Rosto Desvendado - Parte 1

Rosto Desvendado - Parte 1

Atualizado: Quarta-feira, 8 Janeiro de 2014 as 9:57

Rosto Desvendado - Parte 1Quero iniciar este estudo dando os devidos créditos a quem me ajudou a enxergar estas verdades. Ouvi esta abordagem pela primeira vez e aprendi este princípio com o pastor Lawrence Khong, de Singapura, em uma ministração ocorrida em novembro de 1997, na cidade de Londrina, Paraná. Usarei vários textos bíblicos diferentes da mensagem que ouvi, farei outras aplicações e ilustrações, mas a ideia central acerca do comportamento de Moisés que apresentarei é a mesma da pregação que ouvi anos atrás. Portanto, agradeço e glorifico a Deus por aquela mensagem e pela vida do irmão Lawrence que, não apenas me abençoou na ocasião, mas ajudou-me a perceber uma verdade que se transformaria num trilho importante em minha caminhada espiritual e ministerial.
 
Tudo começa com um comportamento específico de Moisés, destacado (e condenado) pelo apóstolo Paulo:
 
“E não somos como Moisés, que punha véu sobre a face, para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia. E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.” (2 Coríntios 3.13,18)
 
Ao dizer “não somos como Moisés”, o apóstolo Paulo não está falando de uma virtude do grande libertador de Israel. Essa seria a parte fácil de entender na vida e no comportamento de Moisés. Ele foi o maior vulto do Antigo Testamento. Alguém de quem Deus disse estar acima dos profetas. Alguém que profetizou a vinda do Messias nos seguintes termos: “Deus há de levantar um profeta semelhante a mim”.
 
O fato é que Paulo está apontando para um erro desse grande líder. Ele fala claramente de uma atitude de fingimento, de falta de transparência. Na verdade, esta é a razão que Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, atribui ao uso do véu por parte de Moisés.
 
E este erro não é exclusividade de Moisés; na verdade, é algo que todo líder (para não dizer todo cristão), em algum momento, também se encontrará lutando para não cometer.
 
POR QUE MOISÉS COBRIA O ROSTO?
Quando criança, debaixo da influência dos ensinos da escola bíblica dominical, eu achava que Moisés punha o véu sobre seu rosto para que as pessoas não se assustassem com seu rosto brilhando… ou seja, para que não vissem a glória! Mas Paulo desmente este mito e afirma que a razão do uso desse véu por parte desse grande líder era justamente o contrário: para que os israelitas não vissem que a glória estava sumindo!
 
Ao olharmos atentamente para o relato bíblico no livro de Êxodo, isto fica bem claro:
 
“Quando desceu Moisés do monte Sinai, tendo nas mãos as duas tábuas do Testemunho, sim, quando desceu do monte, não sabia Moisés que a pele do seu rosto resplandecia, depois de haver Deus falado com ele. Olhando Arão e todos os filhos de Israel para Moisés, eis que resplandecia a pele do seu rosto; e temeram chegar-se a ele. Então, Moisés os chamou; Arão e todos os príncipes da congregação tornaram a ele, e Moisés lhes falou. Depois, vieram também todos os filhos de Israel, aos quais ordenou ele tudo o que o Senhor lhe falara no monte Sinai. Tendo Moisés acabado de falar com eles, pôs um véu sobre o rosto. Porém, vindo Moisés perante o Senhor para falar-lhe, removia o véu até sair; e, saindo, dizia aos filhos de Israel tudo o que lhe tinha sido ordenado. Assim, pois, viam os filhos de Israel o rosto de Moisés, viam que a pele do seu rosto resplandecia; porém Moisés cobria de novo o rosto com o véu até entrar a falar com ele.” (Êxodo 34.29-35)
 
Embora as pessoas tenham se assustado ao ver o rosto de Moisés resplandecendo, o texto sagrado nos revela que ele lhes falou de cara limpa, sem véu algum. O homem de Deus colocou o véu somente depois de falar aos israelitas. E fez isto não só na primeira vez em que seu rosto brilhou; toda vez que ele saía da presença do Senhor o comportamento se repetia: 1) falava ao povo as palavras de Deus; 2) o povo via que seu rosto brilhava; 3) depois de falar e do povo ver que seu rosto brilhava, Moisés cobria a face com um véu até entrar na presença do Senhor e de novo sair com a cara resplandecente da glória divina.
 
A razão apresentada por Paulo na Epístola aos Coríntios é que Moisés não queria que os israelitas vissem que a glória estava sumindo. Aquela manifestação de glória experimentada pelo homem de Deus não era permanente. Cada vez que esse grande líder de Israel entrava na presença de Deus, recebia uma “recarga” de glória. Mas entre uma ida e outra, a glória desvanecia. E Moisés, como líder que já havia aparecido em público com o rosto brilhando, não queria que as pessoas vissem que a glória estava sumindo.
 
Para muitos líderes, depois de terem brilhado diante do povo, a grande dificuldade é serem vistos sem glória, sem unção. Há, dentro de muitos de nós, uma desesperada disposição de esconder nossas fraquezas e limitações. Esta é uma das “doenças” que pode atingir os líderes: o complexo de super-herói. Quando estamos cheios da glória exibimos o rosto resplandecente para todo o mundo; quando não temos, encobrimos o rosto (com um véu de engano) para que as pessoas pensem que ainda estamos brilhando – mesmo que, de fato, já não estejamos.
 
Este erro tem nome: dissimulação. E penso que pior do que errar é querer encobrir isso! Essa atitude é antiga; começou com Adão e Eva. A dificuldade do primeiro casal em admitir seu pecado fez com que eles se escondessem:
 
“Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si. Quando ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim”. (Gênesis 3.7,8) 
 
Este parece ser um padrão de comportamento do ser humano desde o início da humanidade. E repetidamente é visto na vida de líderes que, mais do que qualquer outra pessoa, devido ao seu nível de exposição pública e da responsabilidade de serem homens (ou mulheres) de Deus, não querem que ninguém, nunca, veja qualquer traço de fraqueza ou pecado em suas vidas.
 
Foi exatamente isto o que aconteceu com Davi. Ele cometeu pecado ao adulterar com Bate-Seba, mas isto não ofuscaria sua imagem até que a mulher lhe deu a notícia da gravidez resultante do erro deles. Então, a tentativa de encobrir o pecado cometido só deixou pior a situação. O pecado progride de adultério a homicídio, com a consequente perda do filho gerado (2 Sm 11.6-25). Se o rei Davi tivesse reconhecido seu pecado, em vez de fazer de tudo para esconder seu erro, a história teria sido bem diferente e as consequências não tão graves.
 
Mas, como o homem que foi visto como herói nacional, aquele que as mulheres recebiam com cânticos em seu retorno das guerras, o ungido de Deus, seria avaliado pelo povo que liderava quando se mostrasse sem o brilho de Deus em sua vida?
 
É lógico que o líder deve ser exemplo, modelo para o rebanho, e que deve cuidar para não perder nunca o exemplo. Ele deve vencer suas fraquezas; o que ele não pode é tentar esconder as fraquezas que já o venceram!
 
Quando um líder cristão esconde uma fraqueza, uma limitação (e nem estou falando de pecado agora), sua atitude pode parecer qualquer outra coisa, mas ainda é dissimulação!
 
O apóstolo Pedro, um homem de grande estatura espiritual, uma das colunas da Igreja, quando esteve em Antioquia, acabou demonstrando esta inclinação ao fingimento para que sua imagem não ficasse “arranhada” diante dos demais líderes em Jerusalém:
 
“Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe face a face, porque se tornara repreensível. Com efeito, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; quando, porém, chegaram, afastou-se e, por fim, veio a apartar-se, temendo os da circuncisão. E também os demais judeus dissimularam com ele, a ponto de o próprio Barnabé ter-se deixado levar pela dissimulação deles. Quando, porém, vi que não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho, disse a Cefas, na presença de todos: se, sendo tu judeu, vives como gentio e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?”  (Gálatas 2.11-14)
 
O assunto em questão não era esconder um pecado; somente um ponto de vista, uma opinião, um nível de liberdade que Pedro desfrutava no relacionamento com os gentios e que, obviamente, os irmãos que vieram de Jerusalém a Antioquia não concordavam. O que Pedro fez foi denominado por Paulo como um ato de dissimulação, de fingimento. Ele ainda destaca o fato de que “não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho”.
 
Assim como outros homens de Deus, como Moisés e Davi, o apóstolo Pedro estava preocupado com sua imagem. O que diriam a seu respeito se soubessem do convívio com os gentios? Líderes tendem a não querer mostrar fraqueza, mesmo se nem for fraqueza de fato, se só puder ser interpretada como tal.
 
Mas ao dizer “não somos como Moisés, que punha véu sobre a face”, Paulo mostra que, por haver entendido as consequências deste ato, ele preferiu agir com absoluta honestidade em todo o seu comportamento cristão:
 
“Mesmo que eu preferisse gloriar-me não seria insensato, porque estaria falando a verdade. Evito fazer isso para que ninguém pense a meu respeito mais do que em mim vê ou de mim ouve”.  (2 Coríntios 12.6 – NVI)
 
Ao examinar o contexto desta afirmação, vemos que Paulo estava falando sobre suas experiências com as visões celestiais. Em outras palavras, o apóstolo estava declarando: “Eu poderia impressionar as pessoas contando minhas experiências com Deus, mas não quero que o conceito delas a meu respeito se baseie nisso. Quero que só pensem acerca de mim o que pode ser visto, de forma simples, no convívio diário”. Ele diz claramente: “Eu evito que pensem que sou mais do que aquilo que realmente sou”.
 
Penso que entendo um pouco dessa atitude de Paulo, observando o exemplo de um pastor muito amigo meu: o Francisco. Quando eu tinha apenas três anos de idade, ele teve uma experiência extraordinária. Foi arrebatado em espírito por sete dias! Deitou-se para dormir num domingo à noite e, de repente, um anjo entrou em seu quarto declarando ter sido enviado da parte do Deus Altíssimo com o propósito de mostrar-lhe algumas coisas; tomou-o pela mão e partiu para o que gosto de chamar de um “tour celestial”. O Francisco “voltou” desse arrebatamento uma semana depois, na tarde do próximo domingo. A família, durante esse período, e devido ao fato do Francisco não acordar, chegou a chamar um médico que, ao examiná-lo, disse que todos os sinais vitais estavam bem e os aconselhou a esperar.
 
As coisas que o pastor Francisco viu e ouviu durante esse tempo são surpreendentes. Quando conheci esse querido irmão e soube dessa experiência, questionei porque ele quase não falava sobre isso. Ele me respondeu que fomos chamados para pregar a Palavra de Deus, não nossas experiências. Insisti que as experiências poderiam ser contadas como uma forma de ilustrar e aplicar as verdades bíblicas, não de substituí-las, e, na impetuosidade comum à mocidade, disparei: “Se fosse eu que tivesse passado sete dias no céu, já teria escrito um livro”. Diante disto, o Francisco apenas rebateu: “É por isso que você nunca foi. Esse tipo de experiência não é para fofoqueiro como você”. Minha vontade era dizer: “Desculpe a vergonha que passei”, mas entendi que o silêncio era a melhor forma de encerrar aquela conversa…
 
Compartilhei isso porque, à semelhança de Paulo, o pastor Francisco me ensinou muito sobre não fazer os outros pensar que somos mais espirituais do que o que realmente somos. Ele sempre me dizia que o “o homem de Deus” que ele era tinha que ser visto na simplicidade do relacionamento diário, não numa encenação exagerada de espiritualidade.
 
Diferente de Moisés, e de muitos de nós, Paulo preferia tirar a máscara e se apresentar da forma mais sincera e autêntica possível. E há uma razão para esta postura firme do apóstolo, que abordaremos melhor mais à frente: sem transparência e honestidade não há transformação!
 
O apóstolo Paulo valorizava muito este princípio, não só em sua própria vida como também na vida daqueles em que investia no discipulado. Muitas eu me perguntava: o que Paulo viu em Timóteo que o atraiu tanto? Esse discípulo precisou ser encorajado várias vezes a não negligenciar os dons que recebeu, a não deixar ninguém desprezá-lo pelo fato de ser jovem, e, além disso, não temos registros históricos de grandes conquistas ministeriais da parte dele. Então, o que será que Paulo enxergou nele que produziu uma identificação tão grande? Hoje a resposta me parece clara: uma fé sem hipocrisia:
 
“Ora, o intuito da presente admoestação visa ao amor que procede de coração puro, e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia.”  (1 Timóteo 1.5)
 
Outras versões usam as expressões “fé sem fingimento” ou “fé sincera”. Em sua segunda epístola a Timóteo, Paulo destaca novamente a fé sem hipocrisia (2 Tm 1.5), desta vez atribuindo-a diretamente à pessoa de Timóteo. Isto tudo mostra o quanto o apóstolo levava a sério a questão da transparência, da honestidade e da autenticidade.
 
Luciano Subirá

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