Relação de crianças com a religião vai mudando à medida que crescem

Relação de crianças com a religião vai mudando à medida que crescem

Atualizado: Terça-feira, 30 Novembro de 2010 as 9:38

Baseado em uma pesquisa de campo, realizada entre os anos 2000 e 2005 na cidade de Catingueira, na Paraíba, o estudo “Tornando-se adulto: uma abordagem antropológica sobre crianças e religião”, publicado na revista Religião & Sociedade de julho de 2010, analisou as percepções de crianças de diversas faixas etárias acerca das atividades religiosas das quais participam.

A autora Flávia Pires, antropóloga e professora adjunta do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), escreveu o artigo a partir da análise de 297 desenhos e redações produzidos por crianças de três a 13 anos de idade, com o tema “A Minha Religião”. Ela percebeu que a maioria dos desenhos sempre contava com a representação de uma igreja.

Segundo Flávia, a forma como as crianças representavam essa instituição variava de acordo com a faixa etária. “Nos primeiros anos pesquisados os desenhos apresentam a igreja ‘solta’ na folha de papel, sem qualquer outro desenho associado. Com o passar dos anos a igreja vai frequentemente aparecer acrescida de elementos contextuais, dos quais se destaca a cidade que a rodeia, com sua praça, cruzeiro, ruas”, diz a pesquisadora, evidenciando a forte relação entre igreja e sociabilidade estabelecida na mente infantil. Muitas crianças, na faixa de 10 a 13 anos, relatavam ir à igreja com amigos ou colegas. Flávia Pires cita o desenho de um menino de 10 anos, que representou “Minha Religião” como um grande castelo onde havia pessoas em cada torre. Quando questionado sobre como seu desenho associava-se à religião, ele disse: “tem gente. E é bonito”, conta a antropóloga, reproduzindo a resposta do garoto.

Assim, o que a pesquisa mostra é que a relação das crianças com a religião não passa por questionamentos de pertencimento a um credo ou qualquer outra forma de contexto simbólico. Tanto que “pelo menos seis crianças, nas idades de nove, dez e treze anos de idade, desenharam igrejas que elas não frequentam: católicos desenharam igrejas ‘crentes’ e evangélicos desenharam igrejas católicas”, afirma a pesquisadora no artigo. Para ela, isso é uma evidência não de que as crianças não saibam a diferença existente entre as muitas religiões, mas sim de que, na visão infantil, a igreja é “tomada somente enquanto prédio, templo, edifício que compõe a paisagem da cidade”, considera a autora.

As conversas e desenhos coletados durante a pesquisa parecem provar a tese de Flávia de que a relação das crianças com o simbólico é diferente daquela estabelecida por adolescentes e adultos. “Os símbolos são tomados por sua materialidade; por exemplo: o Divino Espírito Santo, símbolo conhecido pelas crianças, é de fato um passarinho, que voa, põe ovo e canta, como um pássaro comum”, exemplifica no artigo.

Tal diferença se expressa nas próprias motivações para ir à igreja. Se uma criança poderia justificar a ida dizendo que vai “porque meu irmão vai”, é mais lógico que um adulto faça o mesmo dizendo ir “por ser uma pessoa religiosa”, compara no artigo. “Em poucas palavras: quando criança, o credo ou o objeto religioso eram tidos como irrelevantes. Quando adulto, entretanto, a religião parece tornar-se a grande razão do comparecimento à igreja”, afirma Flávia. Tornar-se adulto, em um contexto religioso, passaria então por um processo no qual novas relações simbólicas são criadas, resultando em uma “conversão de perspectivas”, onde o simples materialismo de ir à igreja por hábito se transforma em uma expressão da identidade religiosa de cada um.

Para ver o artigo na íntegra, acesse: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-85872010000100008&e001;=pt

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