Professor metodista de BH ensina robótica a crianças carentes com eletrônicos descartados

Professor metodista de BH ensina robótica a crianças carentes com eletrônicos descartados

Atualizado: Quinta-feira, 3 Dezembro de 2009 as 12

Impressoras quebradas, celulares descartados, videocassetes antigos, além de palitos de picolé, tampas de garrafa e muita boa vontade. Esses são os ingredientes que estão ajudando a transformar a vida de crianças e adolescentes de comunidades carentes de Belo Horizonte (MG). O idealizador do projeto é um professor mineiro que estuda pedagogia e autodidata em robótica e programação. Juntando esses conhecimentos às sucatas tecnológicas, Liberato Ferreira montou uma oficina na qual todas as crianças das redondezas são bem recebidas para colocar a mão na massa, ou melhor, nos fios, chips e na madeira para construírem robôs de todos os tipos.

Pernambucano, de Jaboatão dos Guararapes, na periferia de Recife (capital do Estado), Ferreira fez cursos de montagem, programação de computadores e Robótica na Universidade Federal do Pará. Ele também já foi professor de Tecnologia Educacional para crianças e adolescentes no Instituto Izabela Hendrix e hoje tem sua empresa de desenvolvimento de projetos de robótica. Por amor à educação e vontade de ajudar a quem precisa e não tem oportunidade, Ferreira juntou capital e pôde se afastar por mais tempo de sua empresa para se dedicar às crianças de comunidades carentes.

No Bairro São Gabriel, em Belo Horizonte, duas vezes por semana, quatro jovens de 11 a 15 anos deixam os brinquedos e jogos de lado e dedicam-se às lições do professor Liberato. Entre os projetos, os estudantes estão aprendendo a montar uma roda gigante de palitos, inclusive com motor para ter giro automático, e uma esteira, como aquelas de fábrica que transportam produtos de uma parte para outra.

Mas além de aprender esses conceitos de movimentos, medidas, peso e altura, as crianças têm lições de cidadania. "A robótica é o meio que consegui de atrair as crianças para que elas tenham uma lição muito maior", destaca Ferreira.

Segundo ele, cada uma das crianças conseguiu desenvolver características que foram muito além dos conhecimentos oferecidos pelos teóricos. "Nós conseguimos melhorar a autoestima dos alunos e fazer com que eles se sintam úteis e essenciais para o trabalho. Isso os estimula a continuar", conta.

Alguns alunos, de acordo com o professor, no início do projeto não prestavam atenção e acabavam prejudicando outros colegas. "Foi quando pensei que teria que trabalhar com eles individualmente, estimulando os pontos fortes de cada um".

O segundo passo do projeto será ensinar a cada um dos jovens a utilizar o computador. Como os participantes do projeto não têm PC em casa, Ferreira criou uma espécie de "bagbook", ou seja, ele conseguiu uma maleta de madeira, comprou um monitor de LCD por R$ 250 e juntou peças de computadores descartados para montar sua versão de notebook. O PC tem processador Pentium 4, Placa Asus, 512 de memória, HD de 40Gb e HD externo de 80 Gb. Possui amplificador de som externo, Drive de CD removível e uma placa wireless removível.

Com esse computador, os jovens terão lições de programação, além de poderem se familiarizar mais com o equipamento tão importante atualmente. Para ajudar os alunos, o professor criou, ainda, um jogo em que tenham melhor noção de economia e empreendedorismo. "Eles vivem em ambientes em que logo terão que começar a trabalhar para ajudar a família, por isso é importante ensiná-los como administrar as finanças"

O jogo se assemelha ao Sim City, simulador de pessoas mais famoso dos últimos tempos. Os jogadores devem administrar um negócio que inclui uma floresta, uma madeireira e uma fábrica de papel. Com um orçamento limitado, eles têm que gerir os negócios e realizar atividades pré-determinadas pelo professor.

A oficina de robótica tem menos de seis meses, mas já apresenta resultados visíveis. As notas dos quatro alunos na escola melhoraram e os colegas convivem bem melhor. "No começo, alguns meninos vinham para o projeto com o comportamento mais agressivo e hoje nem parecem os mesmos", diz a coordenadora do projeto, Celi Alves Gervásio, 52 anos.

O projeto "Amizade" do bairro São Gabriel atende atualmente cerca de 30 crianças da região e oferece, além das aulas de robótica, aulas de artesanato, alimentação e recreação. É mantido por meio de doações e todos os trabalhos são feitos voluntariamente.

"Os alunos melhoraram as notas, a habilidade motora, a autoestima e o convívio social",

"Estamos aprendendo noções de medidas e começamos a utilizar isso na escola",

"Tínhamos muitas crianças em risco de desviar para o caminho do crime".

Por: Susy Laguárdia

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