Queima do Alcorão causa revolta e morte no Afeganistão

Queima do Alcorão causa revolta e morte no Afeganistão

Atualizado: Sexta-feira, 10 Setembro de 2010 as 3:18

Os planos do pastor americano Terry Jones de queimar cópias do Alcorão - livro sagrado dos muçulmanos - no dia 11 de setembro levaram milhares às ruas em violentos protestos no Afeganistão. Tropas da Otan abriram fogo contra os manifestantes, deixando ao menos um morto, segundo agências de notícias internacionais.

A ira dos afegãos teve início na cidade de Faizabad, capital da Província de Badakhshan, no nordeste do país, onde milhares de pessoas atiraram pedras contra uma base da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) administrada pela Alemanha.

Ainda na noite de quinta-feira Terry Jones suspendeu o plano de queimar cópias do Alcorão, em entrevista coletiva ao lado do imã Muhammad Musri, presidente da Sociedade Islâmica da Flórida Central, que teria concordado em mudar os planos de construção de uma mesquita no marco-zero dos atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova York. Mais tarde, no entanto, o pastor disse ter sido enganado e que repensaria sua decisão de não queimar os livros sagrados do islã.

Em reação, tropas da aliança militar abriram fogo, deixando ao menos um morto e 11 feridos. A ação elevou ainda mais a ira dos afegãos, e pouco depois os protestos tomaram a capital Cabul e mais quatro Províncias.

Milhares de afegãos tomaram as ruas do país em protesto ao pastor dos EUA que ameaça queimar cópias do Alcorão

As manifestações ganharam força após o término das orações de sexta-feira, quando milhares de afegãos deixaram mesquitas ao redor de todo o país, celebrando o final do Ramadã - o mês sagrado para a religião.

AMEAÇAS

Na Província de Nangahar, chefes tribais indicaram que lançarão ataques contra mais bases da Otan caso o pastor americano siga adiante com seus planos.

"Se eles fizerem isso, nós vamos atacar bases americanas próximas à fronteira com o Paquistão e bloquear as estradas usadas por comboios que levam suprimentos às tropas americanas", disse um religioso islâmico identificado somente como Zahidullah.

Na capital Cabul, religiosos classificaram o plano de Jones como perigoso em seus sermões durante as orações de sexta-feira.

"Os muçulmanos estão prontos para sacrificar seus próprios filhos, pais e mães pelo islã e pelo Alcorão", um dos clérigos disse à multidão, em meio a gritos de "Allahu Akbar" ["Deus é o maior", em tradução livre].

O secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, classificou como um 'ato terrível' o plano de Jones, após reunir-se em Washington com o presidente americano, Barack Obama.

Para ele, qualquer ato que não demonstre respeito representa um risco e 'pode ter consequências (aos soldados) no Afeganistão'.

APELO DE OBAMA

Ainda na quinta-feira, em entrevista ao programa da rede ABC "Good Morning America", o presidente americano, Barack Obama, criticou os planos do pastor Jones e disse que o evento servirá como uma "bonança para o recrutamento" de terroristas pela Al Qaeda.

Obama pediu ainda a Jones que ouça "os melhores anjos" e cancele a campanha prevista para o próximo sábado, exatos nove anos após os atentados terroristas em Nova York e Washington.

"Se ele estiver ouvindo, eu espero que entenda que o que ele está propondo fazer é completamente contrário aos nossos valores como americanos", disse Obama. "Este país é construído na noção de liberdade e tolerância religiosa", continuou o presidente.

"Eu apenas quero que ele entenda que esta pegadinha que ele está planejando pode colocar em grande risco nossos homens e mulheres de uniforme", defendeu Obama, repetindo argumento do general David Petraeus, comandante das tropas internacionais no Afeganistão.

"Olhe, isto é uma bonança para o recrutamento da Al Qaeda. [...] Se o plano for realizado, pode servir de incentivo para indivíduos terroristas se explodirem para matar outros", alertou Obama, em um tom mais direto do que costuma usar em questões nacionais. "Eu espero que ele ouça aqueles melhores anjos e entenda que isto é um ato destrutivo."

A reação de Obama é apenas a mais recente entre o alto escalão em Washington. Nesta terça-feira, a Casa Branca declarou publicamente estar preocupada com a queima do Alcorão e alertou que o projeto coloca em risco as tropas americanas no Afeganistão e pode ser usada por terroristas como campanha contra os EUA. As críticas vieram também do chefe da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), Anders Fogh Rasmussen, da secretária de Estado, Hillary Clinton, e do secretário de Justiça, Eric Holder. A lista de críticos inclui ainda a Índia, o Vaticano e a Liga Árabe.

INTERPOL EM ALERTA

A Interpol alertou aos governos do mundo todo nesta quinta-feira para o aumento no risco de ataques terroristas caso o pastor evangélico Terry Jones leve à frente o Dia Internacional para a Queima do Alcorão.

"Se a queima do Alcorão pelo pastor for mesmo realizada, há grande probabilidade de novos ataques contra pessoas inocentes", disse a Interpol em um comunicado divulgado nesta quinta-feira.

"Considerando que fomos alertados sobre uma ameaça significativa contra a segurança pública, é nosso dever garantir que essa informação seja repassada às autoridades de todo o mundo para que tomem as medidas adequadas", disse o secretário-geral da Interpol, Ronald K. Noble.

A Interpol pediu ainda que qualquer país que receba informações sobre ameaças específicas entre em contato com sua sede, que estará "24 horas em alerta".

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