidade reduzida: “As portas devem abrir de dentro para fora e ter ferragens anti-pânico, com largura mínima de dois metros”, completa.

Impacto – Outro item estrutural fundamental, mas freqüentemente negligenciado, é o estacionamento.  Apesar de obrigatório para aprovação de um projeto de construção de templo religioso, há vários exemplos no Brasil de denominações evangélicas que não pensam em delimitar um local para os carros de seus membros, dirigentes e visitantes. Por se tratar de um pólo gerador de tráfego, o impacto viário que o templo vai trazer à região onde funcionará tem que ser analisado por órgãos públicos. No Rio de Janeiro, por exemplo, como os critérios da Secretaria Municipal de Urbanismo e os da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Rio) são diferentes, há a necessidade de o projeto ser analisado nos dois órgãos para uma definição final sem falar da possibilidade de incluir vagas em estacionamentos próximos, desde que em terrenos próprios ou com contrato de aluguel comprovado, para completar o número mínimo de vagas exigido.

Além das questões legais e itens de segurança, o arquiteto paranaense Shileon Ferreira Martins, especializado na construção de templos, lembra que não se pode esquecer do bem estar das pessoas que vão freqüentar o local. “Costumam ocorrer falhas graves neste aspecto”, comenta. “Em geral, não há uma preocupação com o conforto térmico, luminoso e acústico." Ele explica que é preciso prever o posicionamento da edificação em relação ao sol, a possibilidade de ventilação natural e o desempenho térmico dos materiais utilizados para edificação. "Já o conforto luminoso é aquele que proporciona um melhor aproveitamento da iluminação, seja natural ou artificial, na edificação." A acústica arquitetônica, por outro lado, tem profunda relação com a forma interna do imóvel. “Em ambiente onde a acústica não se encontra adequada, as pessoas podem sentir algum desconforto, como perda de concentração, dor de cabeça e outros distúrbios físicos” explica Shileon.

Especialista em acústica, a arquiteta e pastora Claudete Brito conta que, em seus 30 anos de experiência, já corrigiu erros surpreendentemente grosseiros quando o assunto é dinâmica de som nos locais de culto: “Há igrejas que mantém as casas de máquinas, ou seja, aquelas que abrigam o ar-condicionado central ou os elevadores, próximo dos púlpitos. A conseqüência disso é um ruído que atrapalha o bom andamento da reunião, seja qual for a liturgia da igreja”. Claudete, ligada à Igreja Maranata, do Rio, diz ainda que telhados mal projetados, janelas sem dimensionamento adequado e determinados tipo de forros prejudicam o som e podem ser até perigosos: “Vejo que muitas igrejas utilizam isopor ou PVC para forrar seus templos, devido ao preço barato desses produtos. Ocorre que eles são péssimos para a acústica – e, em caso de incêndio, o PVC é extremamente prejudicial a saúde”, alerta.

Versatilidade – Claudete lembra que, na hora de construir, a liderança da igreja não deve ignorar que há novos materiais que podem ser até combinados com os tradicionalmente usados, e com vantagens. “A madeira, durante muito tempo empregada para a cobertura, hoje é substituída pela estrutura metálica, devido ao seu custo e possibilidade de vencer grandes vãos”, exemplifica. A alvenaria de tijolos, por sua vez, está sendo trocada pelo gesso acartonado como divisória interna de espaços. “Isso permite muita flexibilidade, rapidez na montagem e limpeza na obra”, aponta a pastora.

Para Shileon Martins, toda igreja deve buscar soluções práticas e inovadoras que não vão onerar muito a obra. “Afinal, é preciso estar atento ao orçamento”, lembra. O projetista diz ainda que a arquitetura do templo pode até comunicar alguns valores importantes para a fé cristã: “Formas, cores e luzes têm significado num local que reúne pessoas de uma mesma fé e cuja finalidade é a adoração, o culto a Deus. Até a concepção da aparência do edifício pode ser um convite para que o visitante entre e ouça a Palavra.”  

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