República em Curitiba - PR reúne estudantes cristãos há 40 anos

República em Curitiba - PR reúne estudantes cristãos há 40 anos

Atualizado: Segunda-feira, 15 Março de 2010 as 12

No title "Vamos lá em casa!" pode ser um convite banal e corriqueiro, aquele de todos os dias, para muitos, mas para os 75 jovens moradores da Casa do Estudante Luterano Universitário (Celu) tem um sentido especial. Distantes - e muitas vezes milhares de quilômetros - de suas famílias, eles são unânimes em afirmar que o local transcende ao sentido de ter um lugar para morar. É um espaço onde podem manter sua identidade, integrar-se com pessoas de outras culturas e aprender novos valores. As únicas condições impostas são ser estudante, não ter família em Curitiba e passar pelos testes de seleção.

Balzaquiana, a Celu comemorou 40 anos na semana passada, mantendo seu charme e beleza frugal: poucos adereços e móveis, só o essencial. Pelos inúmeros quartos, distribuídos em três andares, já circularam mais de 800 estudantes, segundo o atual presidente, Edson Luís Lau Filho. Palco de inúmeras histórias, tem o Passeio Público como quintal, e há quem diga que em idos tempos era possível pescar no lago em frente do prédio, pela janela do quarto. Na lembrança coletiva, surgem outras lendas, como a panela queimada misteriosamente, e a curiosidade em saber se um dia a velha prostituta Tia Índia - que joga os longos cabelos pretos e deve ter quase 70 anos - conseguiu que algum jovem aceitasse seu convite.

Durante as quatro décadas, o entra e sai de estudantes - na grande maioria de instituições públicas e quase 100% masculina - significou não só o crescimento educativo, mas o crescimento como pessoa. "Você chega aqui moleque e, quando volta para casa, a família percebe que você está amadurecendo", define Lau Filho. Isso graças ao engajamento com as secretarias como as de bem-estar, esporte, lazer, limpeza e pastoral, que motivam a participação comunitária. Aprender a arrumar a cama, fazer café e gerenciar uma casa faz parte da rotina.

Experiência

O angolano Avelino Chico, 30 anos, sabe muito bem disso. Chegou a Curitiba em 2005, através de um convênio que o país africano tem com o Brasil. Direto de uma pequena cidade chamada Huambo, a experiência de desembarcar em um país diferente e ser acolhido em uma casa de estudantes, com dezenas de desconhecidos, foi única. As três bancas a que foi submetido para o ingresso já serviram de termômetro para identificar que o local era sério e requeria responsabilidade. Em uma delas, ficou mais de 15 minutos com um vaso pesado no colo, sem saber o motivo. Era um teste para saber sua reação ao inesperado. Brincadeiras à parte, ele diz que vai retornar a Angola muito diferente do que chegou. "Vim para estudar, mas levo mais do que o título de advogado; levo no pacote o aprendizado de valores", define.

Assim como ele, os integrantes mais jovens também têm essa percepção. O estudante de engenharia cartográfica da UFPR Hamilton Vendrame, 22 anos, morador da casa desde 2009, sabe o quanto são necessários os vínculos criados para sobreviver em uma cidade desconhecida. Vindo de Tupã, interior de São Paulo, ele lembra que as "tias" Ana, Angelina e Nonô, responsáveis pela limpeza e organização do café da manhã, são mais do que funcionárias: são as novas mães, para compensar a ausência das que eles deixaram para trás. São elas que cobram, puxam as orelhas, têm ciúmes das namoradas, mas sabem dar colo e ouvir o choro quando a saudade aperta.

Também sempre dá para contar com o apoio da "veia", como são chamados carinhosamente os companheiro de quarto, por serem moradores mais velhos e experientes. "Não tem como se isolar neste lugar. Você começa a morar com desconhecidos que acabam virando irmãos no futuro", diz Vendrame. O estudante de Odontologia da PUCPR Vagner Alcides, 22 anos, também mantém seu respeito a quem é visto como uma figura chave no bom andamento da casa. As dificuldades financeiras sobressaem quando a única renda é proveniente do salário de estágio, mas Alcides diz que os R$ 135 reais pagos mensalmente significam muito pouco quando se pensa no que se recebe do local.

História

Idealizada pelo pastor evangélico Richard Wangen, na década de 70, a casa também é democrática. A religiosidade não é imposta, porém para o estudante de Biologia da PUCPR Lucas Marocci, 19 anos, a tendência nos últimos tempos é de moradores cristãos. "Acreditam em Deus, em Cristo, mas não é condição de escolha", descreve.

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