Reverendo presbiteriano explica a essência da palavra religião

Reverendo presbiteriano explica a essência da palavra religião

Atualizado: Segunda-feira, 5 Setembro de 2011 as 1:56

Reverendo da Igreja Presbiteriana em Piracicaba, Sérgio Paulo Martins Nascimento explica a essência do significado da palavra religião.

Nascido em 24 de agosto de 1960, na cidade de Campinas, é filho do sergipano Joel Silva Nascimento, sua mãe é paulista, natural de Avaí, ambos descendentes de famílias presbiterianas. O reverendo Sérgio Paulo Martins é da terceira geração de presbiterianos, primogênito de uma família de cinco filhos naturais e uma filha adotiva. Seguiu a vocação religiosa indo estudar no Seminário da Igreja Presbiteriana do Brasil de origem calvinista, nascida na Escócia com John Knox. No dia 12 de agosto a Igreja Presbiteriana comemorou 152 anos de presença no Brasil, embora os primeiros presbiterianos tenham chegado antes ao país. Sérgio Paulo ocupa altos cargos dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil, além de ser o coordenador de centenas de grupos que realizam missões em todos os continentes.

Desde 2000, é presidente da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT), que atualmente administra projetos em 26 países e em 15 tribos indígenas no Brasil. Pregou em dezenas de países, desde a Inglaterra, Japão, até em pequenas aldeias nos confins da Ásia. Homem de muita fé, Sergio transmite a essência do significado da palavra religião.

O senhor tinha alguma outra atividade além de estudar?

Sempre gostei de trabalhar. Aos oito anos já vendia alguma coisinha: alface, doces. Com 11 ou 12 anos eu nunca tinha vindo a Piracicaba, mas vendia a famosa “pamonha de Piracicaba”, pelo menos quem as fornecia dizia que vinha buscá-las aqui, eu distribuía com duas cestinhas. Chegava a vender até 100 pamonhas por dia. Com 12 a 13 anos ingressei no Patrulheiro Mirim e logo fui trabalhar em um escritório de advocacia e contabilidade onde permaneci até ir estudar no seminário.

Atualmente trabalhar com essa idade é proibido por lei. Qual é a opinião do senhor a respeito?

Acredito que o garoto a partir dos 14 anos deve ter outra atividade, só estudar não é suficiente para criar caráter. Não se trata da questão da informação ou do conhecimento, trata-se da formação do caráter. Atualmente os pais trabalham e as crianças são formatadas em seus caracteres pela internet, pela mídia. Isso é muito perigoso. Uma das grandes razões de enfrentarmos a sociedade em processo de degradação, principalmente entre jovens e adolescentes é devido a isso, essa “nova” educação.

Como o senhor vê o Estatuto da Criança e do Adolescente, o famoso ECA?

O ECA tem vários pontos positivos, mas tem outros que travam esse desenvolvimento do caráter. Muitos desses garotos se sentem protegidos para exercerem a criminalidade, sabem que não serão punidos. A punição é mais para os pais, quando em casos extremos vão para as casas, tentarem corrigir. Sou favorável a diminuição da idade penal, a exemplo de vários países que adotaram essa medida. Se fosse reduzida para 16 anos poderia inibir um pouco. O próprio governador do estado tem trabalhado essa questão do alcoolismo, tentando proibir a venda e o uso do álcool nos estabelecimentos, hoje há casos de crianças com oito anos já alcoólatras. Isso tudo é reflexo de que alguma coisa está errada, com uma nova lei que vai penalizar o proprietário do estabelecimento que permite a venda e o uso também, está se tentando mudar essa situação.

O ECA foi instituído pela Lei 8.069 no dia 13 de julho de 1990 inspirado pelas diretrizes fornecidas pela Constituição Federal de 1988, elaborado por um grupo de pessoas tidas como especialistas em educação. A igreja teve alguma participação ou foi consultada?

Não me lembro de ter havido essa participação ou ter sido consultado. Essa lei veio de cima para baixo, no sentido de proteger a criança. O Brasil não tem falta de leis, temos as melhores leis do mundo. O problema é a eficacia na execução dessas leis. Não ha fiscalização suficiente para coibir esses abusos.

A ida do senhor ao seminário foi fruto de uma vocação?

É uma vocação, um chamado divino. No meu caso foi muito claro, até mesmo por ter sido criado na igreja desde cedo. Costumo dizer que desde o útero materno já cantava os hinos da igreja. Meus pais sempre foram muito assíduos. Eles vêm de uma geração de evangélicos reformados, protestantes, presbiterianos. Temos o habito de irmos à igreja pelo menos três vezes por semana. Minha ida para o seminário se deu quando eu tinha 18 anos. Fui para Jacutinga, Minas Gerais. Lá estudei teologia focada na área de Missões Transculturais, um curso especializado em nativos ainda não evangelizados, essa era a minha meta desde muito jovem. Essa preocupação com os grupos étnicos sempre me atraiu. Resolvi que quando fosse me preparar para o ministério pastoral iria focalizar esses grupos, as minorias étnicas, tanto no Brasil como no mundo. Após concluir o seminário teológico fiz mestrado em missiologia, no Centro Evangélico de Missões na cidade de Viçosa. Aos 22 anos conclui meus estudos abrangendo as áreas de antropologia, fenomenologia cultural, para que pudesse entender a dinâmica dos grupos étnicos. Nesse tempo conheci minha esposa Marlene Xavier Nascimento, naquela época ela estava fazendo treinamento para iniciar o ministério.

Em que cidade foi o casamento?

Foi em Itajubá, Minas Gerais, no dia 16 de janeiro de 1982. Nosso filho mais velho, o Felipe, nasceu no dia 17 de dezembro de 1983, atualmente mora na França. O segundo filho é o Guilherme, hoje com 25 anos, mora em São Paulo.

Recém casados, onde o senhor e sua esposa foram morar?

Fomos para Santarém, no Pará. Na época eu fazia parte de uma equipe que fazia contato com índios arredios, que não tinham tido contato com a civilização. Fazíamos pesquisas sobre os vários grupos étnicos que existiam naquela região. Fiquei em Santarém, trabalhamos com esse grupo chamado Zoés, fizemos o contato, estabelecemos o início do trabalho, a organização com a qual eu trabalhava precisava de alguém para treinamento e capacitação de liderança na Guiana Francesa com os Palaikulos. Fui trabalhar com eles. Hoje eles têm um grupo muito forte em Caiena. De lá fomos trabalhar em Anápolis. Estive e ainda vou até hoje junto ao Congresso Nacional Brasileiro para lutar com respeito as questões relacionadas aos indígenas. De Anápolis voltei para esse ambiente de missão, fui para o Norte de Goiás, atual Estado de Tocantins, inclusive fiz parte da comissão de criação do Estado. Eu estava em Miracema de Tocantins, que foi a primeira capital do Estado, juntamente com o primeiro governador, Siqueira Campos. Fui convidado a ser deputado estadual, pressionado inclusive, mas não é a minha vocação. Comecei o Projeto Bom Samaritano, para que tanto o pobre como o rico sentassem no banco escolar recebendo ensino de qualidade. Atuei muito forte na política educacional do Estado que estava nascendo, chegamos a ter 3.500 alunos. De lá fui para o Sul de Minas, em Maria da Fé, uma comunidade muito antiga, com mais de 100 anos. Desenvolvemos um projeto educacional, criamos o que hoje é chamado Programa de Saúde da Família. De Maria da Fé fui à Casa Branca, onde eu havia sido seminarista, é uma igreja muito antiga, quase 90 anos, lá fizemos com que a igreja saísse de suas paredes e atuasse fora. De Casa Branca vim á Piracicaba.

O suporte para a sobrevivência da missão era fornecido como?

Através de recursos da igreja, pessoas e amigos que acreditavam no nosso trabalho. Ajudavam no básico para a nossa subsistência, sem nada de extravagante. Uma das coisas pelas quais lutamos é não ostentar nenhum bem, a não ser o que seja essencial, atitude diferente de certos “pastores” que existem por ai, trabalhamos com o mínimo possível. O presbiteriano é ensinado a entender que as riquezas são dádivas de Deus, e são também para investir no Reino de Deus. Somos considerados uma comunidade que abrange a classe média e média alta, por atingirmos mais essa faixa de fiéis. Nossa igreja sempre estudou muito a bíblia, temos uma teologia alicerçada, ela é tida como a Igreja da Bíblia, Igreja da Palavra. Todo presbiteriano ao ingressar na igreja, ao ser recebido pela comunidade, ele precisa na sua publica confissão, uma das perguntas feitas a ele é: “Se ele crê que a Bíblia é a única regra de fé e prática”. Mesmo a tradição de igreja ou familiar não deve ser regra. Seguimos o que a Bíblia ensina.

Atualmente há uma profusão de igrejas que são verdadeiras “bolsas de aplicação na fé”, onde o que o fiel deposita seus recursos na esperança de reavê-los multiplicados “n” vezes. Uma verdadeira negociação com Deus.

Isso é uma grande tristeza para nós. A Igreja Presbiteriana não reconhece essas igrejas como igrejas cristãs. Reconhecemos como seitas cristãs, que é completamente diferente. Elas fogem dos princípios fundamentais. Jesus disse que não devemos entesourar onde a traça e a ferrugem corroem, se eu ensinar as pessoas a acumularem tesouros onde isso ocorre estou indo contra o ensinamento de Cristo. Parece que essas seitas não lêem determinadas partes das escrituras. Paulo escrevendo a Timóteo ensinou que a vida piedosa é melhor do que as riquezas. Não estou afirmando que não precisamos de recursos, Cristo tinha seus recursos, em sua comitiva missionária Judas era o tesoureiro. O grande problema da geração atual, de consumismo exacerbado, são os deuses modernos, o homem acaba sendo escravo do “ter”! Preocupa-se menos com o “ser”! São endeusados coisas e poderes. A nossa preocupação como Igreja Presbiteriana, Igreja Reformada, é trabalhar o caráter das pessoas. O cristão é cristão em todos os lugares, ele não pode ser cristão só na igreja.

Em Piracicaba há uma conhecida avenida onde há mais de duas dezenas de templos religiosos. Isso é exemplo de fé ou uma busca desesperada?

Creio que são as duas coisas. Estatísticas recentes apontam o crescimento de igrejas evangélicas neo-pentecostais no Brasil, em contrapartida outras decresceram, há um decréscimo de 12 por cento da Cristã do Brasil e vinte e quatro por cento da Universal. Um decréscimo muito grande do catolicismo. Um crescimento muito grande dos sem igrejas e dos declaradamente ateus.

Parte desses descrentes dirige-se ás salas de espera de psicólogos e psiquiatras?

Também! Como reflexo negativo de parte dessa sociedade de consumo é que o homem está em busca do imediato, do ontem. O excesso de informações, a velocidade como chegam até nós, faz com que as pessoas fiquem sem rumo, sem norte.

O que é Côngrua Ministerial?

É um valor estabelecido por cada igreja local, juntamente com seu pastor, para ele suprir suas necessidades básicas. Muitos pastores além das atividades ministeriais lecionam em escolas. Eu mesmo por vários anos dei aulas em escola independente da igreja.

Quantos templos presbiterianos existem hoje em Piracicaba?

Atualmente temos a igreja do Piracicamirim com 41 anos, da rua Alferes José Caetano, a mais antiga, com cerca de 60 anos, onde por oito anos fui pastor. A do Astúrias, na Vila Industrial, na Vila Sônia e estamos construindo no Jupiá.

Quantos presbiterianos existem atualmente no Brasil?

Por volta de 1 milhão. Temos muitos membros que são formadores de opinião. O estudo para nós é fundamental.

O senhor realiza trabalhos com outros países?

Sou diretor de uma organização missionária da igreja, meu departamento atua com relações trans-culturais. Atuo no Brasil e em 36 países no mundo todo, em todos os continentes. Daqui de Piracicaba pela parte da manhã gerencio as operações em todos esses países. Cheguei esses dias da Malásia e da Indonésia.

Como é a relação da Igreja Presbiteriana na Malásia?

Muito complicada. O malaio quando nasce já é muçulmano, a conversão ao cristianismo é uma questão de mudança de identidade, tem que ser autorizada pelo governo. A indonésia é o maior país muçulmano do mundo, com mais de 240 milhões de fiéis. Recentemente estive no Suriname um país hindu e muçulmano, a língua mais falada é o Taki-Taki. No ano passado estive na Índia.

O senhor tem algum livro escrito?

Estou escrevendo, iniciei há cerca de um mês, dei o título: “Se a Minha Bota Falasse”, a idéia é dar as minhas impressões sobre todos os países por estive, participando do cotidiano do povo local. Faço questão de participar inclusive das refeições ingeridas pelas famílias locais, o que às vezes rende alguma reação estomacal.

Por que fazer trabalhos dessa natureza fora do país quando temos situações criticas aqui no Brasil?

A visão bíblica da missão é fazer aqui, mas também nos confins de outros países. Para estar aqui e lá ao mesmo tempo eu tenho um tripé: da oração, da interseção; da participação financeira, para apoiar os projetos; e ir fisicamente até a localidade.

Com informações da A Tribuna Via Notícias cristãs

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